Trump falha ao tentar retomar controle da narrativa sobre caso Epstein e sofre pressão de aliados
Na tentativa de retomar o controle sobre o noticiário e se desvincular do escândalo sexual envolvendo Jeffrey Epstein, Donald Trump entrou com um processo por difamação contra o Wall Street Journal. Mas o gesto, em vez de virar a página, aprofundou ainda mais a crise, como relata a correspondente da RFI em Nova York, Loubna Anaki.
Na tentativa de retomar o controle sobre o noticiário e se desvincular do escândalo sexual envolvendo Jeffrey Epstein, Donald Trump entrou com um processo por difamação contra o Wall Street Journal. Mas o gesto, em vez de virar a página, aprofundou ainda mais a crise, como relata a correspondente da RFI em Nova York, Loubna Anaki.
Com informações de Loubna Anaki, correspondente da RFI em Nova York
A ação judicial, apresentada na sexta-feira (18), exige uma indenização de pelo menos US$ 10 bilhões. O motivo: a publicação de uma reportagem que atribui ao ex-presidente a autoria de uma carta de teor sexual enviada ao financista e agressor sexual Jeffrey Epstein em 2003.
A matéria reacendeu o debate sobre a relação de Trump com o caso e frustrou sua tentativa de desviar o foco para pautas mais favoráveis, como a assinatura de uma nova lei sobre criptomoedas, anunciada em evento solene na Casa Branca.
A volta do caso Epstein ao centro das atenções incomoda o ex-presidente, que agora é confrontado não apenas por jornalistas e opositores, mas também por parte de sua base e até por aliados republicanos. A pressão para divulgar documentos ligados ao processo de Epstein cresce, assim como o desgaste em torno de sua imagem.
Trump confirmou a ação por meio de sua rede social, a Truth Social, onde classificou a matéria como "mentirosa, mal-intencionada, difamatória e totalmente FAKE NEWS", publicada, segundo ele, em um "lixo inútil" chamado Wall Street Journal.
O jornal respondeu com firmeza: "Confiamos plenamente na precisão e na responsabilidade das nossas reportagens, e vamos nos defender com todas as ferramentas legais disponíveis", declarou um porta-voz da Dow Jones, empresa que controla o Wall Street Journal.
Tentativa frustrada de mudar de assunto
O processo acontece num momento em que o nome de Jeffrey Epstein — morto em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual de menores — volta ao noticiário. Segundo a correspondente da RFI em Nova York, Loubna Anaki, Trump tenta desviar o foco para recuperar protagonismo político. Ele chegou a organizar uma cerimônia na Casa Branca para celebrar a assinatura de uma nova lei sobre criptomoedas.
Diante de convidados e câmeras, Trump comemorou: "Hoje é um grande dia. Damos um passo importante para que os Estados Unidos liderem o sistema financeiro global".
Mas, nos bastidores, estava visivelmente incomodado, especialmente ao deixar o evento e ser novamente questionado por jornalistas sobre seu envolvimento com Epstein — perguntas que preferiu ignorar.
Pressão dentro e fora do partido
A situação se agravou depois que a Casa Branca anunciou que não tornaria públicos novos documentos ligados ao caso Epstein. A decisão irritou a base eleitoral de Trump, que esperava revelações comprometedores sobre a suposta rede de abusos comandada pelo financista.
Além disso, cresce entre parlamentares republicanos a pressão para que esses documentos venham a público. A reportagem do Wall Street Journal, que afirma que Trump teria escrito uma carta sexualmente sugestiva a Epstein, só aumentou a crise.
Trump nega a existência da carta e diz que todas as alegações do jornal são falsas. O problema é que ele mesmo, antes de assumir a presidência, ajudou a alimentar teorias da conspiração sobre o caso — incluindo a ideia de que Epstein foi assassinado na prisão e não se suicidou, como sustenta a versão oficial. Muitos acreditam que ele mantinha uma lista de nomes poderosos que frequentavam sua rede de exploração sexual.
Pressionado por aliados
Agora, o ex-presidente parece vítima da narrativa que ajudou a criar. Pressionado por aliados, ele autorizou a divulgação parcial dos depoimentos prestados a um grande júri. Paralelamente, o Departamento de Justiça dos EUA pediu à Justiça autorização para publicar os documentos que embasaram a acusação contra Epstein em 2019.
Ainda assim, o gesto pode não ser suficiente. Boa parte de seus apoiadores exige a divulgação completa de todos os arquivos do caso.