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América Latina

"O calcanhar de Aquiles kirchnerista é a sucessão", diz professor

25 mai 2013 - 15h17
(atualizado às 16h47)
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Néstor e Cristina Kirchner: 10 anos de kirchnerismo em balanço
Néstor e Cristina Kirchner: 10 anos de kirchnerismo em balanço
Foto: AFP

Hoje 25 de maio, se festeja na Argentina o Dia da Pátria, ou a Revolução de Maio. No entanto, em 2013, esta mesma data marca os 10 anos de kirchnerismo no poder - período iniciado com o primeiro mandato de Néstor Kirchner, em 2003, e sucedido por sua mulher, Cristina Kirchner.

O Terra conversou com o professor da Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade de Buenos Aires, Carlos Mangone, que está finalizando um livro sobre a era Kirchner, chamado El relato encontrado, com previsão de lançamento para outubro. Mangone fez um resumo dos temas que deve abordar em sua obra e contou um pouco sobre sua visão acerca da chamada “década ganha”.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Terrra - Qual perspectiva você adotou para pensar esses 10 anos de Kirchnerismo?

Carlos Mangone - Uma perspectiva que poderia ser facilmente adotada é a que pensa a última década argentina sob a ótica das suas mudanças econômicas. Eu me refiro a investigar que transformações nós vivemos que resultaram em uma mudança tão brusca na qual antes nossa moeda tinha equiparidade com o dólar e agora está pelo menos quatro vezes mais barata. Mas não, a minha ideia foi pensar esses últimos dez anos sob a perspectiva da memória social e como esse mecanismo ajudou a forjar o movimento político que hoje completa dez anos.

Terra - E quais seriam os marcos utilizados para pensar a memória social?

Mangone - Eu proponho três momento nos quais podemos apoiar-nos para pensar o kirchnerismo. O primeiro seriam os anos 1970, o que eu chamo de memória a longo prazo, que foi uma década de plena militância no país. Até hoje o mito fundador do kirchnerismo é o movimento militante associado a esse período, mesmo que não exista nenhuma prova concreta de que o casal “K” tenha atuado plenamente em algum movimento.

Bom, em seguida obviamente é preciso pensar a memória a médio prazo, ou seja, os anos 1990, década na qual a Argentina vivia sob a égide das políticas neoliberais de Carlos Menem (1989-1999), presidente que teve total apoio de parte do governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner, e da então senadora Cristina Fernández (de Kirchner). Houve uma aliança com o menemismo que está bastante clara no filme de Caetano - Adrian Caetano é um cineasta uruguaio que acaba de lançar um documentário sobre a vida de Néstor Kirchner, que leva o nome do ex-presidente como título.

Terra - E por fim, a perspectiva da memória a curto prazo, que trataria já de analisar esse governo que possui um projeto chamado Nacional e Popular.

Mangone - O que explicaria a incrível ascenção de uma candidato a presidência que obteve apenas 22% - levando as eleições a um segundo turno - em 2003 ao posto de fundador do movimento político mais forte existente na Argentina na atualidade? Quando assumiu o poder, Néstor Kirchner teve a seu favor duas circunstâncias que viriam a marcar o sua administração desde a ótica econômica e a transformação ocorrida na Argentina que elevou a moral Kirchenerista, para se dizer assim.

A primeira é que Néstor tomou nas mão um país totalmente quebrado, recém passado pela famosa crise de 2001, que gerou 45% de desempregados. Essa situação de calamidade foi o palco ideal para que o governo pudesse apontar toda e qualquer melhoria, ou nivel de crescimento, como algo extraordinário. Mas eu insisto em dizer que, dadas as circunstâncias, nenhum presidente poderia afundar ainda mais o país que já estava numa situação terrivel. Além disso, Néstor teve sorte ao encontrar um contexto econômico mundial carente de commodities, que se somou ao incremento da semente de soja transgênica que foi amplamente cultivada na Argentina. A comercialização da soja injetou o dinheiro que faltava a economia do pais, dando a possibilidade para que o governo recuperasse os caixas públicos, gerando aumento no valor de benefícios como o sálario mínimo e a aposentadoria.

Terra - E como o kirchnerismo passou da ascenção à consolidação?

Mangone - Além das várias alianças feitas por parte do governo, a primeira delas com o diário El Clarín, a segunda com a mega-empresa Telefônica de comuncação, além dos exportadores de soja e finalmente os empresários da mineração, eu posso dizer que desfragmentação por parte da oposição foram, sem dúvida, os fatores que configuraram o cenário para a consolidação “K”.

Terra - O senhor concorda com o slogan do governo que classifica os 10 anos de Kirchnerismo como “Uma década ganha”?

Mangone - De maneira alguma. Década ganha? Como se nesses dez anos o país houvesse obtido um grande nível de desenvolvimento. Sendo que a perspectiva de crescimento tomada por eles está relacionada a um período no qual a Argentina saía de uma grave crise econômica, na qual não tinhamos outra alternativa, senão voltar a crescer. Além disso, tal projeto nacional é totalmente contraditório, se você ponderar que houve uma grandíssima estrangeirização da economia desde que o kirchnerismo assumiu o poder, com a entrada massiva de capital de empresas estrangeiras.

A defesa dos direitos trabalhistas, principal base da politica social peronista, também é questionável, sendo que os índices de trabalho informal se mantiveram os mesmos de quando Néstor Kirchner assumiu o governo. O que se pode dizer é que o governo concedeu um incremento nos valores pagos aos trabalhadores para lograr maior credibilidade junto às classes até então desfavorecidas. O salário dos trabalhadores mellhorou, mais ainda não passa dos dois mil pesos.

Terra - Quais foram os avanços nesses 10 anos, ou não houveram?

Mangone - Voltamos ao conceito da memória a longo prazo. Perguntemos: qual seria o grande logro do kirchnerismo? O julgamento dos criminoso da ditadura, que remete a imagem célebre de Néstor retirando o quadro de Videla da conjunto de quadros de ex-presidentes no Salão de Atos da Casa Rosada? Até pode ser, mas o que acontece sempre nos modelos populistas de governo é que ele cria um laço de gratidão do povo para com o governo. A que eu me refiro com isso? Que o governo faz com a população pense que os direitos adquiridos são uma espécie de “presente” do governo e não o simples resultado da cedência à pressão de mobilizações sociais. O casamento igualitário, a Asignación Universal por Hijo (espécie de Bolsa Família): todos foram reivindicações de um setor que pressionou o governo, mas que só obteve o seu aval após ter a aprovação no Congresso e no Senado Nacional. Nada veio de graça, ou sem luta.

Terra - Como será o futuro do kirchnerismo?

Mangone - Não se está escrevendo no céu o futuro do país, ou do kirchnerismo. Mas existe um nível de desorganização social e ecônomica, um nível de debilitação do discurso político em função de medidas contraditórias. O calcanhar de aquiles kirchnerista é a sucessão política. Porque o movimento está circunscrito à associação matrimonial que se alternou no poder, e agora não tem mais para quem passar o “bastão”. O tema das sucessões sempre foi um problema para os governos peronistas. O próprio Perón teve uma sucessão dramática. Portanto, eu penso que para que exista um futuro kirchnrista será necessária uma reavaliação na sua estretégia política no sentido de projetar mudanças a longo prazo.

Fonte: Especial para Terra
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