Colômbia: Cali recebe posse histórica de De La Espriella sob forte esquema de segurança
Pela primeira vez na história da Colômbia, a cerimônia de posse do novo presidente do país será realizada fora de Bogotá. Abelardo De La Espriella afirma que a mudança simboliza seu projeto de descentralização, enquanto analistas a interpretam como uma demonstração de força política. A cerimônia, marcada para Cali, ocorrerá sob forte esquema de segurança e tendo como pano de fundo manifestações convocadas por opositores ao novo governo.
Pedro Pannunzio, especial de Cali para a RFI
Nesta sexta-feira (7), Abelardo De La Espriella, de extrema direita, filiado ao partido Defensores de La Patria, tomará posse como novo presidente da Colômbia, em uma cerimônia marcada por disputas com a oposição e embates institucionais. Pela primeira vez na história do país, o chefe do Executivo não celebrará as honrarias na capital Bogotá.
O evento será realizado em Cali, capital do departamento de Valle del Cauca, no sul do país. A posse contará com um reforçado aparato de segurança: mais de 11 mil agentes foram deslocados para a cidade, entre militares e policiais.
Mas não fosse o estrondo dos caças que cruzavam o céu da zona norte de Cali na tarde nesta quinta-feira (6), a presença das forças de segurança passaria quase despercebida nos dias que antecedem a posse, exceto em pontos estratégicos, como as imediações do Aeroporto Internacional Alfonso Bonilla Aragón e nos locais onde estão as delegações internacionais.
"Esses policiais não costumavam ficar aqui. Isso é novo", observou o motorista de táxi Luís Eduardo ao cruzar uma barreira policial, onde agentes empunhavam fuzis, em frente ao Hotel Intercontinental.
Representantes israelenses e presidentes de direita presentes
Entre as delegações que circulavam pelo Hotel Intercontinental nesta quinta-feira (6) estava a israelense. O corpo diplomático do país havia sido expulso da Colômbia por Gustavo Petro em 2025, um ano após o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países, na esteira dos ataques israelenses contra a Palestina.
Outra presença confirmada é a dos Estados Unidos, que, no ano passado, protagonizou embates com o governo Petro. Apoiador abertamente declarado de Abelardo De La Espriella, Donald Trump enviou Todd Blanche, procurador-geral interino, como principal representante da delegação norte-americana.
A posse também contará com a presença de governantes de direita e de extrema direita da região, em um encontro que evidencia o avanço desse campo político na América Latina e reforça a articulação entre seus principais líderes. Javier Milei, da Argentina, Daniel Noboa, do Equador, Santiago Peña, do Paraguai, José Antonio Kast, do Chile, e Nasry Asfura, de Honduras, são alguns dos chefes de Estado que marcarão presença na cerimônia.
O governo brasileiro será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Inicialmente, o presidente eleito pretendia tomar posse em uma base militar no departamento de Cauca, também no sul do país. Mas seu antecessor, Gustavo Petro, comandante em chefe das Forças Armadas até a conclusão da transição de governo, proibiu os militares de realizar a cerimônia. Além disso, De La Espriella enfrentava resistência no Congresso, que poderia rejeitar sua solicitação e impor a primeira derrota ao governo antes mesmo de sua posse.
O presidente eleito, então, recuou e transferiu a cerimônia para Cali. A posse será realizada na Universidad Santiago, um espaço civil. Oficialmente, De La Espriella, que governará até 2030, afirma que a decisão de retirar o evento de Bogotá simboliza seu projeto de descentralização do poder na Colômbia.
Analistas consultados pela RFI, no entanto, avaliam que a escolha de Cali representa uma tentativa de demonstração de força do novo presidente e, em certa medida, uma provocação. A cidade foi o epicentro da onda de protestos de 2021, que abriu caminho para a vitória de Gustavo Petro no ano seguinte, conquistando o posto de primeiro dirigente de esquerda da história do país. Além disso, no departamento de Valle del Cauca, o candidato governista Iván Cepeda derrotou De La Espriella com ampla vantagem.
Protestos marcados em Cali
Se, nos dias que antecedem a posse, Cali vive um clima de certa tranquilidade, o mesmo não deve ocorrer nesta sexta-feira, data da cerimônia presidencial. Além da imposição de uma lei seca e de restrições severas à circulação de veículos, os opositores prometem ir às ruas para protestar contra o novo presidente.
Há pelo menos duas manifestações marcadas. Uma delas, na parte da manhã, conta com o apoio de organizações sindicais e do próprio Ivan Cepeda, candidato derrotado. Também está prevista uma concentração nos arredores da Universidad Santiago de Cali, onde, às 15h no horário local (17h de Brasília), terá início a cerimônia de posse do novo chefe de Estado colombiano. No local, o aparato de segurança já foi reforçado.
Os protestos refletem a polarização que marca o país após a eleição presidencial. De La Espriella assumirá uma Colômbia dividida. No segundo turno, venceu por uma margem apertada: pouco mais de 250 mil votos o separaram do adversário Iván Cepeda, do Pacto Histórico. O agora ex-presidente Gustavo Petro questiona o resultado das urnas e afirma que houve fraude eleitoral.
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