Bispo na Amazônia avalia eleição de Lula como positiva e defende diálogo com oposição
Flavio Giovenale avaliou que resultado refletiu reação popular a declarações extremistas
O bispo de Cruzeiro do Sul (AC), dom Flavio Giovenale, considerou positiva a eleição de Lula, vendo nela uma reação a discursos extremistas e de retrocesso social. Contudo, alertou que o novo presidente precisará dialogar com o Congresso de direita e governar para toda a sociedade, ouvindo os 60 milhões de eleitores da oposição e compreendendo demandas como a segurança pública para construir um mandato equilibrado.
O bispo de Cruzeiro do Sul, no Acre, monsenhor Flavio Giovenale, afirmou que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência do Brasil representa um resultado positivo para o país, mas ressaltou que o novo governo precisará manter o diálogo com o Parlamento e com os eleitores que votaram na oposição.
Em entrevista ao portal italiano "Tra Cielo e Terra" (Entre o Céu e a Terra), o religioso, salesiano de origem italiana que atua na Amazônia, destacou a necessidade de equilíbrio entre os diferentes setores políticos diante da composição do Congresso Nacional.
"Na minha opinião, o resultado foi o melhor possível. O Parlamento é de direita ? em alguns casos, de extrema-direita.
Agora, teremos um presidente de esquerda, porém equilibrado", declarou Giovenale, acrescentando que a relação entre os Poderes poderá ser marcada tanto por um equilíbrio político quanto por tensões.
Segundo o bispo, nem o presidente eleito nem o Congresso poderão governar sem considerar as posições dos demais. "Será necessário muito diálogo", afirmou.
Ao comentar o cenário político após o primeiro turno, Giovenale afirmou que declarações de candidatos eleitos para o Senado e a Câmara dos Deputados provocaram preocupação entre parte da população.
De acordo com o religioso, alguns políticos teriam apresentado ideias que classificou como absurdas, incluindo manifestações de apoio ao nazismo, comparações entre o resultado eleitoral e a ascensão de Hitler em 1930 e críticas aos direitos dos trabalhadores.
Para o bispo, essas declarações contribuíram para mobilizar setores da sociedade e influenciar o resultado das eleições.
"Falaram em escravidão e alegaram que os trabalhadores possuem direitos em excesso. Isso gerou protestos, e corremos o risco de um retrocesso imenso. Portanto, acredito que o resultado da eleição foi também uma reação popular contra essas ideias", afirmou.
Na avaliação de Giovenale, determinadas posições políticas, antes ocultas ou dissimuladas, passaram a ser expressas publicamente após o primeiro turno.
O religioso alertou ainda para o risco de retrocessos sociais diante da disseminação de discursos contrários a direitos já estabelecidos.
Apesar de manifestar uma avaliação favorável à eleição de Lula, Giovenale ressaltou que o presidente precisará governar para toda a população, incluindo os eleitores que escolheram o outro candidato, Flávio Bolsonaro.
"É evidente que ele terá de levar em conta os 60 milhões de pessoas que votaram no outro lado; ele precisará ouvi-las", declarou.
O bispo ponderou que os eleitores da oposição não podem ser considerados, em sua totalidade, extremistas. Segundo ele, muitos são cidadãos que possuem posições políticas diferentes e demonstram preocupação com os rumos do país.
Na avaliação do religioso, compreender essas preocupações será fundamental para a construção de um governo que represente o conjunto da sociedade brasileira.
Giovenale citou a segurança pública como exemplo de uma demanda que deverá receber atenção da nova administração. Para ele, Lula precisará ouvir a população e compreender as razões que levam parte dos brasileiros a defender políticas de maior rigor nessa área.
"Lula deve formar um governo para todos os brasileiros, não apenas para aqueles que votaram nele. Por exemplo, ele precisará ouvir e compreender o que está por trás da demanda por mais segurança", concluiu.
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