Fed, Intel, fabricante de armas: até onde vai a deriva autocrática de Donald Trump?
Após anunciar a intenção de demitir uma das diretoras do Banco Central americano (Fed), Lisa Cook, por fraude em um caso de financiamento imobiliário, o presidente Donald Trump reconheceu que o objetivo da manobra é assumir o controle da instituição. Em uma reunião de gabinete, ele comemorou que, em breve, terá a maioria a seu favor no Fed. "Será bom e, uma vez concluído, vamos decolar", declarou.
Após anunciar a intenção de demitir uma das diretoras do Banco Central americano (Fed), Lisa Cook, por fraude em um caso de financiamento imobiliário, o presidente Donald Trump reconheceu que o objetivo da manobra é assumir o controle da instituição. Em uma reunião de gabinete, ele comemorou que, em breve, terá a maioria a seu favor no Fed. "Será bom e, uma vez concluído, vamos decolar", declarou.
Informações de Juliette Gheerbrant, correspondente da RFI em Nova York, e de agências
A interferência presidencial inédita nas instituições americanas é um novo passo na deriva autocrática de Donald Trump, que em diversas decisões, desafia o Estado de Direito. O envio do exército para manter a ordem pública em território nacional; o controle do sistema de justiça e o uso dos tribunais para silenciar oponentes; o uso de circunstâncias excepcionais para justificar expulsões em massa de estrangeiros, burlando a lei; a chantagem financeira de universidades; a nomeação de subordinados para instituições como o Departamento de Estatísticas e a anulação das prerrogativas do Parlamento são os exemplos mais flagrantes da tendência autoritária em curso no país.
Donald Trump sempre refutou o rótulo de "ditador", porém, agora não parece mais se sentir tão desconfortável com o termo. Na terça-feira (26), ele falou sobre o envio do exército para Washington: "Dizem que eu seria um ditador. Mas eu acabo com o crime. E muitas pessoas dizem: 'Bem, nesse caso, eu preferiria ter um ditador.'"
Não chega a ser exatamente uma surpresa já que na campanha eleitoral, ele já havia sinalizado o plano de se intrometer em assuntos dos quais os presidentes dos Estados Unidos costumam manter distância. Em 2022, Donald Trump declarou ao veículo em espanhol Univision: "Se eu for presidente e alguém vier me atacar violentamente, eu direi para irem atrás dele e detê-lo, e será o fim da história".
Os seus oponentes, tanto democratas quanto republicanos, advertiram na época que as declarações de Trump deveriam ser levadas a sério. Em seu segundo mandato, ele demonstra estar determinado a fazer tudo o que diz.
Virada intervencionista na indústria de defesa e tecnologia
Poucos dias após a nacionalização parcial da fabricante de semicondutores Intel, outro foco recente de atuação incomum do presidente dos Estados Unidos é na indústria da Defesa. Trump se interessa particularmente pela empresa Lockheed Martin, com sede em Maryland, onde fabrica munições e caças (F-35), que depois entrega ao exército americano. E se os Estados Unidos, principais clientes da companhia, adquirissem uma participação na Lockheed Martin?
A opção está sobre a mesa, respondeu o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnik, na terça-feira, à CNBC: "Há uma discussão muito, muito importante em torno da defesa. A Lockheed Martin obtém 97% de sua receita do governo dos EUA. Na verdade, é um braço do governo dos EUA. Eles fabricam munições simplesmente magníficas. É papel do governo se envolver mais na empresa? Nossos funcionários de defesa estão considerando isso", indicou.
Kevin Hassett, assessor econômico-chefe do presidente Donald Trump, também sinalizou que o governo estaria disposto a investir em outras empresas, mas sem especificar nenhum setor específico.
"É perfeitamente possível", respondeu Kevin Hassett à CNBC. "Tenho certeza de que haverá outras transações" [semelhantes à da Intel]. Na sexta-feira (22), Trump anunciou a nacionalização parcial da fabricante de chips. O governo federal investirá 10% do capital do grupo, sem gastar um centavo, graças aos US$ 11 bilhões em subsídios prometidos pelo governo de Joe Biden.
"No passado, o governo federal dava dinheiro e os contribuintes não recebiam nada em troca. O que está acontecendo com a Intel é que o dinheiro vai para a empresa conforme o esperado, mas, em troca, o contribuinte recebe uma participação na empresa", explicou ele, lembrando que se tratava de uma "participação sem direito a voto".