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América Latina

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Recrutamento de menores por grupos armados cresce na Colômbia com uso das redes sociais

O recrutamento de menores é um problema persistente na Colômbia, que vem crescendo nos últimos meses. Em 2025, foram registrados 386 casos envolvendo crianças e adolescentes. Essa violação dos direitos humanos está em ascensão, particularmente no departamento de Cauca, no sudoeste do país, onde a população indígena é a mais afetada. A RFI esteve nessa região para tentar entender essa crise.

4 ago 2026 - 16h29
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Paola Ariza, da RFI 

Dados oficiais mostram 386 casos registrados no país em 2025, embora os números reais sejam mais elevados. O medo permeia essas comunidades, que se sentem abandonadas e controladas por grupos armados.

"Eu tinha 15 anos quando me encontraram trabalhando em uma fazenda. Quando chegaram, perguntaram se eu queria entrar para o grupo deles. Eles me pegaram e me levaram", diz Juan (nome alterado por segurança), que faz parte das duras estatísticas sobre o recrutamento de menores no conflito colombiano.

Ele vem da parte norte de Cauca, departamento com as maiores taxas. Nessa região, grupos como dissidentes das FARC, o ELN e facções criminosas coexistem. Levou apenas uma semana para que persuadissem Juan a se juntar a um desses grupos armados.

"Fui convencido pelo dinheiro. Quando cheguei, mal conhecia as pessoas. Conheci outros jovens, alguns mais velhos do que eu, outros mais novos. São grupos difíceis de distinguir uns dos outros, porque há aspectos da guerra que muitas vezes não compreendemos", relata o jovem.

Aos 15 anos, Juan ganhava US$ 150 por mês trabalhando no campo e recebeu a promessa de ganhar US$ 500 (quase R$ 3 mil) mensais caso se juntasse àquele grupo armado. "Eles me disseram que a situação lá era boa, que eu teria como me sustentar. Eu queria ajudar minha família", conta Juan. No entanto, essa esperança durou apenas o primeiro mês, depois disso, o dinheiro parou de chegar.

Aliciamento de jovens e crianças como tática fundamental

As crianças são levadas à força ou aliciadas, mas, em ambos os casos, trata-se de recrutamento forçado, explica Nini Johana Daza, liderança do Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC).

"Infelizmente, os grupos armados fizeram do aliciamento de nossos jovens e crianças uma tática fundamental, convencendo-os de que existem perspectivas econômicas — ou talvez melhores oportunidades — ao lado deles. Assim, eles os levam embora, totalmente convencidos", observou Daza. Ela ressalta que, por se tratar de menores, essa forma de persuasão integra o flagelo mais amplo do recrutamento.

"Diante da desvantagem que enfrentamos para oferecer oportunidades alternativas aos nossos jovens e crianças, isso equivale a um recrutamento forçado. Eles são coagidos a enxergar oportunidades onde, na realidade, estão diante de uma armadilha mortal. Não há outra forma de encarar a situação".

A cada 20 horas, pelo menos uma criança em algum lugar da Colômbia é recrutada por um grupo armado, observa María Mercedes Lievano, diretora da ONG Save the Children na Colômbia, que destaca o medo extremo vivenciado por esses menores. Segundo ela fala, crianças relatam o terror absoluto que enfrentam ao viver na selva ou em combate, apesar de terem apenas 10 ou 12 anos de idade.

Redes sociais: ferramenta de recrutamento em expansão

Alguns são contatados pessoalmente, por estranhos, amigos ou pretendentes românticos, mas está surgindo uma nova e enorme tendência que preocupa organizações, pais e professores. María Mercedes Lievano explica: "Esses grupos operam com uma velocidade impressionante nas redes sociais para atrair crianças nessas áreas, glorificando a narcocultura, o poder, o dinheiro e as motocicletas".

Ela acrescentou que esses grupos armados se especializaram em estratégias de marketing muito robustas. "Dependendo do setor ou da região do país, eles usam elementos como a música vallenato (gênero musical local) e mensagens promocionais, publicando slogans como 'junte-se às tropas' ou 'inscreva-se e ganhe poder e reconhecimento'. Eles realmente empregam uma ampla gama de táticas de recrutamento sedutoras para se tornarem atraentes e venderem uma cultura específica. Uma falsa promessa de que ingressar nesses grupos resolverá muitos dos problemas das crianças", observou ela.

Participantes da assembleia de jovens indígenas se reúnem em campo de futebol, na reserva de Las Delicias, em Cauca, região afetada pelo conflito.
Participantes da assembleia de jovens indígenas se reúnem em campo de futebol, na reserva de Las Delicias, em Cauca, região afetada pelo conflito.
Foto: RFI

Carlos (nome alterado), um professor cuja escola fica em uma área rural de Cauca, convive com esses casos. "Conheço um menino que começou a conversar com uma garota muito bonita no Facebook. Eles combinaram de se encontrar umas cinco vezes, mas, na quinta semana de conversas, um comandante de um grupo ilegal assumiu o lugar da garota no chat e disse: 'Juan, sabemos onde você mora; sabemos o nome dos seus pais. Apareça aqui na sexta-feira, ou então mataremos todos vocês'. Ele teve de abandonar tudo, deixar os pais para trás, e fugir. Tudo isso decorreu de uma história inventada pelas redes sociais", relata o professor.

Carlos observou que alguns jovens que recrutam outros recebem até 20 milhões de pesos (quase R$ 26 mil). "É praticamente uma indústria em expansão no momento. Temos crianças sendo recrutadas com apenas 10, 12 e 13 anos de idade", acrescentou.

De acordo com os últimos dados anuais da Defensoria do Povo, quase metade dos menores recrutados pelo conflito tem menos de 15 anos.

"Eles sentem a morte o tempo todo"

Além dos combates em si, eles são, por vezes, vítimas de estupro e abuso sexual, observa a diretora da ONG. Ela ressalta que essas crianças não recebem treinamento, mas são tratadas como adultos, e descreve o medo duplo que vivenciam durante os confrontos: "Primeiro, o medo de serem mortas por disparos; e segundo, o medo de que, mesmo que consigam se esconder ou escapar, morrerão de qualquer maneira, pois enfrentam ameaças de que têm de lutar — não há como escapar desses grupos. De certa forma, elas sentem a morte o tempo todo", disse ela.

A sensação de que a morte o espreitava foi o que levou Juan a abandonar as tropas das quais fizera parte por dois anos. "Quando você sente uma bala quase te atingir, são esses os momentos em que pensa em sair dali. A pior coisa que me aconteceu foi perder companheiros — pessoas que eu amava e valorizava como se fossem irmãos de sangue. Muitas vezes eu queria fugir, mas tinha medo de que algo acontecesse comigo".

Após muitas tentativas, Juan finalmente conseguiu escapar; o que mais o retinha era o medo de sofrer o mesmo destino de seus companheiros, que "muitas vezes não conseguem escapar e acabam mortos".

Cartaz instalado por dissidentes das antigas das FARC, no qual aparecem líderes guerrilheiros, está à beira de uma estrada em Cauca, Colômbia, em 20 de maio de 2026.
Cartaz instalado por dissidentes das antigas das FARC, no qual aparecem líderes guerrilheiros, está à beira de uma estrada em Cauca, Colômbia, em 20 de maio de 2026.
Foto: RFI

Abandono do Estado

Mas por que grupos armados conseguem exercer controle dessa maneira? E quanto ao Estado? A diretora da Save the Children ressalta que um dos principais fatores que possibilitam essas práticas é o isolamento em que certos territórios se encontram.

"Precisamos entender que, em um país como a Colômbia, existem, infelizmente, regiões onde o acesso é muito limitado, inclusive para ONGs humanitárias, devido a riscos de segurança", apontou.

"Essa expansão do conflito armado leva a uma ampliação do controle social sobre as comunidades, e essas comunidades estão sob ameaça. As comunidades sentem medo. Elas não denunciam esses incidentes", enfatizou Lievano, citando a falta de presença do Estado, de programas sociais e de educação de qualidade.

"Temos áreas no país onde crianças de nove anos não conseguem ler e compreender um texto simples. Isso é 'pobreza de aprendizagem', e faz com que as percamos rapidamente. São crianças que abandonam o sistema educacional e correm o maior risco de se envolver em atividades criminosas", observou ela.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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