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América Latina

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Eleitorado brasileiro cresce nos EUA, mas distância e medo do ICE desafiam votação em Nova York

A menos de um mês das eleições presidenciais no Brasil, os Estados Unidos se preparam para receber o maior contingente de eleitores brasileiros fora do país. O número de pessoas aptas a votar em território americano cresceu cerca de 45% desde a última eleição presidencial, ao mesmo tempo em que consulados reorganizam locais de votação para atender à demanda e a um desafio novo: o temor provocado pelo endurecimento das operações de controle de imigração no país.

14 set 2026 - 13h03
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Resumo
O eleitorado brasileiro nos EUA saltou para cerca de 265 mil visando 2026, mas enfrenta desafios para comparecer às urnas. Em Nova York, onde os aptos a votar somam 39 mil, a transferência da votação de Manhattan para o Queens gerou queixas sobre a distância e a falta de metrô. A mudança visou abrigar filas internamente devido ao medo de ações do ICE contra imigrantes. O grande obstáculo diplomático será combater a abstenção histórica em meio a esse clima de apreensão e endurecimento migratório.

Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

Urna usada pelos eleitores brasileiros nas eleições presidenciais (imagem ilustrativa).
Urna usada pelos eleitores brasileiros nas eleições presidenciais (imagem ilustrativa).
Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil / RFI

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918,9 mil brasileiros estão aptos a votar no exterior nas eleições de 2026. Em 2022, eram 697,1 mil - um crescimento de 31,8% em quatro anos. O eleitorado brasileiro no exterior mais do que quadruplicou desde 2010, quando estava na casa dos 200 mil.

Os Estados Unidos concentram o maior colégio eleitoral brasileiro fora do Brasil. São cerca de 265 mil eleitores registrados, contra quase 183 mil em 2022, um salto de aproximadamente 45%. Eles estão distribuídos entre diferentes postos de votação pelo país.

Boston reúne o maior eleitorado brasileiro nos Estados Unidos, com 53,4 mil pessoas aptas a votar. Na sequência aparecem Miami, com 40.109 eleitores, e Nova York, com 39.026. Em Nova York, o eleitorado aumentou significativamente em relação a 2022, quando cerca de 28 mil brasileiros estavam aptos a votar.

O crescimento ocorre em um momento em que a Justiça Eleitoral e o Itamaraty ampliam a estrutura para receber os brasileiros que vivem fora do país. Em abril, o TSE aprovou a transferência de R$ 13,2 milhões para a locação de imóveis no exterior. Neste ano, o Itamaraty trabalha com 66 endereços adicionais para a realização das eleições, 14 deles nos Estados Unidos.

De Manhattan para o Queens

Nas eleições de 2022, a votação de Nova York ocorreu em Manhattan. Mas este ano, o Consulado-Geral do Brasil decidiu transferir o pleito para uma instituição de ensino no Queens, provocando reclamações entre parte dos eleitores.

A mudança ocorre justamente em um dos distritos com maior concentração de imigrantes da cidade e que tem sido alvo de operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), em meio ao endurecimento da política migratória do governo Donald Trump.

O novo local fica a cerca de 16 quilômetros da sede do Consulado, em Manhattan, e não tem acesso direto ao metrô.

A jurisdição consular de Nova York também atende brasileiros que vivem em Nova Jersey e na região da Filadélfia, que precisam se deslocar até a cidade para votar.

É o caso de Amanda Lourenço, que trabalha com marketing e vive nos Estados Unidos há sete anos. Moradora da Pensilvânia, ela conta que já precisava dirigir cerca de uma hora e meia para votar em Nova York. Em 2022, conseguiu participar do primeiro turno, mas acabou não voltando para o segundo por causa da distância. Agora, com a transferência para o Queens, seu percurso ficará pelo menos meia hora mais longo.

"Eu preferia quando era em Manhattan, que era mais central, a gente não tinha que atravessar para o outro lado. Estou considerando se vou ou não. Acho que vou sim, porque para mim votar é importante. Mas a verdade é que deu uma desanimada de pensar que é mais longe ainda", diz a eleitora.

A decisão já provocou uma mobilização de brasileiros que pedem ao Consulado a transferência da votação de volta para Manhattan.

Medo do ICE também pesou na escolha

Mas a distância não foi o único fator considerado na definição do novo endereço. Em meio ao aumento das operações de imigração nos Estados Unidos, o medo de abordagens de agentes do ICE também entrou no cálculo das autoridades brasileiras. O local escolhido no Queens permite que as filas sejam organizadas dentro do complexo educacional, evitando que milhares de brasileiros tenham de esperar nas calçadas.

Segundo as informações reunidas sobre a preparação do pleito, a Secretaria de Relações Internacionais da Prefeitura de Nova York e a polícia da cidade também participaram do mapeamento de alternativas consideradas mais seguras. O mesmo complexo foi utilizado pelo Consulado-Geral do Peru para sua eleição presidencial em abril.

A preocupação ganha peso em uma comunidade muito maior do que o eleitorado registrado. Estimativas do Itamaraty apontam para cerca de 2 milhões de brasileiros vivendo atualmente nos Estados Unidos, enquanto apenas cerca de 265 mil estão aptos a votar.

Histórico de filas e abstenção

A organização das filas já havia sido um desafio em Nova York nas últimas eleições presidenciais. Em 2022, eleitores chegaram a enfrentar cerca de meia hora de espera para percorrer aproximadamente 500 metros. Também houve tensão entre apoiadores de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, levando a polícia de Nova York a instalar barreiras e manter os dois grupos em lados diferentes da rua.

Apesar do crescimento do número de eleitores cadastrados, levar esses brasileiros efetivamente às urnas continua sendo um dos principais desafios da eleição no exterior.

Em 2022, a abstenção entre brasileiros que votavam fora do país chegou a 63,36% no primeiro turno e 61,44% no segundo. Assim como no Brasil, o voto é obrigatório para eleitores alfabetizados entre 18 e 70 anos, embora quem esteja ausente possa justificar a falta.

No pleito passado, o eleitorado brasileiro nos Estados Unidos deu ampla vantagem a Jair Bolsonaro: o então presidente recebeu cerca de 65% dos votos válidos no país. Miami foi seu principal reduto, com 81,2%. Lula venceu em apenas três dos dez postos consulares, obtendo seu melhor resultado em São Francisco, onde alcançou 60,1%.

Em 2026, portanto, o desafio das autoridades brasileiras será duplo: acomodar um eleitorado muito maior e transformar o crescimento dos registros em participação efetiva nas urnas, em uma eleição realizada sob um cenário migratório muito diferente daquele de quatro anos atrás.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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