Brexit: dez anos depois, Reino Unido enfrenta crise, tabu político e reaproximação com a UE
Dez anos após o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, a avaliação predominante no país é negativa. Segundo uma longa reportagem da revista semanal L'Express, o Brexit deixou o Reino Unido mais pobre, mais dividido e politicamente instável, além de ter enfraquecido sua posição internacional. O governo britânico descarta um retorno à União Europeia, mas a publicação francesa aponta que o país vem, na prática, se reaproximando do bloco.
Apesar do diagnóstico crítico da imprensa francesa, o contexto político britânico mostra outra realidade. Hoje, a maioria da população considera o Brexit um erro. Ainda assim, nenhum grande partido defende sua reversão. O tema virou tabu no debate político. A agenda é dominada por outras prioridades, como o custo de vida, a imigração e a crise dos serviços públicos. Nesse cenário, cresce o peso de forças populistas e o receio de reabrir uma discussão altamente polarizadora.
O texto da L'Express relembra a noite de 23 de junho de 2016, quando a população do Reino Unido votou pela saída do bloco. Em seguida, mostra como, quase uma década depois, o país vem se reaproximando da União Europeia na prática. A reportagem cita recentes acordos comerciais, a cooperação em defesa e o retorno previsto ao programa Erasmus. Esse movimento reflete uma opinião pública cada vez mais favorável a uma reaproximação com a UE.
Dados citados pela revista indicam perdas econômicas significativas: queda do PIB por habitante entre 6% e 8%, redução dos investimentos estrangeiros e impacto negativo no emprego e na produtividade. Ao mesmo tempo, o país registra piora nos indicadores sociais, como a queda no ranking global de felicidade.
Crescimento da extrema direita no Reino Unido
O Brexit também teria provocado uma transformação política profunda, com o avanço de partidos populistas e uma instabilidade inédita, com seis primeiros-ministros em dez anos. Além disso, aprofundou divisões internas, especialmente entre as quatro nações do Reino Unido, onde crescem movimentos independentistas.
Já o editorial da revista Le Point, publicado nesta quinta-feira (18), não menciona diretamente o Brexit, mas descreve tensões identitárias e sociais, como o recente caso das violentas revoltas em Belfast, na Irlanda do Norte. Provocadas por um ataque com faca cometido por um refugiado sudanês, elas se espalharam por outras cidades, como Glasgow e Edimburgo, relembra o editorial.
A Le Point insiste menos na ruptura com a União Europeia e mais nas tensões ligadas à imigração e ao multiculturalismo. Dois diagnósticos distintos, portanto, que apontam para uma mesma realidade: a de um Reino Unido cada vez mais fragilizado socialmente.
A revista francesa questiona e responde: "Essa sociedade britânica à deriva seria o destino que espera a França amanhã? Por enquanto, trata-se de uma versão agravada do nosso país". Em seguida, compara o primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer a um "sub-Macron", criticando-o por encarnar, assim como o presidente francês, "uma impotência inflada, com ainda menos visão".
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