Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

América Latina

Publicidade

No centenário de Fidel Castro, Cuba enfrenta crise que coloca legado da Revolução à prova

No centenário do nascimento de Fidel Castro, celebrado nesta quinta-feira, 13 de agosto, Cuba vive sob uma contradição: enquanto o Partido Comunista celebra o líder que comandou a ilha por quase meio século, o país enfrenta uma das mais graves crises de sua história recente.

13 ago 2026 - 12h07
Compartilhar
Exibir comentários

Exposições, shows e conferências foram organizados para marcar os 100 anos do nascimento de Fidel, morto em 2016. Mas, fora das cerimônias oficiais, a realidade é marcada por apagões que podem durar horas ou até dias, falta de alimentos e água, transporte público em colapso e escassez de medicamentos.

A crise também reacende uma discussão incômoda para os cubanos: o que permanece das promessas sociais da Revolução e até que ponto seus problemas atuais são consequência de pressões externas ou do próprio modelo econômico e político construído sob Fidel.

Antes de colocar um retrato de Castro na janela de sua casa, em Havana, o eletricista Leonel Suárez, de 54 anos, beija a imagem. Há mais de uma década, ele coleciona fotografias e objetos ligados à Revolução e chama Fidel de "mestre".

Suárez acredita que, se estivesse vivo, o antigo líder saberia enfrentar a crise "com muita estratégia" e "dando duro por seu povo".

Mas a situação econômica chegou a um ponto em que até sua coleção virou fonte de renda. Quando um turista lhe ofereceu US$ 100 por uma fotografia de Fidel, ele aceitou.

"É preciso viver", diz.

Entre a memória e a crise

Para uma parte dos cubanos, Fidel ainda é lembrado como o líder que atravessou algumas das maiores crises enfrentadas pela ilha: a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis, o embargo americano, tentativas de assassinato e o colapso da União Soviética, que deixou Cuba sem seu principal aliado econômico.

"Fidel já não está aqui, e ninguém tem as capacidades que Fidel tinha", afirma Rogelio Valdivia, de 54 anos, em sua oficina na Havana Velha, o centro histórico da capital cubana.

Valdivia nasceu durante a Revolução e atribui a ela parte de sua trajetória pessoal. Nas paredes da oficina, entre ferramentas e rachaduras, mantém uma espécie de santuário dedicado a Fidel.

Foto de arquivo mostra Fidel Castro durante discurso no Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, tendo ao fundo um mural de seu irmão Raúl e Ernesto Che Guevara, em 30 de junho de 1999.
Foto de arquivo mostra Fidel Castro durante discurso no Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, tendo ao fundo um mural de seu irmão Raúl e Ernesto Che Guevara, em 30 de junho de 1999.
Foto: RFI

A presença física do antigo líder, porém, vem desaparecendo das ruas.

Após sua morte, uma lei proibiu a construção de monumentos em sua homenagem e o uso de seu nome para instituições públicas. Os grandes painéis com seu rosto também foram desaparecendo, deteriorados pelo tempo.

O culto oficial à imagem de Fidel permanece, mas já não ocupa o mesmo espaço no cotidiano.

O pacto social perdeu força

A crise atinge justamente uma geração que durante décadas associou a Revolução a conquistas sociais.

Ángela Gutiérrez, de 86 anos, pertence a esse grupo. Ela cresceu sob Fidel e se beneficiou do sistema público de saúde e educação. Hoje, diz estar "decepcionada" com os rumos do país.

Depois de percorrer barracas de alimentos sem conseguir comprar o que precisava, reclama dos preços e dos apagões.

"Por que cortam tanto a luz?", questiona. "Estão acabando com a vida das pessoas."

O contraste é central para entender a crise cubana. Durante décadas, o governo ofereceu serviços sociais e proteção econômica em troca de disciplina política e pouca abertura para a oposição. Esse pacto social foi uma das bases da estabilidade do regime.

Agora, porém, o Estado enfrenta dificuldades crescentes para cumprir sua parte desse acordo. O problema aparece no cotidiano: energia elétrica instável, falta de combustível, alimentos caros, hospitais com falta de medicamentos e transporte público insuficiente.

A crise econômica não é nova. Ela se aprofundou depois da pandemia, com a queda do turismo e a escassez de divisas, e ganhou novo impulso após a reforma monetária de 2021, que contribuiu para uma forte aceleração da inflação.

As novas medidas de Washington aumentaram a pressão, especialmente sobre o fornecimento de combustível. Mas atribuir a crise exclusivamente ao embargo americano deixa de fora problemas que já existiam antes do agravamento recente das sanções.

O modelo que Fidel deixou

Desde 1959, a economia cubana foi organizada em torno de forte controle estatal, nacionalização dos principais setores produtivos e restrições à iniciativa privada.

O modelo permitiu ao governo controlar recursos estratégicos e sustentar programas sociais, mas também criou uma economia pouco produtiva, dependente de parceiros externos e com limitada capacidade de adaptação.

A dependência ficou evidente após o fim da União Soviética, no início dos anos 1990. Décadas depois, Cuba continua enfrentando dificuldades para gerar divisas e produzir internamente bens básicos.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o açúcar. A indústria que durante séculos esteve no centro da economia cubana entrou em declínio acelerado. A produção, que chegou a cerca de 8 milhões de toneladas no final dos anos 1980, caiu para níveis historicamente baixos nas décadas seguintes.

Ao mesmo tempo, Havana tentou substituir parte dessa receita pelo turismo e pela exportação de serviços profissionais, especialmente médicos enviados para trabalhar no exterior, como no Brasil.

O turismo chegou a se tornar uma das principais fontes de moeda estrangeira do país. Mas a atividade também se mostrou vulnerável à pandemia, à deterioração da infraestrutura e às restrições impostas pelos Estados Unidos.

O resultado é uma economia com pouca capacidade de gerar crescimento, baixa disponibilidade de moeda estrangeira e dificuldade para financiar investimentos justamente nos setores que mais precisam de modernização.

O dilema de Díaz-Canel

É nesse cenário que os sucessores de Fidel são colocados à prova.

Miguel Díaz-Canel assumiu a Presidência em 2018 e tornou-se primeiro-secretário do Partido Comunista em 2021, quando Raúl Castro deixou o comando da legenda.

A questão agora é se a atual liderança conseguirá reformar a economia sem abrir mão do controle político que sustenta o sistema. Esse é o principal dilema.

Para recuperar a produção e atrair investimentos, Cuba precisaria ampliar o espaço para empresas privadas, flexibilizar mercados, modernizar sua infraestrutura e criar condições mais favoráveis para o investimento.

Mas uma abertura econômica também pode reduzir a dependência da população em relação ao Estado e criar novos centros de poder econômico e social. Para um regime construído em torno do monopólio político do Partido Comunista, essa possibilidade representa um risco.

O resultado é um círculo vicioso: o governo precisa de reformas para recuperar a economia, mas teme que reformas profundas enfraqueçam o sistema político. Enquanto isso, a deterioração econômica aumenta a pressão sobre o próprio pacto social que sustentou o regime.

Fidel como explicação ou como problema

É nesse ponto que as duas interpretações sobre o legado de Fidel se encontram.

Manuel Cuesta, historiador de 63 anos e opositor político, pertence ao grupo que deixou de enxergar Castro como o "redentor" que conheceu na juventude.

Fidel Castro diante da tribuna da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 26 de setembro de 1960.
Fidel Castro diante da tribuna da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 26 de setembro de 1960.
Foto: RFI

Segundo ele, a distância entre as promessas da Revolução e a realidade cubana fez com que Fidel passasse, para muitos, de símbolo de esperança a "responsável original por esta catástrofe nacional".

Hassan Pérez, historiador e ex-dirigente estudantil que trabalhou próximo a Fidel, reconhece que o centenário ocorre em um dos momentos mais difíceis da história recente da ilha. Para ele, o pacto social criado pela Revolução "se deteriorou" nos últimos anos. Ainda assim, a figura de Fidel permanece relevante.

Mildred Barreto, de 66 anos, continua chamando-o de "nosso comandante". Mas, quando fala da vida atual, resume a mudança em uma frase: "A gente passa por muitas dificuldades. Com nosso comandante, não."

O centenário de Fidel Castro expõe, assim, uma disputa que vai além da memória de um líder. Para seus admiradores, a crise mostra a falta de uma liderança capaz de enfrentar adversidades como Fidel fazia. Para seus críticos, ela é justamente o resultado de um sistema econômico e político criado sob seu comando e mantido por seus sucessores.

A pergunta que fica para Cuba não é apenas se Fidel ainda vive na memória dos cubanos. É se o modelo que ele deixou consegue sobreviver à crise, ou se a própria crise obrigará seus sucessores a fazer as reformas que o regime adiou durante décadas.

Com agências

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra