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Ásia

Diário da Coreia do Norte: reverência aos líderes e "interação" com locais

Confira o segundo relato de uma série sobre o cotidiano norte-coreano

23 out 2013 - 10h56
(atualizado às 11h32)
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Entre os dias 2 e 6 de outubro, a jornalista Fernanda Morena, que mora em Pequim, fez uma viagem à Coreia do Norte. Até sábado, o Terra publica um diário de viagem com as impressões da repórter sobre o regime mais fechado do mundo. Se você não leu o texto de ontem, dá para conferir aqui. Na galeria abaixo e ao longo do texto, fotos exclusivas mostram o cotidiano do país de Kim Jong-un. 

Saímos do hotel com um atraso. Eram 9h15min, e o nosso era o último ônibus a sair para o city tour por Pyongyang. O primeiro destino é o Monte Mansudae, lugar considerado sagrado pelos norte-coreanos. Lá estão as estátuas de Kim Il-sun e Kim Jong-il - o Grande Líder e o Querido Líder, respectivamente.

Na frente do ônibus, a Srta. Zhou, nossa guia local, fornece, em chinês, as regras do passeio. O grupo deve se posicionar em fila em frente ao monumento e, ao comando dela, fazer uma reverência - prática adotada diariamente pelas dezenas de norte-coreanos que prestam homenagem à família que comanda seu país desde 1948.

Todos que visitam o Monte Mansudae devem se posicionar em fila em frente às estátuas e fazer uma reverência
Todos que visitam o Monte Mansudae devem se posicionar em fila em frente às estátuas e fazer uma reverência
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Nos dois minutos em que ficávamos em frente à estátua era permitido: oferecer flores (primeiro passo do ritual; uma lojinha vendia buquês por 20 yuans – aproximadamente R$ 7), fazer uma reverência (segundo passo); tirar foto da estátua (terceiro passo); tirar foto em frente à estátua (quarto passo). Não era permitido: pagar as flores em moeda local (o que aconteceu em todos os outros poucos estabelecimentos comerciais onde nos era permitida a entrada); não fazer a reverência; tirar foto agachado ou cortando a imagem dos líderes; fazer pose "engraçadinha" em frente à estátua; permanecer no local depois que os guias locais saíssem (era a vez dos demais grupos cumprirem, um a um, o mesmo ritual).

A vista do monte é espetacular. Sem prédios na linha que vai do monumento ao horizonte, é possível ver o movimento da cidade, dos carros e das pessoas. Pyongyang tem 2 milhões de habitantes em seus 70 mil apartamentos construídos e distribuídos entre a população. Dá para ver apenas um pouco disso lá de cima, mas o Mr. Kim, nosso guia local, garantiu que todos os norte-coreanos de Pyongyang têm uma casa.

O Cavalo Verde, que leva o espírito do povo norte-coreano
O Cavalo Verde, que leva o espírito do povo norte-coreano
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra
Ao lado do monumento, ainda sobre o Monte Mansudae, uma estátua de um cavalo verde carrega um trabalhador e uma camponesa. Erguida em 1962, a imagem reflete o "espírito do povo" depois da guerra entre as duas Coreias. Diz a lenda que este cavalo era capaz de correr a 400 km/h, e por isso é chamado de Chollima - o espírito ligeiro.

Descemos do monte e ficamos à espera do resto do grupo. Mr. Kim fica sempre com o nosso trio ocidental, e isso permite que nos afastemos um pouco dos demais (não muito) e façamos perguntas. Entre um cigarro Prim e outro, Mr. Kim fica apontando as marcas dos carros que passam na rua. Mercedez, Audi, Prim - a marca local. "Prim quer dizer paz. Muitas coisas se chamam Prim aqui. A paz vive na nossa cabeça. Queremos paz com a Coreia do Sul. Somos um país", ele me diz.

Lembramos novamente a guerra na segunda parada: o Museu da Guerra da Coreia (1950-1953), originalmente construído em 1974. Reconstruído e reaberto em 2013 no aniversário de 60 anos do Dia da Vitória (27 de julho de 2013), a oponente construção em mármore possui mais de 80 salas de exibição e é voltada para os norte-coreanos. Nenhuma explicação é dada em língua estrangeira, a não ser na sala chamada "Atrocidades cometidas pelos EUA". Lá, tudo aparece explicado em inglês, chinês e russo. Na parte externa, uma exibição ao ar livre mostra tanques e aviões americanos apreendidos pelos norte-coreanos. 

Antes de continuar, um parêntese. Na saída encontramos um casal de chineses jovens que viajava conosco. Eles tinham dito que não sairiam naquela manhã por estarem doentes. Acabaram "resgatados" às 11h por uma agente da Agência Estatal de Turismo Internacional em um café no centro da cidade. Eles tinham escapado sozinhos do hotel e caminhado por mais de três horas desacompanhados.

O Arco do Triunfo norte-coreano triunfa sobre os demais: com 60 metros, é o mais alto do mundo
O Arco do Triunfo norte-coreano triunfa sobre os demais: com 60 metros, é o mais alto do mundo
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Do museu ao Arco do Triunfo

Com 60 metros de altura, ele é o mais alto do mundo. O ônibus para no meio da rua, literalmente, ao lado de uma barra de ferro ali colocada para que os ônibus de turismo parem. Tiramos fotos - foi dali que o primeiro pronunciamento de vitória foi feito pelo Grande Líder, em 1948, ao fim da ocupação japonesa. Do outro lado da rua, o estádio de futebol.

Macarrão frio - o mais famoso prato da culinária norte-coreana
Macarrão frio - o mais famoso prato da culinária norte-coreana
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra
Almoço

Finalmente experimentamos o mais tradicional prato da culinária local - o macarrão frio (foto ao lado). Meu pedido por uma opção vegetariana foi acompanhado de menos questionamentos do que na China. Um indícios de que o estabelecimento é mesmo turístico.

À tarde visitamos uma barragem construída em 1981 no Mar do Oeste para criar eletricidade e sal. Um casal de noivos está ali para tirar fotos ao lado das madrinhas do casamento. O farol é decorado com imagens dos soldados norte-coreanos e as três gerações de Kim visitando escolas, hospitais, plantações e cerimônias de casamento.

A Sra. Zhou me contou que não existem mulheres solteiras na Coreia do Norte, e nem divorciados. Depois dos 30 anos, a mulher é obrigada a aceitar o noivo que os pais escolherem e ter um filho. Como na China, ter um filho é extremamente importante na cultura norte-coreana. Mas ao contrário da China, não existe uma predileção por homens - e para cada homem há 1,2 mulheres na Coreia do Norte.

O ensino é gratuito, e visitamos uma das escolas locais. O Palácio das Crianças é um conservatório de arte onde eles estudam e aprendem a pintar, desenhar, tocar um instrumento, dançar ou cantar. Somos indicados a entrar em três salas onde grupos de crianças vestindo um uniforme azul e branco e um lenço vermelho tocam sanfona, pintam e bordam. Depois vamos a um auditório, onde assistimos a um show.

30% dos norte-coreanos atingem educação superior, onde podem optar por sete cursos diferentes, deixando para trás 12 anos de educação básica (e um 13o ano de treinamento militar)
30% dos norte-coreanos atingem educação superior, onde podem optar por sete cursos diferentes, deixando para trás 12 anos de educação básica (e um 13o ano de treinamento militar)
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Conforme uma pesquisa feita pela Anistia Internacional e a Unicef em 2006, 37% das crianças norte-coreanas sofrem de severa má nutrição. Ali no Palácio elas pareciam todas saudáveis e felizes. O perfeito retrato de uma infância alegre, saudável e dotada de talento artístico.

"Missão secreta"

Voltamos ao hotel com a promessa do Mr. Kim de levar o nosso trio ocidental para um passeio fora do hotel e longe do grande grupo. A “missão secreta” (os chineses não poderiam ser convidados) foi discutida durante todo o dia com a supervisão da Agência Estatal de Turismo Internacional da Coreia do Norte. Por fim, foi aprovada.

Fomos em uma van com outros dois guias, além do Mr. Kim (um para cada um de nós, estrangeiros), a um parque de diversões, onde pela primeira vez interagimos com os locais através de sorrisos, acenos com a cabeça e muitas batidas nos carrinhos de autochoque. Depois andamos por uma quadra até chegarmos à Praça do Povo. Já era escuro, mas os prédios ali iluminados permitiam que víssemos que não estávamos sozinhos.

Voltamos ao hotel depois de duas horas de "liberdade vigiada". 

Lembra dos chineses fujões? Ao chegar ao hotel vemos que o casal de chineses que havia escapado está com Mr. Kim e a Srta. Zhou. Eles são obrigados a assinar um documento dizendo que reconheciam o erro - terem saído desacompanhados - e que entendiam e aceitavam as consequências de seus atos. Ficaram fichados na Coreia do Norte, mas nada mais aconteceu, e eles ficaram o restante da viagem com o grande grupo.

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Fonte: Especial para Terra
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