Muito mais que OnlyFans: a engrenagem digital que lucra com a intimidade das jovens
Pesquisa analisa o ecossistema digital que possibilita a mercantilização da intimidade e examina como plataformas, algoritmos e intermediários estão transformando a sexualidade e as relações de gênero
A expansão das plataformas digitais transformou profundamente as formas de produção, circulação e comercialização da sexualidade, do corpo e da intimidade nas sociedades contemporâneas.
Nesse cenário, a juventude ocupa uma posição central. As gerações mais jovens não são apenas grandes consumidoras de conteúdos digitais, mas também produtoras, em um ambiente em que a visibilidade, a validação social e a construção da identidade estão intimamente ligadas à exposição nas redes sociais.
O desenvolvimento de economias digitais baseadas na atenção, na imagem, no corpo e no desejo abriu novas possibilidades de monetização, mas também trouxe desafios significativos em relação à violência digital, à proteção de menores e ao uso dos ambientes digitais.
Tudo isso deve ser entendido como parte de uma nova e complexa cultura sexual pública que, somada ao modelo econômico atual — baseado na precariedade, na ultraflexibilidade e no empreendedorismo individual —, resulta em um emaranhado muito mais complexo.
Como consequência, falamos da monetização da sexualidade, do desejo ou das relações afetivas.
O ecossistema que sustenta o fenômeno
O OnlyFans é talvez a plataforma que melhor representa esse fenômeno. Por esse motivo, realizamos a pesquisa "A monetização da intimidade: Juventude, plataformas e economia sexual no OnlyFans" (La monetización de la intimidad: Juventud, plataformas y economía sexual en OnlyFans, no original em espanhol, um dos estudos mais completos realizados até o momento sobre o funcionamento da indústria digital de conteúdo sexual e seus efeitos sobre mulheres jovens, adolescentes e menores de idade.
Nossa principal conclusão é que esse fenômeno só pode ser compreendido e abordado a partir do ecossistema digital que o sustenta, e não a partir de uma única plataforma. O conceito de ecossistema digital refere-se ao conjunto de plataformas, aplicativos e serviços que interagem entre si para sustentar essa indústria.
O OnlyFans não constitui, portanto, a origem desse fenômeno, mas sim sua expressão mais visível. Ele concentra e torna visíveis dinâmicas que já estavam presentes na sociedade: a monetização da atenção, a sexualização do corpo feminino, a precarização juvenil e a transformação da intimidade em um ativo econômico. Portanto, é a ponta de um iceberg muito mais amplo, no qual convergem dinâmicas culturais, tecnológicas, econômicas e de gênero.
Sua consolidação responde a diversos fatores. Por um lado, é efeito da cultura e dos discursos neoliberais: as narrativas do "empreendedorismo", da "liberdade" ou do "empoderamento individual", que associam o sucesso à capacidade individual de monetizar.
Por outro lado, ela se alimenta das desigualdades estruturais de gênero que continuam a situar o corpo das mulheres como objeto de consumo, reproduzindo dinâmicas de objetificação, hipersexualização e misoginia que encontram novas formas de expressão nos ambientes digitais.
Sexualizar para maximizar a visibilidade
Além disso, esse ecossistema se sustenta em arquiteturas digitais e sistemas algorítmicos que recompensam a atenção, a interação e o tempo de permanência. Tais dinâmicas favorecem a circulação de conteúdos cada vez mais sexualizados como estratégia para maximizar a visibilidade.
O ecossistema aproveita plataformas que, originalmente, não foram projetadas para a comercialização de conteúdo sexual — como Instagram, TikTok, X ou Reddit — para que se tornem úteis para esse fim. Captar público, construir comunidades, direcionar tráfego ou facilitar a divulgação de conteúdo são algumas das funções que o sustentam.
Cada uma cumpre uma função distinta dentro da cadeia de valor. Enquanto as redes sociais generalistas permitem captar público e construir uma identidade digital, plataformas como o Reddit facilitam a divulgação e a descoberta de conteúdo, os agregadores indexam perfis e as plataformas de assinatura monetizam o relacionamento com os consumidores.
De fato, uma das principais conclusões da pesquisa é que a exposição a essas dinâmicas não começa em plataformas de conteúdo adulto, mas nas redes sociais de uso cotidiano, onde a sexualização, a recomendação algorítmica e as estratégias de captação fazem parte do funcionamento comum do ecossistema digital.
Além disso, existe toda uma indústria na qual três atores desempenham um papel muito importante na normalização e profissionalização desse mercado.
O falso discurso do empreendedorismo e do empoderamento
Em primeiro lugar, temos as agências de representação que, por meio de diversas estratégias, recrutam jovens mulheres para criar conteúdo. Ao lado delas, os "gurus" da internet se apresentam como especialistas que sabem como a plataforma funciona e supostamente ensinam a ganhar dinheiro com ela.
Ambos constroem um discurso baseado no empreendedorismo, na liberdade financeira e no sucesso individual, minimizando os riscos, as formas de violência e as condições de precariedade que caracterizam essa atividade.
E, em terceiro lugar, os administradores das contas, que normalmente vêm de países com menos recursos e se encarregam de simular a voz e a personalidade da conta em questão, responder mensagens e tentar vender mais conteúdo.
Em conjunto, esses elementos contribuem para consolidar um modelo econômico que normaliza e rentabiliza a exposição da intimidade, tornando o OnlyFans apenas a manifestação mais visível de um fenômeno muito mais profundo e estrutural. Nenhum desses elementos opera de forma isolada: cada um desempenha uma função específica dentro de uma mesma cadeia de valor.
Essa perspectiva exige repensar a abordagem das políticas públicas. Se o problema for interpretado apenas como uma questão ligada a um espaço digital específico (como o OnlyFans), muitas das dinâmicas e estruturas que possibilitam seu funcionamento permanecem intactas.
A resposta passa pela intervenção em todo o ecossistema: as arquiteturas digitais, os modelos de recomendação, as estratégias comerciais de captação, a alfabetização digital e as desigualdades estruturais que sustentam a mercantilização da intimidade e do corpo, especialmente das jovens.
A pesquisa foi realizada pela Fundação Child Heroes e financiada pelo Ministério da Igualdade da Espanha. Nacho é atualmente pesquisador da Fundação Child Heroes.
A pesquisa, realizada pela Fundação Child Heroes, foi financiada pelo Ministério da Igualdade da Espanha. Camila González integrou a equipe de pesquisa como integrante da Fundação Child Heroes.
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