Como jovens iranianos estão enfrentando a guerra: 'Não temos outra escolha a não ser viver'
Iranianos dizem que estão se abrigando em casa e raramente saem às ruas quase vazias enquanto a campanha de bombardeios dos EUA e de Israel continua.
Partes da capital iraniana, Teerã, ficaram cobertas por neve na noite de terça-feira (10/3), depois que ataques aéreos contra depósitos de petróleo nos arredores da cidade provocaram dias de céu escuro e "chuva negra".
E a vida continua, mesmo com a guerra se prolongando.
Sahar, uma mulher na faixa dos 20 anos, disse à BBC News Persa que passava a maior parte dos dias abrigada em casa, em Teerã, cozinhando, lendo e jogando um videogame de simulação de vida.
"Acho que minha criatividade aumentou durante a guerra. Estou constantemente estressada e acabo construindo casas mais bonitas no jogo", disse.
Sahar — cujo nome, assim como o dos outros entrevistados nessa reportagem, foi alterado por motivos de segurança — soube na terça-feira que uma mulher com quem havia estudado na escola foi morta.
"O corpo dela não foi encontrado. Fiquei horrorizada ao saber disso", disse.
"Por que precisamos passar por um horror desses quando estamos nos melhores anos da juventude? Eu só quero que isso termine antes do Nowruz. Meus dias favoritos na vida são os primeiros dias da primavera."
Faltam menos de dez dias para o Nowruz, festival de Ano Novo persa que marca a chegada da primavera.
Normalmente, é um período em que as famílias se reúnem para celebrar. Mercados e ruas em todo o Irã costumam ficar cheios de pessoas comprando doces e nozes para receber convidados antes do feriado.
Mas neste ano não tem sido assim, segundo moradores de Teerã.
"Não parece que estamos nos preparando para o Nowruz. Mas, mesmo sob ataques de mísseis, continuamos vivendo. Não temos outra escolha a não ser viver", disse Peyman, um homem na faixa dos 30 anos.
"O metrô está vazio. Tão vazio que, para cada pessoa, há 30 ou 40 assentos desocupados. As ruas também estão muito silenciosas… tão silenciosas que seria fácil jogar futebol no meio da rua", acrescentou.
Outro homem, também na faixa dos 30 anos, disse: "Meu horário de sono agora depende dos bombardeios. Vou dormir por volta das seis ou sete da manhã e acordo às 14h. Às vezes preciso sair para comprar mantimentos, mas Teerã está muito vazia".
Teerã e a província ao redor têm cerca de 14 milhões de habitantes, mas alguns moradores deixaram a região em busca de segurança em outros lugares desde que os Estados Unidos e Israel começaram a atacar o Irã em 28 de fevereiro.
Alguns seguiram para o norte, em direção ao mar Cáspio, onde houve menos ataques.
Mina, uma mulher na faixa dos 20 anos, é uma delas. Ela agora está na cidade de Rasht, norte do Irã, perto do mar Cáspio.
"Minha família insistia para que fôssemos para Rasht ficar com minha avó, mas minha melhor amiga e colega de apartamento não queria deixar Teerã. Eu me senti culpada por ir embora sem ela, então não queria que fôssemos", lembrou.
"Na noite em que atingiram os depósitos [de petróleo], nosso apartamento tremia até a porta de entrada. Todas as janelas se iluminaram como se fosse manhã."
E acrescentou: "Fiquei pensando o tempo todo que, se algo acontecesse com minha família, seria culpa minha por ter dito que não devíamos ir para Rasht.
"No dia seguinte, finalmente fomos para Rasht, em um carro coberto por manchas deixadas pela chuva poluída", contou Mina.
"Minha melhor amiga decidiu ficar em Teerã com a família, mas eu ligo para ela todos os dias. Conversamos ao telefone sobre todas as coisas legais que vamos fazer quando a guerra terminar. Talvez a gente pinte o cabelo de um tom mais claro depois disso."
Ainda é muito difícil entrar em contato com pessoas dentro do Irã em meio ao apagão de internet imposto pelo governo no início da guerra, mas moradores com conhecimento tecnológico têm usado dispositivos Starlink e compartilhado a conexão com outras pessoas.
O sistema de internet por satélite tornou-se um recurso vital de comunicação para alguns que tentam entrar em contato com o mundo exterior. Ele funciona como uma antena de celular no espaço, usando uma constelação de satélites para se comunicar com pequenas antenas no solo que possuem um roteador Wi-Fi integrado.
Usar o Starlink no Irã pode resultar em punição de até dois anos de prisão, e houve relatos de que as autoridades estavam procurando antenas parabólicas para impedir que as pessoas se conectem.
Mehran, na faixa dos 20 anos e morador de Teerã, disse que vinha compartilhando sua conexão Starlink com pelo menos 25 outras pessoas. Ele acrescentou que havia escondido o dispositivo "em algum lugar remoto" para evitar que as autoridades o "encontrassem ou bloqueassem".
Ele disse que permitiu que pessoas próximas a ele se conectassem ao serviço gratuitamente, embora o acesso à internet esteja sendo vendido no aplicativo de mensagens Telegram por cerca de US$ 6 (aproximadamente R$ 30) por 1GB de dados — um preço alto em um país onde o salário médio mensal é estimado entre US$ 200 e US$ 300 (cerca de R$ 1.000 a R$ 1.500).
Shima, uma mulher na faixa dos 20 anos em Teerã que usa uma conexão Starlink para acessar a internet, disse: "Você precisa comprar de alguém em quem confie, caso contrário há a possibilidade de que cortem sua internet depois que você pagar uma quantia considerável."
A organização de monitoramento NetBlocks afirmou na quarta-feira (11/3) que o apagão de internet no Irã havia entrado no 12º dia, com a conectividade ainda em apenas 1% dos níveis normais após 264 horas.
"O serviço VPN Starlink que comprei para emergências é absurdamente caro e leva muito tempo para se conectar, o que me faz duvidar se valeu a pena gastar tanto dinheiro", disse Shima.
"Mas pelo menos posso dizer aos meus entes queridos no exterior que não virei cinzas e que ainda estou viva."