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África do Sul vive ascensão de movimentos anti-imigração antes das eleições locais

Milhares de sul-africanos marcharam em várias das principais cidades do país na terça-feira (30) para protestar contra a imigração ilegal, em cidades como Joanesburgo, Pretória e Durban. A África do Sul vive uma nova onda de violência xenófoba contra migrantes africanos — estejam eles em situação regular ou irregular —, que culminou no ultimato de 30 de junho, lançado por diferentes organizações anti-imigração, exigindo que estrangeiros sem documentação deixem o país.

1 jul 2026 - 11h51
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Alexandra Brangeon, da RFI

Integrantes do regimento Zulu participam da passeata do movimento "March and March", em Durban, em 30 de junho de 2026.
Integrantes do regimento Zulu participam da passeata do movimento "March and March", em Durban, em 30 de junho de 2026.
Foto: AFP - MARCO LONGARI / RFI

Há mais de vinte anos, a África do Sul enfrenta episódios recorrentes de violência xenófoba. O mais letal ocorreu em 2008, quando cerca de 60 pessoas morreram. Desta vez, porém, os movimentos são muito mais estruturados e organizados.

Entre as principais organizações que convocam manifestações contra estrangeiros está a Operation Dudula, um movimento da sociedade civil surgido em Soweto entre 2021 e 2022. O grupo ganhou notoriedade em 2025 ao impedir o acesso de estrangeiros a hospitais e escolas públicas. Seus integrantes, frequentemente vestidos com uniformes paramilitares, passaram a expulsar pessoas consideradas "estrangeiras" de serviços públicos.

O movimento, fortemente urbano, era visto como próximo do ex-prefeito de Joanesburgo, Herman Mashaba, que, durante seu mandato, prometia "limpar" a cidade de imigrantes ilegais. Atualmente liderada por Zandile Dabula, a Operation Dudula transformou-se em um partido político.

Outra organização que ganhou destaque nos últimos meses é a March and March ("Marchar e Marchar"), hoje considerada a principal força por trás dos protestos anti-imigrantes. Sua líder é a ex-apresentadora de rádio Jacinta Ngobese Zuma, originária da província de KwaZulu-Natal, onde o movimento começou antes de ganhar alcance nacional.

Diversos partidos políticos aderiram às manifestações, entre eles o MK Party, fundado pelo ex-presidente Jacob Zuma. Segundo vários pesquisadores, Zuma apoia politicamente e provavelmente financia o March and March.

Outra figura importante desse movimento é Nkosikhona Ndabandaba, que se apresenta como um chefe tradicional zulu. Ele afirma comandar um "regimento zulu" disposto a "limpar" o centro histórico da monarquia zulu e costuma participar das manifestações vestido com trajes tradicionais de guerreiro.

Discurso contra estrangeiros

Oficialmente, esses grupos afirmam lutar apenas contra a imigração ilegal e exigem que o governo expulse imigrantes sem documentos.

A África do Sul tem cerca de 60 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 3 milhões são estrangeiros, principalmente provenientes de países vizinhos da África Austral, como Zimbábue, Moçambique e Maláui.

O problema, segundo a pesquisadora Cécile Perrot, da Universidade Rennes II, é que o número de imigrantes irregulares se tornou alvo de especulações.

"Por definição, esses números são incertos. Há estimativas que variam entre 4 milhões e 15 milhões de pessoas. Espalhou-se a ideia de que esses migrantes 'roubam empregos' e se beneficiam de um sistema de proteção social desenvolvido às custas dos sul-africanos", afirma.

Na prática, porém, a violência atinge todos os estrangeiros, independentemente de sua situação migratória. "As agressões atingem todos os migrantes, qualquer que seja seu status", destaca Perrot.

Ela também afirma que não há evidências de que os migrantes retirem empregos dos sul-africanos. "Na maioria dos casos, eles trabalham em pequenos comércios ou em atividades de serviços pessoais, como limpeza doméstica."

Financiamento e ambições políticas

As organizações anti-imigrantes são altamente estruturadas e dispõem de recursos financeiros significativos. Promovem coletivas de imprensa, participam de programas de televisão, produzem camisetas e transportam manifestantes em ônibus.

Embora oficialmente afirmem financiar suas atividades por meio de doações — o site da March and March, por exemplo, solicita contribuições —, a origem dos recursos permanece pouco transparente.

Segundo Loren Landau, pesquisador da Universidade de Witwatersrand (Wits), em Joanesburgo, os gastos dessas organizações demonstram que elas não são simples movimentos populares. "Há claramente financiamento externo, vindo de indivíduos, políticos e partidos políticos", afirma.

Entre os partidos que, em algum momento, apoiaram as manifestações, estão o ActionSA, de Herman Mashaba; o Umkhonto we Sizwe (MK), de Jacob Zuma; e o Inkatha Freedom Party, liderado por Velenkosini Hlabisa. Pesquisadores acreditam que essas legendas também forneçam apoio financeiro aos movimentos.

Instrumentalização política

Para Loren Landau, a violência xenófoba na África do Sul nunca foi espontânea. "No passado, esses movimentos sempre eram organizados localmente por líderes comunitários ou políticos que buscavam ampliar seu poder. O que vemos agora é o mesmo fenômeno, mas em escala nacional."

Segundo ele, algumas lideranças utilizam a retórica anti-imigração e a violência para conquistar influência política. Os pesquisadores acreditam que esses movimentos seguem uma estratégia eleitoral.

"Quando falam em restaurar a ordem ou expulsar imigrantes ilegais dos townships, seu verdadeiro objetivo é se posicionar antes das eleições municipais de novembro", explica Landau.

"Eles não apresentam soluções concretas. Procuram pressionar o governo, demonstrando capacidade de mobilizar grandes multidões, esperando receber espaço ou concessões políticas."

A pesquisadora Liesl Low Vaudran concorda. "Na África do Sul, é muito fácil mobilizar pessoas em torno da questão da imigração para construir um movimento político", afirma.

As manifestações ocorrem alguns meses antes das eleições municipais previstas para novembro de 2026, aumentando as preocupações de que o discurso anti-imigração esteja sendo explorado como instrumento de campanha política.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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