Nova suspeita de corrupção atinge extrema direita francesa e ameaça herdeiro político de Marine Le Pen
Depois de Marine Le Pen, um novo escândalo de corrupção atinge a extrema direita na França. Desta vez, Jordan Bardella, apontado como possível candidato do Reunião Nacional (RN) à presidência, está no centro de uma investigação sobre o uso indevido de milhões de euros em recursos públicos europeus.Aos 30 anos, ele é visto como o sucessor natural de Le Pen para a eleição de 2027, caso a líder da legenda tenha sua inelegibilidade confirmada pela Justiça.
A Procuradoria Europeia (EPPO), órgão independente responsável por investigar fraudes envolvendo recursos da União Europeia, apura suspeitas de uso indevido de mais de € 4,3 milhões (cerca de R$ 25,4 milhões) entre 2019 e 2024 pelo antigo grupo Identidade e Democracia (ID). A bancada reunia partidos de extrema direita no Parlamento Europeu, como o Reunião Nacional (RN) e a Liga, do italiano Matteo Salvini.
A investigação foi aberta após um relatório da Diretoria de Assuntos Financeiros do Parlamento Europeu. Criado em 2019 por 73 eurodeputados, entre eles os 22 representantes do RN à época, o grupo ID foi dissolvido após as eleições europeias de 2024 e está sob investigação desde o ano passado.
Na terça-feira (30), foram realizadas buscas em diversos países europeus, entre eles França, Espanha, Itália e Bélgica, como parte das diligências conduzidas pela Procuradoria Europeia.
Jordan Bardella, presidente do RN, confirmou na rede social X que as buscas estavam sendo realizadas em escritórios e residências de prestadores de serviços de comunicação que trabalharam com o partido.
Embora o partido de extrema direita francês não tenha ocupado a presidência nem a secretaria-geral do grupo ID durante o período legislativo investigado, a maior parte dos recursos teria sido destinada a duas empresas ligadas a pessoas próximas de Marine Le Pen: seu ex-assessor Frédéric Chatillon e a esposa dele, Sighild Blanc. A informação consta em um documento obtido pela imprensa.
Empresas investigadas
As empresas envolvidas são as agências de comunicação e-Politic e Unanime. A primeira recebeu mais de € 2 milhões (R$ 11,8 milhões), segundo o jornal Le Monde. Os pagamentos destinavam-se principalmente a despesas de comunicação.
De acordo com a legislação vigente à época, o financiamento de partidos políticos europeus por meio do orçamento geral da União Europeia era estritamente proibido. Os recursos europeus deveriam ser reservados exclusivamente para atividades ligadas ao funcionamento dos partidos no âmbito da UE. As autoridades judiciais europeias buscam determinar se os valores pagos pelo grupo ID respeitaram essas regras.
Em caso de comprovação das irregularidades, as autoridades europeias poderão impor sanções financeiras ao partido envolvido e exigir a devolução dos recursos utilizados de forma indevida. Em determinadas circunstâncias, uma legenda também pode ser impedida de receber novos financiamentos da União Europeia por um período de cinco a dez anos.
"Perseguição"
Assim como em casos anteriores, o Reunião Nacional afirma ser alvo do sistema de justiça europeu. "Como sempre, os processos judiciais seguem o calendário eleitoral", escreveu Jordan Bardella no X, a apenas dez meses da eleição presidencial na França.
"Não temos nada a nos reprovar e vamos provar isso", declarou o líder do partido de extrema direita, que continua liderando as pesquisas de intenção de voto para a disputa presidencial de 2027.
Quando a investigação sobre o grupo ID foi anunciada, em 2025, Bardella já havia denunciado o que classificou como "mais uma campanha de assédio por parte da administração do Parlamento Europeu". "Acredito que ninguém se deixa enganar por esse tipo de operação", acrescentou.
Outras denúncias contra Bardella
Outra investigação conduzida pela Procuradoria Europeia envolvendo Jordan Bardella veio à tona em maio deste ano. Após uma reportagem publicada pelo jornal satírico Le Canard Enchaîné, uma associação anticorrupção denunciou o RN por supostamente utilizar recursos europeus para financiar sessões de media training destinadas a seus dirigentes, incluindo Bardella. O objetivo seria preparar integrantes do partido para aparições na mídia antes da eleição presidencial de 2022.
Na época, o atual eurodeputado exercia interinamente a presidência do partido e desempenhava um papel central na campanha presidencial de Marine Le Pen.
Outra associação também apresentou denúncia contra Bardella por suspeitas de envolvimento em um suposto esquema de empregos fantasma financiados com recursos do Parlamento Europeu. O caso se refere a um período de quatro meses e meio, em 2015, quando ele atuou como assistente parlamentar do eurodeputado Jean‑François Jalkh.
Essa entidade (Anticor) solicita a abertura de uma investigação sobre possíveis falsificações em documentos apresentados por Bardella e pessoas próximas a ele para comprovar a realização das atividades profissionais declaradas.
Nesse caso, trata-se de um desdobramento da ampla investigação sobre os assistentes parlamentares europeus da antiga Frente Nacional (FN), principal desafio jurídico enfrentado pelo partido, que posteriormente passou a se chamar Reunião Nacional.
O Tribunal de Apelação de Paris deve decidir em 7 de julho se mantém a pena que torna Marine Le Pen inelegível por cinco anos para o exercício de cargos públicos no âmbito desse processo. A decisão poderá influenciar diretamente a escolha do candidato do RN à presidência. Caso a inelegibilidade seja mantida, Jordan Bardella deverá assumir a candidatura do partido à eleição presidencial de 2027, que será realizada em 18 de abril e 2 de maio de 2027, conforme anunciou na terça-feira a porta-voz do governo, Maud Brégeon.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.