Após negociações com os EUA, Irã afirma que manterá controle do Estreito de Ormuz
Vice-presidente norte-americano, JD Vance, anunciou que as conversas permitiram estabelecer "bases muito sólidas para chegar a um acordo"
O Irã concluiu na segunda-feira, 22, na Suíça, a primeira rodada de discussões técnicas sobre o acordo para encerrar a guerra com os EUA, anunciado por Donald Trump na semana passada. Foram formados grupos de trabalho para tratar de temas como o programa nuclear iraniano, entre outros assuntos. Nesta terça-feira, 23, Teerã reiterou que quer manter o controle sobre o Estreito de Ormuz.
De acordo com a imprensa iraniana, quatro grupos de trabalho foram criados para tratar da suspensão das sanções ao país, do programa nuclear, da reconstrução e do desenvolvimento econômico do Irã, além de um grupo de acompanhamento sobre o Líbano.
Na segunda-feira, 22, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, anunciou que as conversas permitiram estabelecer "bases muito sólidas para chegar a um acordo final bem-sucedido". Na sequência, os Estados Unidos anunciaram a suspensão, por dois meses, das sanções sobre o petróleo iraniano.
O representante americano, assim como o negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, partiram, na segunda-feira, do complexo hoteleiro de Bürgenstock, nos Alpes suíços, após uma maratona de 18 horas, deixando aos diplomatas a tarefa de dar continuidade às discussões técnicas no local.
Ghalibaf reafirmou que as condições em Ormuz não voltarão ao que eram antes da guerra e que a passagem continuará a ser "administrada" pelo seu país. O estreito, uma rota estratégica de navegação global onde vigora a livre passagem, sem cobrança de pedágio, por onde transitam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito mundial, não estava sujeito a controle antes do início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro.
Nesse novo contexto, o movimento marítimo começa a dar sinais de recuperação: pelo menos 36 navios comerciais transitaram pelo Estreito de Ormuz na segunda-feira (22), um nível recorde desde o início da guerra, de acordo com dados do portal de monitoramento de navegação Kpler.
Liberação de ativos congelados
Teerã anunciou ainda ter fechado, na Suíça, um acordo com Washington para o desbloqueio "imediato" de US$ 12 bilhões em ativos iranianos congelados. Os recursos serão liberados "em duas parcelas de US$ 6 bilhões", detalhou o chefe da delegação iraniana responsável pelas negociações técnicas, o vice-ministro das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, à agência iraniana Irna.
Já o vice-presidente norte-americano destacou que seu país garantirá que um eventual desbloqueio de ativos iranianos "não sirva para financiar o terrorismo".
Ghalibaf em Omã
O ciclo de negociações iniciado no fim de semana na Suíça alimenta esperanças de uma solução duradoura para o conflito e fez o preço do barril de Brent do Mar do Norte cair abaixo dos US$ 78 nesta terça-feira (23), longe dos mais de US$ 126 atingidos no auge da guerra.
As negociações, nas quais o Paquistão e o Catar desempenham papel de mediação, devem resultar em um documento final no prazo de 60 dias. Nesse contexto, o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, deve realizar uma visita de Estado a Islamabad nesta terça-feira, segundo a diplomacia paquistanesa.
Já o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deve, por sua vez, viajar de terça a quinta-feira aos Emirados Árabes Unidos, ao Bahrein e ao Kuwait, segundo seu ministério. A equipe de negociadores iranianos, liderada por Ghalibaf, seguiu para Omã para discutir justamente a gestão do Estreito de Ormuz, segundo a Irna.
Em relação ao petróleo, principal recurso da República Islâmica, "todas as transações" relacionadas à produção, venda e transporte de hidrocarbonetos de origem iraniana 'estão autorizadas até 21 de agosto'", informou o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Versões diferentes sobre retorno da AIEA
O vice-presidente dos EUA disse que o Irã aceitou o retorno de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), classificando a medida como um primeiro passo rumo à desnuclearização, mas Teerã desmentiu a afirmação e, nesta terça-feira, afirmou que não pretende autorizar inspeções nos principais locais de seu programa nuclear atingidos pelos bombardeios israelenses e americanos, nem mantém, por ora, negociações com a agência sobre o tema.
O porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baghai, afirmou que o país "não teve nenhuma reunião com o diretor-geral da AIEA" e que "nem planeja" permitir inspeções nas instalações atingidas, enquanto o embaixador iraniano nas Nações Unidas em Genebra, Ali Bahreini, disse que "é muito cedo para abordar essas questões" e que qualquer informação nesse sentido é "errônea".
Criadas no âmbito do acordo nuclear de 2015, abandonado por Trump em 2018, essas inspeções foram suspensas pelo Irã após os bombardeios israelo-americanos às suas instalações em junho de 2025. Desde então, os inspetores da AIEA não puderam visitar os locais atingidos, o que levanta dúvidas sobre o estado das reservas de urânio altamente enriquecido do país, um ponto central de disputa com Washington. O Irã sempre negou buscar desenvolver armas nucleares, embora mantenha a posição de que tem direito a um programa nuclear civil completo.
Líbano: "Primeiro teste real"
No front libanês, que Teerã fez questão de incluir nas negociações, será criado um "mecanismo de gestão de conflitos" para tentar conter os combates entre Israel e o movimento pró-iraniano Hezbollah, que arrastou o Líbano para a guerra no início de março.
Na segunda-feira, o presidente libanês, Joseph Aoun, informou ter recebido uma ligação de JD Vance sobre "a consolidação do cessar-fogo no Líbano, o fim da escalada militar israelense e as medidas a serem adotadas nesse sentido". Nesse contexto, Beirute e Tel Aviv realizam nesta terça-feira mais uma rodada de discussões diretas, em Washington, nos EUA, para um acordo de paz.
A ofensiva no Líbano, lançada segundo Israel para impedir ataques do Hezbollah, causou mais de 4.100 mortos, segundo as autoridades, e mais de um milhão de deslocados. Para o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, o respeito a esse cessar-fogo será "o primeiro teste real" da solidez do protocolo de entendimento entre Estados Unidos e Irã.
Com AFP e Reuters
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