Por trânsito e poluição, China faz sorteio para comprar carro
- Fernanda Morena
- Direto de Pequim
Desde janeiro deste ano, moradores de grandes centros urbanos como Pequim e Xangai precisam passar por um sorteio para comprar um carro. A medida, implementada em resposta aos altos níveis de poluição a aos constantes engarrafamentos, visa diminuir o número de automóveis que circulam pela cidade. Já em sua terceira edição, a rifa trouxe poucas diferenças para os congestionamentos na cidade - e ainda deixou muita gente a pé.
"Tenho quatro clientes que estão participando do sorteio há três meses e ainda não conseguiram a licença, então deixo o veículo deles na reserva", conta o gerente de uma concessionária de automóveis de Pequim de sobrenome Huang. Em janeiro, quando foi realizada a primeira loteria, a chance de um comprador conseguir uma placa era de uma em 10. Em fevereiro, apenas uma em cada 17 pessoas conseguia sair do leilão com uma placa. Em março, a chance caiu para uma em 23. Inscritos no sorteio e não-contemplados entram automaticamente na próxima rodada.
Um dos problemas atestados no primeiro trimestre do sorteio foi o número de participantes que não têm necessidade ou intenção de adquirir um carro efetivamente. Como a lei permite que qualquer pessoa entre na rifa, famílias chegam a alistar todos os seus membros para aumentar a chance de conseguir uma placa, já que o sorteado tem até seis meses para comprar o carro antes que sua licença expire.
Luo Ting, 28 anos, foi entrevistada pelo jornal China Daily, de Pequim, como uma dos 17.600 vencedores do leilão de janeiro. Ela revelou que agora está sofrendo com a pressão de comprar um automóvel, que não é uma necessidade imediata. "Os preços subiram muito, e eu entrei no sorteio só porque não sabia quando iria conseguir uma placa de fato", contou a jovem ao diário. Dos 35.200 habitantes que conseguiram uma placa nos dois primeiros sorteios, somente 3.400 adquiriram um veículo.
Com a crescente urbanização ¿ as zonas urbanas chinesas cresceram 26% desde 2000 ¿, a China passa por um processo de motorização da sociedade que virou dor de cabeça para ambos governo e motoristas. Dados oficiais divulgados no Encontro de População e Planejamento Familiar de Pequim na última quinta-feira revelam que há entre 24 e 25 milhões de moradores na zona metropolitana de Pequim ¿ mas os números são pouco confiáveis, visto que há uma grande população de migrantes e moradores em situação ilegal que não são contabilizados. Em 2009, o número de habitantes era pouco maior que 19 milhões. São Paulo conta com 37 milhões de habitantes, mas tem uma área 10 vezes menor do que Pequim. Nos anos 1980, quando do início da reforma econômica, 20% da população chinesa vivia em zonas urbanas. Hoje, esse percentual subiu para quase 60%, de acordo com a Academia de Ciências Sociais da China (CASS, na sigla em inglês).
Antes de o sorteio de placas ser implementado, Pequim recebia em torno de 2 mil novos carros por dia em suas ruas, e as vendas de automóveis em 2010 fecharam em 780 mil unidades. Os anéis de circulação, criados nos anos 1980 para aumentar a fluidez do trânsito, já deixaram de ser resposta ao problema para se tornarem motivo. "O segundo anel da cidade foi criado para ser percorrido, em uma volta completa, em 14 minutos. Hoje, o trajeto pode levar até quatro horas" explica Huang, gerente da concessionária de automóveis em Pequim.
Conforme a nova lei, habitantes de cidades como Pequim que tenham seu registro de residência aliado à cidade só podem ter um carro registrado no hukou, o documento implementado na época da política de planejamento familiar de 1978 que visa controlar o número de habitantes de uma cidade e que garante acesso a serviços na cidade de registro, inclusive o licenciamento de veículos. "Eu tive a sorte de comprar meu segundo automóvel uma semana antes de a nova lei ser aplicada. Caso contrário, meu filho, hoje com 30 anos, ainda estaria andando de metrô", disse o aposentado Peng Xueliang.
Ainda que Pequim, como São Paulo, tenha colocado em execução um sistema de rodízio que tira os carros das ruas um dia útil da semana, há apenas uma diminuição diária de 20% dos veículos nas vias da cidade ¿ que hoje somam 4,7 milhões. Pequim tem a capacidade de absorver 6,75 milhões de veículos. Se a rifa de placas não fosse implementada, o limite seria atingido em 2014. Trajetos que, em situações normais de trânsito, levariam 20 minutos para ser completos, hoje podem passar de duas horas. "O sistema de leilão ajudou um pouco a desafogar o trânsito, mas como o número de carros já era grande, a medida acabou chegando tarde", afirmou Huang. De acordo com o Índice de Sofrimento dos Usuários de Transporte em 2010, elaborado pela IBM, 16% dos motoristas pequinenses disseram achar o trânsito um pouco melhor em 2010, ao passo que 61% dos paulistanos disseram enfrentar um tráfego pior ou muito pior em comparação a 2009.
Ainda segundo a pesquisa, Pequim empata com a Cidade do México na lista dos piores trânsitos do mundo, e São Paulo fica em quinto lugar. Dos 8.192 motoristas entrevistados em 20 metrópoles de cinco continentes, 25% dos moradores de Pequim disseram que renderiam mais no trabalho ou nos estudos se não fosse o trânsito. Conforme a CASS, o tempo gasto no trânsito para ir ao trabalho ou escola fica na média de 52 minutos por percurso. O percentual de motoristas paulistanos que disseram poder render mais se não fosse o volume de tráfego ficou em 14%, e o tempo somado em comutação na capital paulista chega a 2 horas e 42 minutos diários, de acordo com a Pesquisa Ibope realizada em 2010. Dos entrevistados em Pequim, 95% atestaram que o trânsito afeta sua saúde.
Para quem trabalha com venda de carros, como Huang, o peso da lei é ainda maior. "As comissões das vendas caíram, e o salário então ficou menor", disse ele. Huang afirma que agora as concessionárias só podem apostar em compradores que queiram trocar seus carros. Como a lei serve para reduzir o número de veículos em circulação, quem já tinha um carro registrado pode trocar quando e quantas vezes quiser ¿ a medida só serve para a primeira aquisição de um automóvel. "Estamos agora com um grande volume de veículos usados disponíveis para venda, e apostamos no preço mais baixo do usado para tentar aumentar os negócios", afirmou Huang. Ele ainda calcula que, antes da lei, um vendedor de uma concessionária de médio porte conseguia fechar entre sete e oito negócios ao mês. Hoje, os números ficam entre um e dois automóveis.
O secretário geral da Associação de Vendedores de Carros da China, Lou Lei, estimou durante uma coletiva de imprensa realizada em janeiro que as vendas de veículos em Pequim fecharão em 500 mil unidades neste ano. O número será alimentado por compradores vindos de outras províncias e por pessoas que buscam trocar seu velho automóvel. "A venda de carros de luxo sofreu pouca influência com o rodízio, porque muitos novos-ricos de outras províncias vêm a Pequim interessados nos preços relativamente mais baixos", acrescenta Huang.
E para chamar a atenção do cliente, vale de tudo. O mercado Yabei de automóveis, um dos maiores centros de venda de veículos de Pequim e onde Huang trabalha, mantém dezenas de vendedores já na porta do complexo para chamar o freguês e oferecer uma oferta. Há ainda um sistema de transporte para os compradores que venham de metrô visitar uma das concessionárias do local ¿ que fica a 3 km dos trilhos.
O sistema de transporte público de Pequim, ainda que tenha recebido 3,3 bilhões de usuários no primeiro semestre de 2010, supre a demanda apenas parcialmente ¿ não conseguiria hoje suportar muito mais dos habitantes em trânsito. Conforme o Ministério dos Transportes chinês, até 2015, todos os moradores de Pequim estarão a uma distância passível de ser percorrida a pé de uma estação de metrô. O aumento de linhas viárias receberá um investimento de 331.2 bilhões de yuans até 2015, somando 561 km de vias, de acordo com o Centro de Pesquisa de Trânsito de Pequim.