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América Latina

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Endividamento recorde leva argentinos às ruas contra juros abusivos e política econômica de Milei

Nesta semana, uma série de protestos contra bancos e carteiras virtuais tem levado às ruas um problema que ganhou proporções históricas: 20,8 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa, estão endividados. Destes, seis milhões estão inadimplentes, equivalente a 30%. Por trás do problema, a perda acelerada do poder de compra dos argentinos que recorrem ao crédito para comer e pagar contas de serviços básicos. O presidente Javier Milei diz que "o problema é da esfera privada" e que "ninguém colocou uma pistola na cabeça dos devedores", mas não impede juros de até 1.375% ao ano, um número 40 vezes maior do que a inflação anual.

21 ago 2026 - 10h22
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Resumo
A disparada da inadimplência na Argentina, impulsionada pela inflação e juros de até 1.375% ao ano cobrados por bancos e carteiras virtuais, gerou protestos contra as fintechs e as políticas de Javier Milei. Quase 21 milhões de pessoas estão endividadas para cobrir gastos básicos, reflexo da forte perda do poder de compra e das tarifas elevadas. Apesar da crise que atinge a maioria da população, o governo Milei se recusa a intervir no mercado financeiro para conter a cobrança abusiva de juros.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Trabalhadores, sindicalistas e ativistas de organizações sociais durante um protesto contra o endividamento crescente das famílias, em Buenos Aires, em 20 de agosto de 2026.
Trabalhadores, sindicalistas e ativistas de organizações sociais durante um protesto contra o endividamento crescente das famílias, em Buenos Aires, em 20 de agosto de 2026.
Foto: REUTERS - Antonio Becerra Pegoraro / RFI

Nos últimos 20 meses, a inadimplência no sistema financeiro tem crescido de forma acelerada e assustadora, a ponto de, nesta semana, ganhar forma de protestos populares.

O problema afeta quase 21 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa. Destes, seis milhões estão inadimplentes, o equivalente a 30%, e metade deles é considerada "irrecuperável".

Dentro do sistema financeiro, são 26,1% de inadimplentes, representando 17,5% de todos os empréstimos, um número que multiplica por sete o de dois anos atrás. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, em outubro de 2024, a inadimplência era de 2,5% de todos os empréstimos.

Um quarto da massa salarial do país está comprometida com a inadimplência.

Os argentinos devem aos bancos, às carteiras virtuais, aos cartões de crédito, aos sistemas de crédito dos supermercados e aos agiotas do bairro.

Os empréstimos foram para gastos básicos como comprar comida, pagar luz, gás, água. São montantes relativamente baixos, mas que se tornaram impagáveis devido a uma combinação explosiva de redução do salário, perda do emprego, aumento do custo de vida e taxas de juros estratosféricas.

No setor bancário, os juros vão de 55% a 172%, enquanto nas carteiras virtuais, sobem a 260%, mas há custos financeiros encobertos e elevam as taxas para 400%, 700% e até de 1.375%. A principal vilã para os juros exorbitantes é a Fintech argentina MercadoPago, que também atua no Brasil.

Nessas carteiras virtuais, com taxas consideradas excessivas, a inadimplência é de 31,5%. Nos sistemas de crédito dos supermercados, chega a 50%. Todos esses números são de créditos a pessoas físicas.

Quando se engloba os créditos às empresas, a inadimplência de todo o setor privado é de 7,6% do total, fazendo da Argentina o país com mais inadimplentes na América Latina. Como comparação, o Brasil tem 3,9%, um número alto, mas menos da metade da Argentina, segundo o Banco Mundial.

Protestos crescem 

Esses números revelam o desespero das pessoas, a preocupação do sistema bancário, a impossibilidade de reativar o consumo na Argentina e as taxas abusivas de bancos e de carteiras virtuais.

Por isso, nesta sexta-feira (21), às 15 horas, haverá um protesto no depósito de mercadorias da empresa MercadoLivre na cidade de La Matanza, na periferia de Buenos Aires. A empresa também financia as suas vendas com taxas como as do MercadoPago.

A manifestação é convocada por organizações políticas e movimentos sociais que identificam na empresa a prática de usura. As empresas já foram denunciadas na Justiça pelo Partido Obreiro.

"Apresentamos uma denúncia penal por possível crime de usura. A própria empresa informa taxas com um custo financeiro total de até 1.375,94% anual. Estamos falando de um mecanismo de endividamento que pode confiscar as receitas de trabalhadores e de famílias que recorrem ao crédito porque o salário não é suficiente", explicou o dirigente Gabriel Solano, autor da denúncia.

A Mercado Livre e a MercadoPago são empresas argentinas que atuam em toda a América Latina, inclusive no Brasil. O dono é Marcos Galperín, que se tornou a cara do problema ao cobrar taxas anuais mais de 40 vezes superiores à inflação do país que, embora seja alta, acumula 33,8% nos últimos doze meses.

Nesta quinta-feira (20), centrais sindicais e movimentos sociais foram até a Praça de Maio para pressionar o governo por uma solução. O protesto foi também contra o plano econômico do presidente Javier Milei, apontando como a origem do problema.

O alvo inicial da manifestação era o Ministério da Economia, ao lado da Casa Rosada, mas o governo colocou barreiras para impedir o protesto.

Na quarta-feira (19), o coletivo político Libres del Sur foi até a MercadoPago para expor a empresa líder das carteiras virtuais e o seu dono.

No protesto na Praça de Maio, Silvia Amarilla, de 46 anos, empregada doméstica desempregada, convocada pela Libres del Sur, explica à RFI que a família depende do baixo salário do marido, um trabalhador informal.

"Antes de o presidente Milei assumir o cargo, podíamos reformar a casa, podíamos comer, podíamos comprar roupa e sobrava para comprar um cachorro-quente para os meus filhos. Não sobrava muito, mas chegávamos ao final do mês. Agora, a renda só dura até o dia 12 de cada mês. Nossos três filhos menores de idade não entendem de dívida. Perguntam o que há para comer e, por mais que expliquemos a situação, continuam com fome", descreve Silvia.

Há um ano, Silvia pediu 200 mil pesos argentinos ao MercadoPago, o equivalente a 650 reais. Já pagou o equivalente ao capital inicial, mas ainda deve 400 mil pesos e acaba de se tornar inadimplente ao entrar no terceiro mês sem pagamento do crédito. Os 200 mil pesos originais se triplicaram e a dívida continua a subir.

"Provoca tristeza, raiva e muita frustração porque você vive o dia-a-dia sem saber se terá o suficiente para comer no dia seguinte", lamenta.

A família cortou o jantar como refeição diária, cortou elementos de higiene pessoal e de limpeza da casa.

"Suprimimos o jantar, a higiene pessoal e a da casa. É desesperador perder coisas necessárias", desabafa Silvia à RFI.

Carolina Daniel, de 33 anos, perdeu o emprego numa cooperativa há nove meses, quando passou a trabalhar como doméstica. O marido mantém o emprego, mas a renda é insuficiente para cobrir os gastos até final do mês.

"Para sobreviver, abrimos uma venda de comida na porta de casa e compramos um carrinho de cachorro-quente para vender na praça. Temos dois filhos. Tivemos de nos endividar para comprar alimentos e para pagar o colégio das crianças", conta Carolina à RFI.

Há um ano, Carolina pediu um milhão e meio de pesos, equivalentes a 500 reais. Hoje deve três milhões e meio de pesos e caiu na inadimplência. A dívida é com o Banco Patagonia, controlado pelo Banco do Brasil na Argentina.

"Queremos pagar as dívidas, que o salário aumente, que as tarifas de luz, gás e água diminuam e que o presidente preste atenção no bolso dos trabalhadores e não no negócio dos empresários", pede.

Silvia e Carolina esperam que o governo ajude a refinanciar as dívidas, aumentando prazos e contendo as taxas de juros. 

Governo, mero analista do mercado 

O governo mostra-se insensível ao problema que o próprio presidente Javier Milei gerou ao liberar as taxas de juros, que passaram a não ter teto. Salários dos servidores públicos e aposentadorias foram diluídos.

Os salários do setor privado, em geral, também perderam para a inflação.No ano passado, para conter uma corrida ao dólar, Milei subiu as taxas de juros de referência a 95%, mas, antes, para incentivar o crédito, disse que "o pior do ajuste fiscal já tinha passado" e que "o futuro seria melhor".

Confrontado com o problema, Milei disse que a inadimplência é um "problema entre privados" e que "ninguém colocou uma pistola na cabeça (dos devedores) para tomarem um crédito".

Já o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que "empatia não pode ser confundida com política pública" e "que taxas de juros de 400% ou de 700% são abusivas", mas "nada impede que sejam cobradas". Ou seja: o governo comenta a realidade como um mero espectador.

"Se o Estado sabe que milhões de trabalhadores estão endividados e que as carteiras virtuais concentram níveis de inadimplência superiores aos dos bancos, não pode lavar as mãos, permitindo que empresas como MercadoPago façam um negócio extraordinário com a necessidade das famílias", criticou Gabriel Solano.

A origem do endividamento pessoal 

Desde que Milei assumiu em dezembro de 2023, os salários registrados perderam para a inflação. No caso do setor privado, a média é de 6,5%, mas com perdas de até 12,6% em determinados setores. Para os funcionários públicos e aposentados, as perdas foram de 36,5%.

Mais de 20% dos funcionários públicos foram demitidos por Milei. São pessoas que ficaram sem renda formal.

O "salário disponível", ou seja, o montante que sobra depois de pagar as tarifas públicas, perdeu 20% do poder aquisitivo.

As tarifas de serviços públicos representavam 6% dos salários médios; hoje, representam 15%.

Uma pesquisa da consultora Zentrix indica que, para seis de cada dez argentinos, o salário termina antes do dia 20 de cada mês. São 61% que não passam do dia 20.

Outros 24,3% não chegam até o dia 30, totalizando mais de 85% da população, um número em linha com a quantidade de devedores totais do sistema.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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