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América Latina

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Queima de bandeiras dos EUA e Israel marca homenagem às vítimas dos terremotos na Venezuela

Um mês após os terremotos que deixaram 5.546 mortos no norte da Venezuela, homenagens às vítimas dividiram espaço na sexta-feira (24) com novos sinais da crise política aberta após o sequestro de Nicolás Maduro. Em Caracas, apoiadores do chavismo queimaram bandeiras dos Estados Unidos e de Israel e acusaram Washington de ampliar sua influência no país sob o pretexto da ajuda humanitária. No mesmo dia, o governo interino anunciou a saída da Corte Penal Internacional e elevou a tensão política.

25 jul 2026 - 07h25
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Um mês após os terremotos que devastaram o norte da Venezuela, o país vive uma combinação de luto, reconstrução e turbulência política. Nesta sexta-feira (24), familiares das vítimas, equipes de resgate e moradores de áreas atingidas realizaram homenagens aos mortos exatamente no horário em que os tremores de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o país em 24 de junho.

Manifestantes queimam bandeiras dos Estados Unidos e de Israel durante um ato em Caracas, em 24 de julho de 2026, contra a presença e a influência dos dois países na Venezuela, um mês após os terremotos de 24 de junho.
Manifestantes queimam bandeiras dos Estados Unidos e de Israel durante um ato em Caracas, em 24 de julho de 2026, contra a presença e a influência dos dois países na Venezuela, um mês após os terremotos de 24 de junho.
Foto: AFP - MAXWELL BRICENO / RFI

Às 18h04 no horário local, momento exato da tragédia, o trabalho de busca foi interrompido em Tanaguarena, uma das localidades mais atingidas no estado de La Guaira, litoral próximo a Caracas. Entre prédios destruídos e montanhas de escombros, socorristas e parentes das vítimas observaram um minuto de silêncio.

O balanço oficial divulgado na sexta-feira elevou para 5.546 o número de mortos. As autoridades continuam sem divulgar uma estimativa atualizada de desaparecidos.

Ao longo do dia, cerimônias semelhantes ocorreram em diferentes pontos da capital venezuelana e das áreas devastadas. Em Caraballeda, onde um conjunto residencial desabou durante os tremores, moradores cantaram o hino nacional após uma homenagem às vítimas.

Procissões religiosas também reuniram moradores em bairros onde edifícios vieram abaixo. Em Los Corales, um sacerdote percorreu ruas destruídas acompanhado por sobreviventes que carregavam velas e homenageavam familiares mortos na tragédia.

Para muitos moradores, o ato marcou não apenas a lembrança das vítimas, mas também a percepção de que a fase mais intensa das buscas se aproxima do fim.

Buscas continuam, mas reconstrução ganha prioridade

Em diversas áreas atingidas, equipes ainda procuram desaparecidos sob os escombros.

Robert Rivero, de 48 anos, participou das homenagens em Caraballeda carregando uma fotografia estampada na camiseta. Ele perdeu um sobrinho e uma cunhada no desabamento do edifício OPP 33.

Segundo Rivero, os corpos dos familiares só foram encontrados dez dias após o terremoto. Apesar do enterro já realizado, ele afirma que a prioridade continua sendo localizar todas as pessoas que ainda permanecem desaparecidas.

As autoridades venezuelanas evitam divulgar uma estimativa oficial sobre quantos moradores ainda não foram encontrados. Poucos dias após a tragédia, a ONU avaliou que o número poderia chegar a 50 mil pessoas. Outras projeções posteriores passaram a trabalhar com cifras próximas de 10 mil.

Enquanto as operações de busca diminuem gradualmente de intensidade, o governo começa a concentrar esforços na remoção de escombros, na recuperação da infraestrutura e na assistência a milhares de desabrigados.

Para financiar parte dessas obras, o Fundo Monetário Internacional liberou US$ 346 milhões para o país.

Os terremotos atingiram especialmente o estado de La Guaira, mas também provocaram o desabamento de centenas de edifícios em Caracas, produzindo uma das maiores catástrofes da história recente da Venezuela.

Manifestação expõe reação chavista à presença dos EUA

As homenagens às vítimas dividiram espaço com um novo capítulo da crise política venezuelana.

Também na sexta-feira (24), cerca de cem apoiadores do chavismo queimaram bandeiras dos Estados Unidos e de Israel na praça Simón Bolívar, no centro de Caracas.

Os manifestantes também pisotearam fotografias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Entre as palavras de ordem estavam slogans como "Gringos, vão para casa" e "Isso não é ajuda, é ocupação", numa referência direta ao aumento da presença norte-americana no país após os terremotos.

Cartazes exibidos durante o ato acusavam Washington de interferir nos assuntos internos venezuelanos. A manifestação ocorreu em um dos locais mais simbólicos da história política nacional, dedicado ao líder da independência sul-americana Simón Bolívar.

Os organizadores classificaram o protesto como uma demonstração de resistência à presença norte-americana e ao que chamam de influência de grupos alinhados ao sionismo na Venezuela.

A retórica recupera elementos centrais do discurso desenvolvido durante décadas por Hugo Chávez e posteriormente por Nicolás Maduro, baseado na denúncia do chamado "imperialismo norte-americano".

Governo amplia mudanças após captura de Maduro

O protesto ocorre em meio às transformações políticas implementadas desde a captura de Nicolás Maduro.

Desde então, os Estados Unidos ampliaram sua influência sobre o governo interino liderado por Delcy Rodríguez, que assumiu a chefia do Executivo venezuelano após a saída de Maduro da cena política.

Entre as medidas adotadas estão mudanças na legislação para ampliar a participação privada nos setores de petróleo e mineração, áreas historicamente controladas pelo Estado venezuelano.

Paralelamente, Washington iniciou um processo gradual de flexibilização das sanções econômicas que atingiam o país e passou a exercer maior influência sobre as exportações de petróleo venezuelano.

A nova etapa das relações entre Caracas e Washington ocorre em meio a uma reconstrução nacional de grandes proporções, impulsionada pela destruição provocada pelos terremotos.

Venezuela deixará Corte Penal Internacional

Outra decisão tomada nesta sexta-feira (24) pelo governo interino foi o anúncio da retirada da Venezuela da Corte Penal Internacional.

O chanceler Félix Plasencia, nomeado há cerca de dez dias, afirmou que o tribunal passou a ser utilizado de forma desigual e incompatível com a soberania dos países.

A decisão tem forte peso político porque a Corte Penal Internacional mantém desde 2018 uma investigação sobre possíveis crimes contra a humanidade cometidos durante o governo de Nicolás Maduro.

Segundo Plasencia, a instituição teria sido instrumentalizada politicamente e deixado de cumprir o objetivo de promover uma justiça internacional imparcial.

O anúncio acrescenta um novo elemento de tensão ao cenário venezuelano, marcado simultaneamente pelo esforço de reconstrução após a catástrofe natural mais grave da história recente do país e pelas profundas mudanças políticas em curso desde a queda de Maduro.

Com AFP

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