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América Latina

Operação militar que matou poderoso chefe do narcotráfico provoca onda de violência no México

"El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), era um dos chefes mais procurados pelo México e pelos Estados Unidos

23 fev 2026 - 06h24
(atualizado às 07h25)
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Um ônibus em chamas foi usado pelo narcotráfico para bloquear uma estrada em Zapopan, México, em 22 de fevereiro de 2026.
Um ônibus em chamas foi usado pelo narcotráfico para bloquear uma estrada em Zapopan, México, em 22 de fevereiro de 2026.
Foto: REUTERS - Gabriel Trujillo / RFI

O exército mexicano anunciou neste domingo, 22, que matou o poderoso chefe do narcotráfico Nemesio "El Mencho" Oseguera em uma operação que abalou o estado de Jalisco e provocou uma onda de violência em várias partes do país. O governo de Donald Trump aplaudiu a ação.

"El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), era um dos chefes mais procurados pelo México e pelos Estados Unidos, que ofereciam uma recompensa de US$ 15 milhões (R$ 78 milhões), após a prisão dos fundadores do cartel de Sinaloa, Joaquín "El Chapo" Guzmán e Ismael "Mayo" Zambada, atualmente presos nos Estados Unidos.

O exército informou em comunicado que "El Mencho", de 59 anos, ficou ferido em um confronto com militares na localidade de Tapalpa, em Jalisco (oeste), e morreu "durante seu traslado por via aérea à Cidade do México".

No total, sete criminosos morreram e três militares ficaram feridos. Dois integrantes do CJNG foram detidos e diversas armas foram apreendidas, como lançadores de foguetes capazes de derrubar aeronaves e destruir veículos blindados, segundo a mesma fonte.

A operação do exército desencadeou uma onda de violência em vários estados. A presidente Claudia Sheinbaum pediu à população que mantivesse a calma. "Existe absoluta coordenação com os governos de todos os estados", disse na rede X.

Bloqueios

Homens armados bloquearam com carros e caminhões incendiados diversas vias de Jalisco. À tarde, eram visíveis restos de veículos carbonizados e outros ainda em chamas em várias rodovias, em meio ao som das sirenes das forças de segurança.

Os bloqueios e a queima de lojas e estabelecimentos também se estenderam ao balneário de Puerto Vallarta, ao estado vizinho de Michoacán e aos estados de Puebla (centro), Sinaloa (noroeste), Guanajuato (centro) e Guerrero (sul).

Partidas de futebol dos campeonatos masculino e feminino e da segunda divisão foram suspensas, e companhias aéreas do Canadá e dos Estados Unidos cancelaram dezenas de voos para o México.

EUA aplaudem operação

O Departamento de Estado dos Estados Unidos fez um apelo para que seus cidadãos no México busquem abrigo.

"Os bloqueios afetaram as operações aéreas, e alguns voos nacionais e internacionais foram cancelados tanto em Guadalajara quanto em Puerto Vallarta", afirmou um comunicado da seção de Assuntos Consulares do Departamento, divulgado no X.

O exército mexicano afirmou que, para a execução da operação, "além dos trabalhos de inteligência militar central (...) foram usadas informações complementares" por parte das autoridades americanas.

O governo de Donald Trump aplaudiu a operação na qual Nemesio Oseguera foi abatido.

"Este é um grande marco para o México, os Estados Unidos, a América Latina e o mundo (...). Parabéns às forças da lei da grande nação mexicana", escreveu Christopher Landau, subsecretário de Estado, no X.

A morte de "El Mencho" ocorre em meio à pressão do presidente Trump para que o México freie o envio de drogas, especialmente fentanil, para seu país.

Trump ameaçou em várias ocasiões impor tarifas às exportações mexicanas, ao afirmar que o governo da presidente Claudia Sheinbaum não fez o suficiente para combater o narcotráfico.

Chefão violento

O estado de Jalisco, que receberá quatro partidas da Copa do Mundo de Futebol de 2026, determinou o cancelamento de eventos de grande porte neste domingo e a suspensão das aulas presenciais na segunda-feira.

Em Guadalajara, capital de Jalisco, diversos estabelecimentos, desde farmácias até lojas de conveniência e postos de gasolina, fecharam as portas e as ruas estão praticamente vazias, constatou a AFP.

"Chegaram alguns homens armados, vi a arma e disseram para sairmos, nós saímos e eles tinham um carro com as portas abertas. Pensei que iam nos sequestrar, corri para a frente, até uma barraca de comida, e me abriguei com eles", disse à AFP María Medina, que trabalha em uma loja de conveniência incendiada por homens armados.

Quem era El Mencho

Nemesio Oseguera Cervantes nasceu em uma família pobre no estado de Michoacán, no México, em 1966. Trabalhou por um tempo nas plantações de abacate, atividade comum em seu meio social, antes de iniciar sua carreira criminosa ao vigiar campos de papoula e maconha para cartéis durante a adolescência.

Ao se mudar para os Estados Unidos, estabelecendo-se em São Francisco, envolveu-se no tráfico de drogas com seu irmão, especialmente de heroína, na década de 1980. Foi preso várias vezes antes de ser condenado a três anos de prisão no Texas. Após cumprir a pena, foi deportado para o México, onde se tornou policial no estado de Jalisco.

Posteriormente, deixou as forças de segurança para retornar ao tráfico de drogas, integrando o Cartel del Milenio como membro de um esquadrão de assassinos. Casou-se com Rosalinda González Valencia, irmã de um dos chefes do cartel, o que fortaleceu sua posição dentro da organização.

Na década de 2000, após a prisão do então líder do cartel, Armando Valencia Cornelio, e com a chegada do cartel rival Los Zetas, o Cartel del Milenio aliou-se ao Cartel de Sinaloa, para o qual produzia metanfetamina e atuava como braço armado nos estados de Colima e Jalisco.

De um pequeno grupo armado a um cartel transnacional

Após a prisão de Óscar Nava Valencia, em 2009, o Cartel del Milenio fragmentou-se em várias facções, entre elas o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), inicialmente conhecido como Los Mata Zetas. Liderado por Oseguera, conhecido como "El Mencho", o grupo começou como braço armado do Cartel de Sinaloa em sua guerra contra os Zetas. O CJNG consolidou sua presença no estado de Jalisco e em estados vizinhos ao longo da década de 2010.

Em agosto de 2012, El Mencho foi preso, mas libertado poucas horas depois por ordem do então governador de Jalisco, segundo investigação do jornal mexicano El Universal. Em resposta, integrantes do cartel montaram cerca de 28 bloqueios na região de Guadalajara para intimidar as autoridades. O CJNG e El Mencho romperam definitivamente a aliança com o Cartel de Sinaloa em fevereiro de 2013, que ao longo dos anos se tornaria seu principal rival.

Sob seu comando, o CJNG passou a ser conhecido tanto por sua extrema violência quanto por seu armamento sofisticado, aproximando-se das capacidades de um exército convencional. Em junho de 2020, o cartel foi acusado de atacar o então secretário de Segurança Pública da Cidade do México, Omar García Harfuch, que ficou ferido. Um mês depois, o grupo divulgou um vídeo no qual aparecia uma centena de homens com trajes militares, armas automáticas e veículos blindados, proclamando lealdade a El Mencho.

Discrição prudente e homenagens exuberantes

Nos últimos anos, o CJNG consolidou-se como um dos maiores cartéis do México, operando em quase todos os estados do país, além de expandir suas atividades para a Europa, Austrália e Ásia. Oseguera teria se beneficiado da guerra interna no Cartel de Sinaloa após a captura de Ismael Zambada García, conhecido como "El Mayo", para ampliar sua influência territorial.

Assim como o antigo líder do Cartel de Sinaloa, Oseguera evitava se expor publicamente, e poucas fotografias suas circulavam. Ainda assim, aquele que também era conhecido como "El Señor de los Gallos" cultivava uma aura particular.

Alguns artistas chegaram a lhe prestar homenagens públicas, como o grupo musical Los Alegres del Barranco, que exibiu no palco, em 31 de março de 2025, um retrato gigante de El Mencho. Na localidade de Tinaja de Vargas, festividades chamadas "El Mencho Fest" foram organizadas em janeiro de 2025.

Diversos rumores já o deram como morto nos últimos anos, incluindo especulações de que sofreria de insuficiência renal.

*Yann Le Ny, da RFI, e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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