Como o Hospital Judaico de Berlim sobreviveu ao Holocausto
Quando as tropas do Exército Vermelho entraram no local em 1945, ficaram estarrecidas ao descobrir centenas de judeus vivendo a apenas alguns quilômetros do bunker de Hitler. Hospital atende pacientes até hoje.Quando a Batalha de Berlim entre soviéticos e nazistas estava no auge, um grupo de soldados do Exército Vermelho chegou ao Hospital Judaico de Berlim, em 24 de abril de 1945, e encontrou centenas de pessoas vivendo e trabalhando no prédio marcado pela guerra.
"Vocês são judeus? Impossível. Vocês não podem ser judeus, os judeus estão todos mortos", teria exclamado um soldado russo.
O Hospital Judaico de Berlim, juntamente com o Cemitério Judaico de Weissensee, foi a única instituição judaica que continuou funcionando e sobreviveu à era nazista. O hospital atende pacientes até hoje. Mas como pôde essa instituição destinada a preservar a vida judaica sobreviver à máquina de extermínio nazista?
Fundado em 1756, o hospital mudou para o endereço atual, no bairro de Wedding, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Desde sua fundação, o hospital esteve aberto a pessoas de todas as religiões e se tornou um símbolo proeminente da integração judaica.Contudo, após a ascensão dos nazistas ao poder em 1933, o hospital foi proibido de tratar pacientes "arianos", e os funcionários não judeus foram forçados a pedir demissão.
Em dezembro de 1941, os nazistas criaram a chamada "Unidade de Triagem para Reclamações de Transporte" no Hospital Judaico, com o objetivo de determinar a "aptidão" de judeus para a deportação, e Walter Lustig foi enviado para chefiá-la.
Uma figura controversa
Walter Lustig, uma figura controversa retratada ora como herói, ora como vilão no drama da história do hospital durante a guerra, nasceu em uma família judaica em Ratibor (hoje Racibórz, na Polônia) em 1891. Mudou-se para Berlim em 1927 e, inicialmente, trabalhou na polícia, antes de ser demitido em 1933 por ser judeu. Após ter sua licença médica revogada em 1938, Lustig se tornou chefe da divisão de saúde da Associação dos Judeus no Reich, instituída pelos nazistas em 1939.
Essa associação era uma organização altamente controversa. Inicialmente, auxiliava judeus a emigrar da Alemanha. Era obrigatório que qualquer pessoa identificada como judia, nos termos dasLeis de Nurembergue, se tornasse membro e compartilhasse informações pessoais detalhadas, como inventários de bens. Em 1941, a emigração foi proibida, e a Associação do Reich foi forçada a realizar trabalhos preparatórios para a deportação compulsória de judeus para guetos, campos de trabalho forçado e campos de concentração e de extermínio na Europa Oriental ocupada pela Alemanha.
As instituições judaicas foram forçadas a realizar um ato de equilíbrio mortal na Alemanha nazista. Isso incluía Walter Lustig, em sua função de diretor hospitalar e, posteriormente, chefe da Associação do Reich. Algumas testemunhas afirmaram que ele fazia questão de proteger muitas das crianças abrigadas no hospital, devido ao seu "status racial indeterminado".
Outros recordam como Lustig não fez nada quando oficiais da Gestapo inspecionaram o hospital e selecionaram pacientes para deportação. Existem também evidências de que ele abusou sexualmente de mulheres em troca de mantê-las fora das listas de deportação ou de ajudar seus familiares.
Para alguns, Lustig representava o "exemplo mais negativo" de colaboração com os nazistas, afirma Gideon Botsch, diretor do Centro de Pesquisa Emil Julius Gumbel sobre Antissemitismo e Extremismo de Direita, em Potsdam. "Mas o sistema problemático dessa relação entre a comunidade judaica e o aparato de terror nazista é, naturalmente, inerente ao abuso sistemático das instituições judaicas, cujo objetivo era destruir as comunidades judaicas na Alemanha."
As deportações em massa de judeus de Berlim ocorreram entre outubro de 1941 e abril de 1943 - período durante o qual Lustig assumiu a direção do hospital, em 1942. Aos judeus que se encontravam doentes demais para serem transportados para fora da Alemanha, era concedida uma prorrogação de até três meses de permanência no hospital. Nem as mulheres grávidas não eram poupadas, a menos que estivessem prestes a dar à luz; nesse caso, recebiam um prazo de seis semanas antes de serem deportadas com seus recém-nascidos.
Prisão em massa de trabalhadores judeus
No final de fevereiro de 1943, houve a chamada "Fabrikaktion", quando foram presos cerca de 10 mil judeus que ainda atuavam, sobretudo em fábricas, e que ainda não tinham sido deportados porque eram considerados trabalhadores "necessários" para a economia de guerra. Eles foram deportados para o campo de concentração de Theresienstadt, na então Tchecoslováquia ocupada pelos alemães (hoje República Tcheca), ou para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia ocupada pelos alemães. Durante essa operação, quase toda a equipe da Associação dos Judeus do Reich foi deportada para Theresienstadt.
No decorrer de prisões subsequentes, vários médicos judeus, incluindo alguns que trabalhavam no hospital, foram retirados de suas casas e levados para um campo de trânsito no centro da cidade. Após a guerra, Hilde Kahan, a secretária judia de Lustig, descreveria como oficiais organização paramilitar Schutzstaffel (SS) foram ao hospital para discutir a deportação de 50% de sua equipe.
"Uma semana depois, os funcionários visados foram presos em suas casas, juntamente com seus familiares, e nunca mais tivemos notícias deles", relatou Kahan ao Ministério Público de Berlim na década de 1960.
A Associação do Reich foi oficialmente dissolvida em junho de 1943, depois que o ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, declarou Berlim "livre de judeus". Ela foi substituída pela Associação Residual do Reich, com sede no Hospital Judaico, e Lustig foi nomeado seu dirigente, embora sob o controle direto da Gestapo, a polícia secreta nazista.
O hospital assumiu, então, outras funções adicionais: o abrigo central para órfãos judeus foi transferido para lá em junho de 1943; e o último local de passagem em Berlim para judeus que seriam deportados foi transferido para lá em março de 1944. Quase 50 homens e mulheres judeus também foram forçados a trabalhar no campo de trânsito que funcionava junto ao hospital. Alguns ficaram encarregados de administrá-lo; outros receberam ordens para localizar judeus que estavam escondidos e tinham permissão para sair das dependências sem usar a Estrela de Davi.
A mentira que salvou centenas de vidas
Nos últimos dias da guerra, um incidente extraordinário salvou o campo de trânsito do hospital de ser liquidado. À medida que o Terceiro Reich desmoronava, a Gestapo emitiu uma ordem de última hora para fuzilar todos os judeus nos campos.
Em 19 de abril de 1945, Curt Naumann, um ex-funcionário bancário judeu recrutado para trabalhar no campo de trânsito do hospital, entrou no escritório de Erich Möller, chefe do Departamento para os Assuntos Judaicos da Gestapo, onde ouviu-o discutir a referida ordem. Ele tinha acesso ao escritório, pois realiza de diligências particulares para líderes da Gestapo, principalmente comprando para eles itens no mercado negro.
Naumann correu, então, para os correios de Berlim e telefonou para o hospital. Ele conseguiu convencer o oficial da SS de que a ordem para executar os prisioneiros era, na verdade, uma ordem para libertá-los. O raciocínio rápido de Naumann salvou a vida de cerca de 180 internos do campo.
Apesar das ordens de liberação, muitos permaneceram no hospital, pois a área ao seu redor era palco de intensos combates. Quando as tropas soviéticas e os funcionários da Cruz Vermelha entraram no local, em 24 de abril de 1945, encontraram 370 pacientes, 1.000 residentes, 93 crianças e 76 prisioneiros.
A essa altura, a equipe do hospital era composta quase inteiramente por funcionários em "casamentos mistos", entre judeus e não judeus, e pelos chamados Geltungsjuden - pessoas não totalmente judias segundo a religião ou origem familiar, mas que, pelas leis nazistas, eram tratadas como judeus, como os filhos de "casamentos mistos". Havia também pacientes judeus que foram levados para lá para tratamento após adoecerem sob a custódia da Gestapo, da SS ou da polícia.
Um desses pacientes era Bruno Blau, um advogado judeu. Ele havia sido transferido para o Hospital Judaico pela Gestapo em 1942, enquanto cumpria uma pena de três anos de prisão em Tegel. Foi diagnosticado com câncer e mantido no local para tratamento.
Nem uma história de resistência, nem de resgate
A sobrevivência do hospital, e de muitos funcionários e pacientes, não é tão estranha quanto pode parecer à primeira vista, afirma Beate Meyer, historiadora que trabalhou no Instituto para a História dos Judeus Alemães, em Hamburgo.
"Era do interesse daqueles que detinham o poder manter o hospital aberto", explica. "Não foi, nesse sentido, um ato de resistência. Para os judeus, era um local de trabalho e, enquanto as pessoas ali pudessem ser empregadas, estavam, em certa medida, protegidas da deportação, embora estar sob constante vigilância da Gestapo fosse, naturalmente, perigoso".
Para Botsch, a história do hospital não é uma história nem de resistência, nem de resgate. "Por volta de 1943, a maioria dos membros da comunidade judaica já havia sido deportada para Theresienstadt ou assassinada; os que restavam eram os instrumentos mais úteis, na perspectiva da Gestapo, para cumprir a tarefa de destruir o judaísmo alemão."
Já Lustig, no período imediatamente posterior à guerra, esperava reconstruir a comunidade judaica e atuar como seu líder na Berlim ocupada pelos Aliados. No entanto, um boxeador judeu que havia sobrevivido à guerra o identificou como o homem que mandara deportar seus pais e o "nocauteou". Lustig foi visto pela última vez entrando em uma limusine oficial soviética, acompanhado por dois oficiais uniformizados, em junho de 1945. Considerado um colaborador nazista, presume-se que tenha sido fuzilado na floresta pouco tempo depois.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.