Dois capacetes azuis da ONU morrem em emboscada no Sudão do Sul
Dois capacetes azuis da Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) foram mortos nesta segunda-feira (24) em uma emboscada armada por "indivíduos não identificados" contra uma patrulha no estado de Jonglei, na região central do país. A missão das Nações Unidas não informou a nacionalidade das vítimas.
Dois capacetes azuis da ONU morreram e vários ficaram feridos em uma emboscada no Sudão do Sul, em meio à intensificação dos combates entre forças do governo e da oposição. O ataque reflete a grave deterioração da segurança e da crise humanitária no país, que já soma dezenas de agentes humanitários mortos no ano. O aumento da violência amplia as incertezas e os riscos de novos conflitos generalizados antes das primeiras eleições nacionais, previstas para dezembro.
Há vários meses, os combates voltaram a se intensificar no Sudão do Sul entre as forças governamentais leais ao presidente Salva Kiir e milícias de oposição fiéis ao seu rival Riek Machar, ex-vice-presidente atualmente em prisão domiciliar. A violência é particularmente intensa em Jonglei.
Em comunicado, a UNMISS condenou "veementemente a emboscada". Além dos dois soldados mortos, várias pessoas ficaram feridas, incluindo três capacetes azuis, dois membros da polícia do Sudão do Sul e dois funcionários civis.
"Essa violência mortal contra o pessoal da UNMISS, que trabalha para promover a paz no Sudão do Sul, é inaceitável", afirmou Anita Kiki Gbeho, chefe da missão.
A UNMISS acrescentou que mobilizou uma força de reação rápida para proteger a área e apoiar as operações de emergência. A missão solicitou uma investigação rápida e lembrou que ataques contra capacetes azuis da ONU podem constituir crimes de guerra segundo o direito internacional.
Mais de 30 humanitários mortos desde o início do ano
Segundo a ONU, 36 trabalhadores do setor humanitário também foram mortos no Sudão do Sul desde o início de 2026.
A UNMISS conta com cerca de 12.200 integrantes, incluindo aproximadamente 9 mil militares e 1.200 policiais, de 74 países. Índia, Ruanda, Nepal, Bangladesh, Etiópia e China estão entre os principais países que fornecem tropas para a missão. O Brasil participa, mas mantém um contingente muito reduzido e estritamente estratégico na UNMISS.
De acordo com os últimos números disponíveis da ONU, mais de 160 integrantes morreram desde a criação da missão, em 8 de julho de 2011, na véspera da independência do Sudão do Sul, quando o país se separou do Sudão após décadas de conflito entre rebeldes do sul e o governo de Cartum.
País mais jovem do mundo
O país mais jovem do mundo mergulhou rapidamente em uma guerra civil em 2013, motivada pela disputa de poder entre Salva Kiir e Riek Machar, antigos aliados na luta pela independência.
Em 2018, um acordo encerrou a guerra, que deixou mais de 400 mil mortos. No entanto, os confrontos voltaram a ocorrer em diversas partes do país após a prisão de Machar em 2025.
O Sudão do Sul ocupa a última posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas e também é considerado um dos países mais corruptos do mundo segundo a organização Transparency International.
Primeiras eleições
O país realizará em 22 de dezembro suas primeiras eleições nacionais, diversas vezes prometidas e sucessivamente adiadas. Os eleitores deverão escolher o presidente da República, deputados, além dos governos e assembleias legislativas dos 10 estados e das três áreas administrativas que compõem o país.
Entretanto, a situação de segurança, somada a enormes desafios logísticos, torna a realização das eleições extremamente incerta em amplas regiões do território.
A Comissão de Direitos Humanos da ONU para o Sudão do Sul advertiu, em relatório publicado em meados de agosto, que essas eleições "podem se tornar um catalisador para novas violências, em vez de um mecanismo de transição democrática", ressaltando que o país atravessa "um dos períodos mais perigosos" desde o fim da guerra civil de 2013 a 2018.
Segundo a comissão, "a deterioração da situação política, de segurança, humanitária e dos direitos humanos cria um sério risco de retomada de violência em larga escala e da ocorrência de atrocidades, à medida que divisões políticas e abusos relacionados ao conflito ressurgem".
A situação humanitária também é considerada catastrófica: 10 dos 12,2 milhões de habitantes do Sudão do Sul necessitam de assistência humanitária, e mais de 7 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda, de acordo com a ONU.
Com agências
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