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Ásia

Diário da Coreia do Norte: da tensão na fronteira ao karaokê em Pyongyang

Série de relato exclusivos mostra o lado de dentro do regime norte-coreano

22 out 2013 - 10h27
(atualizado às 15h27)
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Entre os dias 2 e 6 de outubro, a jornalista Fernanda Morena, que mora em Pequim, fez uma viagem à Coreia do Norte. De hoje a sábado, o Terra publica um diário de viagem com as impressões da repórter sobre o regime mais fechado do mundo. Na galeria abaixo e ao longo do texto, fotos exclusivas mostram o cotidiano do país comandado por Kim Jong-un. 

O nosso grupo anda em fila, como todos os demais grupos de turistas que costumam cruzar a alfândega na cidade de Dandong, no noroeste da China. Os agentes policiais chineses recolhem nossos passaportes, e só voltaríamos a ver o documento na volta da viagem. Estamos entrando no país mais fechado do mundo.

Há apenas uma ponte sobre o rio Yalu que separa Dandong de Sinuiju, na Coreia do Norte. A viagem de trem começa com um percurso de cinco minutos até a alfândega norte-coreana. Lá, o comboio para por duas horas, onde eu e os 47 chineses que viajam comigo são revistados. Nenhum dos estrangeiros a caminho de Pyongyang tem permissão para deixar os dormitórios do trem - seis em cada um, espalhados por três vagões.

Pequenas vilas podem ser vistas ao longo das seis horas de viagem. Dois meios de locomoção: duas rodas ou a pé. Os carros quase que inexistem - e só às vezes vemos caminhões passando com materiais de construção ou trabalhadores. Ao fundo, a imagem de Kim Il Sun e Kim Jong Il vigia a praça central
Pequenas vilas podem ser vistas ao longo das seis horas de viagem. Dois meios de locomoção: duas rodas ou a pé. Os carros quase que inexistem - e só às vezes vemos caminhões passando com materiais de construção ou trabalhadores. Ao fundo, a imagem de Kim Il Sun e Kim Jong Il vigia a praça central
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Revista policial

Os policiais/militares norte-coreanos chegam para fazer a inspeção. É o nosso primeiro contato com a polícia local - e as dezenas de histórias de horror contadas e lidas por mim sobre o rigor da segurança assombram pelos corredores do trem. Enquanto nos debruçamos sobre o formulário de entrada do país, tentando entender o que estava escrito em chinês e coreano, discutimos sobre declarar ou não nossas câmeras, aparelhos com GPS, telefones celulares, dinheiro (e em que moeda), armas, remédios, publicações (de qualquer tipo) .

Quem revista o dormitório que eu divido com outras cinco pessoas é uma policial. Bem vestida, ela usa salto alto, bijuterias e maquiagem. Sorridente, ela pede, em chinês, que deixemos o quarto para que ela inspecione nossas bagagens, uma a uma. O que eu tenho de mais subversivo é uma revista Vogue. Ela olha as páginas com atenção e com um sorriso difícil de identificar: curiosidade, interesse ou reprovação? "Piaoliang", ela me diz ("bonito", em chinês).

O procedimento dura duas horas. Enquanto isso, ficamos dentro do trem observando Sinuiju. Dezenas de militares armados e trabalhadores vão e vêm sobre os trilhos. Não podemos deixar o vagão ou fotografar através da janela a viagem até Pyongyang, que leva seis horas.

Agricultores trabalham sob supervisão de policial
Agricultores trabalham sob supervisão de policial
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Abertura ao turismo

Desde a crise dos mísseis em fevereiro deste ano, as sanções econômicas aplicadas à Coreia do Norte afetam ainda mais o pobre país. Nem mesmo a histórica aliada China ajudou - ao contrário, votou a favor das punições. Só sobreviveu o turismo, uma indústria que lidera o plano econômico de Kim Jong-un. Neste ano, o país estará aberto pela primeira vez a estrangeiro em dezembro e janeiro. Até o final de 2013, mais cem quartos estarão disponíveis no Ryugyong Hotel, o prédio mais alto da capital norte-coreana, e dezenas de lojas serão liberadas para os estrangeiros.

Grande parte da clientela vem da China. A empresa chinesa que nos levou (por uma tarifa de cerca de R$ 1,7 mil) mantém excursões diárias durante todo o ano. O final de semana em que viajamos coincidiu com a Semana de Ouro mandarim e transportou o maior grupo de chineses do ano; eram 350 pessoas que aproveitavam os sete dias de feriado para visitar o país vizinho.

O nosso trem chega à estação central e todos os grupos de turistas são recepcionados por guias locais - as mulheres vestidas à caráter com vestidos tradicionais, e os homens em ternos alinhados
O nosso trem chega à estação central e todos os grupos de turistas são recepcionados por guias locais - as mulheres vestidas à caráter com vestidos tradicionais, e os homens em ternos alinhados
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Dentro do trem trocamos histórias sobre a Coreia do Norte e o que já havíamos ouvido falar sobre o distante país. A paisagem que corre ao lado dos trilhos é, segundo meus colegas de viagem, semelhante à China de 30 anos atrás. Tomada pela agricultura e por uma aparente pobreza (o país ainda luta com uma agricultura fraca que matou, na década de 1990, mais de um milhão de pessoas de fome, conforme a Unicef). Com exceção de pequenas vilas e alguns prédios e casas, o trajeto é tomado por montanhas cobertas de tons de verde e amarelo em sépia. Dificilmente mudava: parece a mesma foto copiada pelos 220 quilômetros correndo em time lapse.

Pyongyang vista do quarto do hotel Yonggakdo pouco antes das 19h
Pyongyang vista do quarto do hotel Yonggakdo pouco antes das 19h
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Noite de karaokê

Depois das longas horas no trem, somos recebidos na estação central pelos nossos dois guias coreanos, o Sr. Kim e a Srta. Zhou. É Kim que acompanha o nosso pequeno trio de ocidentais - eu, meu amigo franco-português e um inglês que conhecemos na viagem. Sem poder conversar com locais e muito menos figuras oficiais do governo, seria ele, o Sr. Kim, o nosso interlocutor.

Da estação vamos ao hotel Yanggakdo, que fica na ilha assim chamada porque tem o formato do chifre de ovelha (yanggakdo, em coreano). Do quarto (muito confortável e com uma TV com programação chinesa), deparo-me com uma Pyongyang bem mais iluminada do que imaginava. Em vez da escuridão total, destacam-se alguns prédios adornados por um neon com as cores do arco-íris.

Rua de entrada do nosso hotel, Yonggakdo. Esse é o mais distante ponto a que consegui chegar na ilha. Lembrou-me Alcatraz
Rua de entrada do nosso hotel, Yonggakdo. Esse é o mais distante ponto a que consegui chegar na ilha. Lembrou-me Alcatraz
Foto: Fernanda Morena / Especial para Terra

Depois do jantar, saímos para uma volta ao redor do hotel. A rua que leva à saída da ilha é vigiada por um segurança que, ao nos avistar chegando à linha limite, manda-nos retornar com um aceno de mão. Voltamos para o hotel e vamos ao karaokê - um programa tão famoso em Pyongyang quanto no resto da Ásia. Nós três somos os únicos ocupantes da sala, e a música que tocava é ininteligível. Sentamos para ver o cardápio musical e a moça que cuida do estabelecimento coloca uma série de canções em inglês para nos colocar no clima: Dancing Queen, Barbie Girl, One More Time, alguma coisa do Backstreet Boys que não reconheço. Na televisão, a letra das músicas é acompanhada por imagens de Pyongyang.

Um grupo de norte-coreanos em uniformes militares entra no karaokê, mas logo vai embora. Ficamos duas horas cantando com os chineses que chegaram mais tarde. Nossa primeira noite em Pyongyang se parecia com uma noite qualquer na China.

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Fonte: Especial para Terra
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