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Como dois policiais infiltrados ajudaram a solucionar assassinato sem resposta por 40 anos

Quatro décadas após a morte de Anthony Littler, a polícia britânica conseguiu se infiltrar na vida dos responsáveis pelo crime e levá-los à Justiça

2 ago 2026 - 20h02
(atualizado às 20h52)
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Anthony Littler foi espancado até a morte em um beco no norte de Londres em maio de 1984. Seus assassinos permaneceram em liberdade por mais de 40 anos
Anthony Littler foi espancado até a morte em um beco no norte de Londres em maio de 1984. Seus assassinos permaneceram em liberdade por mais de 40 anos
Foto: Foto cedida pela família / BBC News Brasil

Pouco depois da meia-noite de 1º de maio de 1984, o funcionário público Anthony Littler desceu de um trem em Londres e entrou por um beco escuro em direção à sua casa.

Dois minutos depois, o homem de 45 anos estava caído no chão, agonizando. Ele havia sido atingido por dois golpes na cabeça. Nada foi roubado. Não havia testemunhas, nem evidências forenses, nem um motivo claro.

Anthony, que os amigos chamavam de "gigante gentil", morava sozinho e era apreciador de cervejas artesanais.

Durante 42 anos, ninguém foi responsabilizado pelo crime — até que, em 3 de julho deste ano, isso mudou.

Michael Stewart, de 57 anos, e Anthony Stewart, de 60, foram condenados à prisão perpétua, com penas mínimas de 10 e 15 anos, respectivamente, pelo assassinato. Os irmãos tinham 15 e 18 anos na época do ataque.

Embora não houvesse provas de que Anthony Littler fosse gay, a juíza Cutts afirmou que os irmãos Stewart escolhiam homens homossexuais como vítimas de roubos. "1984 era outra época e, em muitos aspectos, outro mundo", disse.

Em uma audiência transmitida pela televisão, a juíza declarou aos réus: "Tenho absoluta convicção de que o grupo de vocês estava à procura de uma vítima. Vocês atacaram esse homem decente e honesto e tiraram a vida dele."

Construindo o caso

Casos não solucionados costumam ser esclarecidos graças aos avanços da Ciência: DNA, impressões digitais ou evidências antigas analisadas com novas tecnologias.

Este caso foi diferente. Os investigadores recorreram a uma ousada operação disfarçada: instalaram escutas na casa e no carro de Michael Stewart, colocaram dispositivos de gravação no carro de seu irmão e enviaram dois policiais infiltrados para se aproximar de Michael.

Eles esperavam que ele fizesse o que, ao longo dos anos, havia feito repetidas vezes: falar.

Os irmãos Michael (à esquerda) e Anthony Stewart foram condenados 42 anos após o assassinato de Littler
Os irmãos Michael (à esquerda) e Anthony Stewart foram condenados 42 anos após o assassinato de Littler
Foto: Metropolitan Police / BBC News Brasil

Anthony Littler era um homem tranquilo, de hábitos simples. Tinha 1,93 m de altura, trabalhava no serviço público e morava em um apartamento no norte de Londres.

Ele tinha uma profunda devoção pela mãe e viajava com frequência para St Helens, em Merseyside, onde nasceu e cresceu, para visitá-la.

A grande paixão de Anthony era a cerveja artesanal. Na última noite de sua vida, ele atravessou Londres para participar de uma reunião da Sociedade para a Preservação das Cervejas de Barril em um pub de Carshalton, onde bebeu cinco ou seis cervejas com amigos.

Eles se despediram quando o pub fechou.

Anthony voltou cruzando Londres, chegou à estação de East Finchley e pegou um atalho para voltar para casa: virou em uma rua estreita ao lado da linha do trem.

Em questão de minutos, ele foi atacado com tanta violência que não voltou a recuperar a consciência.

"Ele era um pouco como um irmão mais velho", lembra Patricia McLure, uma das últimas parentes próximas de Anthony ainda vivas.

"Ele costumava me levar para passear no meu carrinho de bebê. Estava sempre presente nos aniversários da família e sempre estava presente no Natal."

Patricia disse ainda que o que mais a atormentava era o fato de Anthony não ter se defendido.

"Desde criança, ele não machucava nem uma mosca", diz ela. "Sempre foi uma pessoa bondosa, e morrer de uma forma tão horrível é simplesmente muito injusto."

Patricia McLure, uma das poucas parentes próximas de Anthony Littler ainda vivas, segura uma fotografia do primo, que ela descreve como "um irmão mais velho"
Patricia McLure, uma das poucas parentes próximas de Anthony Littler ainda vivas, segura uma fotografia do primo, que ela descreve como "um irmão mais velho"
Foto: BBC News Brasil

Os pedidos de ajuda exibidos nos programas Police 5, da ITV, e Crimewatch, da BBC One, não deram resultado. A investigação foi encerrada em janeiro de 1985.

Uma segunda investigação, em 1993, também não levou a nenhuma conclusão. Uma terceira, realizada entre 2012 e 2015, igualmente terminou sem que ninguém fosse denunciado.

"Acabei me conformando com a ideia de que ele tinha partido e de que os culpados jamais seriam encontrados", diz Patricia. "Fiquei com uma tristeza permanente, que nunca foi embora, e que ressurgia a cada Natal que passávamos sem ele."

Durante 42 anos, ela acredita, os assassinos pensaram que jamais seriam responsabilizados.

"Até que a polícia realizou essa investigação", afirma. "Mas nesse tempo todo, eles permaneceram em liberdade."

O mapa original do legista de 1984, com anotações da polícia, marca o local onde o corpo de Anthony foi encontrado: em um beco a poucos metros da estação de East Finchley
O mapa original do legista de 1984, com anotações da polícia, marca o local onde o corpo de Anthony foi encontrado: em um beco a poucos metros da estação de East Finchley
Foto: Ordnance Survey / BBC News Brasil

Nos primeiros dias da investigação original da Polícia Metropolitana, os agentes bateram à porta de uma casa localizada a apenas algumas centenas de metros do beco: a residência da família Stewart. Lá, conversaram com Michael Stewart, então com 15 anos, e, uma semana depois, com seu irmão Anthony, que tinha 18.

Os registros das visitas de porta em porta indicavam que ambos estavam em casa, em segurança, na noite do assassinato. No formulário referente a Anthony Stewart, havia uma anotação: "Não usa o beco".

Nada disso era verdade e, mais tarde, o tribunal ouviria que os irmãos tinham uma propensão à violência e que já vinham tendo problemas com a polícia havia anos.

Anthony, fotografado ao lado da mãe, de quem era muito próximo. Ela morreu sem saber quem matou o filho
Anthony, fotografado ao lado da mãe, de quem era muito próximo. Ela morreu sem saber quem matou o filho
Foto: BBC News Brasil

Em 2013, os irmãos romperam relações após uma briga. Daniel, o caçula dos três, não participou do ataque e tinha apenas 10 anos quando Anthony foi assassinado.

Durante o desentendimento familiar, Daniel disse à polícia que Michael havia ameaçado incendiar sua casa e matá-lo.

Foi então ele que revelou aos investigadores algo muito mais grave: um segredo de família que carregava desde a infância.

Segundo Daniel, Michael se gabou do assassinato poucos dias depois de o crime ter acontecido. Seu irmão Anthony também falou sobre o assunto anos mais tarde.

Daniel contou à polícia que seus irmãos costumavam sair para atacar homens que eles acreditavam ser homossexuais, e que Littler havia sido agredido durante uma tentativa de assalto que terminou em morte.

"Eles só queriam roubá-lo, mas ele morreu", declarou Daniel à polícia.

Ele não foi o único a procurar os investigadores.

Uma pessoa próxima à família, cuja identidade não pode ser revelada por motivos legais, lembrou que um dia Michael apontou para a estação de dentro de um carro e disse algo como: "Foi ali que a gente matou ele."

Operação disfarçada

O registro da ambulância de 1984 sobre a misteriosa ligação para o número de emergência 999. A pessoa que telefonou informou que havia um homem "perdendo muito sangue" e depois desligou. A chamada foi considerada um trote. Segundo a acusação, quem fez a ligação foi Michael Stewart, então com 15 anos
O registro da ambulância de 1984 sobre a misteriosa ligação para o número de emergência 999. A pessoa que telefonou informou que havia um homem "perdendo muito sangue" e depois desligou. A chamada foi considerada um trote. Segundo a acusação, quem fez a ligação foi Michael Stewart, então com 15 anos
Foto: Metropolitan Police / BBC News Brasil

Quando o inspetor-chefe Neil John chegou ao comando de crimes especializados da Polícia Metropolitana, em 2019, herdou dois casos antigos ainda sem solução, sendo este um deles.

"Faltavam documentos, faltavam provas", diz John. "Não havia imagens de câmeras de segurança nem evidências forenses. Infelizmente, todas as testemunhas com quem queríamos falar já haviam morrido."

Aos poucos, sua equipe reconstruiu o caso a partir das provas que restavam.

Um curador de museu ajudou a decifrar os horários dos trens de 1984. Eles também foram atrás dos mapas originais do local no arquivo da Biblioteca Britânica, já que as ruas ao redor de East Finchley haviam mudado.

Uma equipe de buscas da polícia passou uma semana no depósito de evidências da Polícia Metropolitana, examinando mais de 200 grandes caixas na esperança de encontrar as peças que faltavam.

Não encontraram nada.

Mas a documentação disponível, os antigos depoimentos de testemunhas e as supostas confissões dos irmãos deram aos investigadores um caminho para seguir.

Depois de analisar todo o material, John concluiu que o caso era suficientemente sólido para solicitar autorização para uma operação disfarçada. A aprovação foi concedida em setembro de 2023, quando teve início a Operação Snowpitch.

"Nunca tive um caso como este antes", diz John. "E jamais voltarei a ter um caso como este."

Uma das cabines telefônicas públicas próximas ao beco, fotografada durante a investigação de 1984. Segundo a acusação, foi de uma cabine como essa que um dos assassinos ligou para o número de emergência 999 antes de desaparecer na noite
Uma das cabines telefônicas públicas próximas ao beco, fotografada durante a investigação de 1984. Segundo a acusação, foi de uma cabine como essa que um dos assassinos ligou para o número de emergência 999 antes de desaparecer na noite
Foto: Metropolitan Police / BBC News Brasil

A Operação Snowpitch exigiu paciência.

Os investigadores instalaram dispositivos de escuta no apartamento e no carro de Michael Stewart, além de colocarem equipamentos de gravação no carro de Anthony Stewart.

Mas a parte mais importante foi a nível pessoal: dois policiais infiltrados, conhecidos como JJ e Anna, foram inseridos na vida de Michael Stewart.

JJ foi o responsável pelo primeiro contato.

Ele puxou conversa com Michael sobre um elevador quebrado no prédio onde ele morava. Logo, os dois passaram a conviver: assistiam a filmes de gângster, jogavam videogame e JJ ouvia suas histórias.

Em apenas três meses, a relação entre eles era tão próxima que, quando Michael Stewart foi preso posteriormente pelo assassinato, pediu justamente a JJ que fosse buscá-lo na delegacia.

No carro, durante a volta para casa, Michael falou.

"Eu sei quem fez isso", confidenciou ao homem que, sem saber, estava gravando toda a conversa.

Segundo Michael, o responsável era seu irmão, junto com três amigos. Eles haviam saído para "agredir homossexuais", encurralaram um homem em um beco e lhe deram um golpe na cabeça, segundo foi relatado ao tribunal.

Conforme foi informado durante o julgamento, não havia provas de que Anthony Littler fosse gay.

Uma das fotografias tiradas pela polícia durante a investigação original de 1984 mostra o beco onde Anthony Littler foi emboscado e assassinado pelos irmãos Stewart
Uma das fotografias tiradas pela polícia durante a investigação original de 1984 mostra o beco onde Anthony Littler foi emboscado e assassinado pelos irmãos Stewart
Foto: Metropolitan Police / BBC News Brasil

A peça que faltava

Aquela situação virou rotina. Várias vezes, ao longo daqueles meses, Michael mencionava o irmão durante as conversas, segundo foi relatado no julgamento, insistindo sempre que ele próprio não tinha envolvimento com o assassinato.

Mas as gravações continuavam a incriminá-lo.

A outra policial infiltrada, Anna, o conheceu separadamente. Em uma conversa gravada secretamente em um café, em dezembro de 2023, ela sugeriu que o sobrinho de Michael havia matado alguém.

"Meu sobrinho não matou ninguém", respondeu Michael. "Foi meu irmão."

Naquele momento, a investigação já havia vindo à tona. Michael tinha sido preso e interrogado pelo assassinato, depois liberado. Enquanto isso, sem que ele soubesse, a operação disfarçada continuava silenciosamente ao seu redor.

Então, durante um interrogatório policial em março de 2024, aconteceu um deslize que fez Michael ser inserido na cena do crime.

Ao negar que estivesse coberto de sangue naquela noite, Michael disse: "Ora, se eu estava no esquina do beco vigiando... Como é que eu estaria coberto de sangue?"

Ninguém — nem a polícia, nem sua família, nem qualquer testemunha — jamais havia afirmado que ele havia atuado como vigia, disse ao júri o promotor John Price KC.

Esse detalhe não existia em nenhum outro lugar além da lembrança que Michael guardava daquela noite.

Na tentativa de encontrar uma explicação para se livrar da situação, ele acabou se colocando no local do crime enquanto Anthony era espancado até cair no chão.

Isso também ajudou a esclarecer um mistério que permanecia nos arquivos desde 1984.

Dois minutos após o ataque, um jovem ligou para o número de emergência 999 de uma cabine telefônica próxima ao beco, pedindo uma ambulância para um homem que estava "perdendo muito sangue", e desligou sem se identificar.

Nada foi encontrado, e a ligação acabou sendo tratada como um trote.

Segundo Price, apenas alguém que estivesse no local poderia ter percebido tão rapidamente o que havia acontecido.

De acordo com a acusação apresentada ao júri, quem fez a ligação foi Michael Stewart, então com 15 anos: o vigia, o primeiro a correr para dar o alerta sobre o homem agonizando que seu grupo havia deixado para trás.

Anthony (à direita) em um Natal em família na década de 1970. Sua prima Patricia diz que sua ausência "era sentida a cada Natal", ao longo das quatro décadas seguintes
Anthony (à direita) em um Natal em família na década de 1970. Sua prima Patricia diz que sua ausência "era sentida a cada Natal", ao longo das quatro décadas seguintes
Foto: Family photo / BBC News Brasil

Para Patricia, saber que os homens que mataram seu primo finalmente foram levados à Justiça despertou um sentimento avassalador.

"Como eles tiveram essa coragem? Arruinaram a vida do meu primo e, ao que tudo indica, seguiram vivendo uma boa vida."

"Eles tiveram 42 anos de liberdade, enquanto meu primo perdeu 42 anos de vida. Perdeu a chance de se casar e de formar a própria família."

"É um alívio saber que, finalmente, a Justiça foi feita", afirma.

"Isso não vai apagar a dor. Não vai trazê-lo de volta. Mas, finalmente, é possível encerrar esse capítulo. Esses desgraçados finalmente foram pegos."

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e traduzido com o auxílio de uma ferramenta de inteligência artificial. Um jornalista da BBC News Brasil revisou o texto antes da publicação. Saiba mais sobre como usamos IA.

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