Austrália: greve do setor audiovisual público expõe temor diante da IA e de salários defasados
A Austrália viveu nesta quarta-feira (25) uma das mais significativas paralisações do setor de mídia e audiovisual em duas décadas. Mais de 2.000 funcionários da ABC (Australian Broadcasting Corporation) — entre jornalistas, produtores, cinegrafistas, técnicos de transmissão e equipes de bastidores — cruzaram os braços por 24 horas, marcando a primeira greve em 20 anos na maior emissora pública do país.
Os funcionários exigem medidas de segurança em relação ao uso de inteligência artificial (IA), que, segundo afirmam, ameaça seus empregos.
Por causa do movimento grevista, o grupo ABC — que opera rádio, televisão e um site de notícias — teve de substituir a programação ao vivo por conteúdos gravados. A paralisação começou às 11h (horário local), após semanas de negociações fracassadas.
A ação foi convocada após a rejeição, pela maioria dos trabalhadores, da última oferta salarial apresentada pela direção da empresa em março, considerada insuficiente diante da inflação. A queda na receita publicitária e a ascensão das mídias sociais contribuíram para uma onda de demissões no setor de mídia australiano.
"Os funcionários da ABC querem salários justos, segurança no emprego e salvaguardas em relação ao uso de tecnologias como a IA, para proteger a integridade editorial e a confiança pública", declarou o sindicato da categoria.
O sindicato MEAA (Media, Entertainment & Arts Alliance), que representa grande parte dos trabalhadores da ABC e também profissionais do audiovisual em todo o país, aponta três eixos centrais para a paralisação: salários que acompanhem o custo de vida; fim da insegurança contratual; e proteções contra o uso indiscriminado de inteligência artificial.
Repercussão nacional
O movimento ganhou repercussão em todo o país. Na porta das redações, cartazes pediam "trabalho justo", "proteção contra IA" e "segurança para o futuro do jornalismo público". Em algumas regiões, voluntários ajudaram a manter no ar apenas serviços essenciais, como transmissões de emergência.
A greve ocorre em um momento sensível para o setor audiovisual australiano. Relatórios da Screen Australia, a agência nacional de fomento ao audiovisual, mostram queda expressiva nos investimentos na produção local, com recuo de 29% nos gastos da indústria entre 2023 e 2024 — sinal de que a crise não se limita ao jornalismo, mas afeta todo o ecossistema de cinema, TV e streaming.
Para muitos trabalhadores, o dia de hoje simboliza não apenas uma reivindicação econômica, mas a defesa do papel da mídia pública e da produção audiovisual como bens culturais essenciais à democracia australiana.
Com agências