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Muito além do Carnaval: o que as multidões e o caos que tomaram as ruas em 2026 revelam sobre o 'DNA social'

Atmosfera social é a experiência sensorial coletiva que surge quando milhões de pessoas se reúnem no mesmo espaço e momento. Mas a quantidade inédita de gente nas ruas em 2026 evidenciou que o Carnaval se converteu em um teste de governança urbana.

26 fev 2026 - 07h45
(atualizado às 08h03)
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Presentes em festas de réveillon, romarias como o Círio de Nazaré e, sobretudo, no Carnaval, as multidões fazem parte do calendário e do imaginário cultural brasileiro. Mais do que em outros países, aqui as multidões ganham relevância pela dimensão, intensidade e por serem expressões recorrentes de uma sociabilidade historicamente construída.

No Carnaval de 2026, esse fenômeno atingiu proporções inéditas, com estimativas de mais de 65 milhões de foliões nas ruas em todo o Brasil, um crescimento fortemente impulsionado pela expansão dos blocos de rua e pelo aumento do turismo internacional.

A quantidade inédita de gente nas ruas em 2026 evidencia também que o Carnaval se converteu em um teste de governança urbana. Quando há má gestão e menos investimento, surgem consequências concretas, como a falta de banheiros químicos, aumento do lixo nas ruas, dificuldades para organizar trajetos seguros e maior sobrecarga para voluntários.

Em São Paulo, por exemplo, houve superlotação em megablocos por falhas de logística, fiscalização e infraestrutura, reacendendo a discussão sobre o papel da gestão municipal na coordenação do evento e os [impactos da terceirização] recente dessa responsabilidade. Na capital paulista, a falta de planejamento levou à permissão de blocos simultâneos em itinerários que se chocavam e resultou em sério risco de vida para os foliões.

Cidades como Salvador e Belo Horizonte registraram problemas de infraestrutura, com proporções consideradas insuficientes de banheiros químicos diante do público estimado — em alguns casos, chegando a 1 equipamento para cerca de 2 mil foliões.

Por mais espontâneas que pareçam, multidões são complexas. Grandes concentrações exigem infraestrutura, segurança, limpeza urbana e planejamento público adequados para evitar impactos negativos e preservar a alegria do momento. O desafio aos organismos públicos é alinhar responsabilidades, a fim de garantir segurança, organização e conforto em situações dessa magnitude — que tendem a se tornar cada vez mais frequentes. Nossos estudos procuram compreender os efeitos positivos e negativos dessas situações e como organizá-las de forma mais eficaz.

Abram alas para as multidões

Como sugere o antropólogo Roberto Da Matta, rituais coletivos como o Carnaval dramatizam tensões estruturais da sociedade brasileira, transformando a rua em espaço de intimidade pública. Nesse sentido, essas multidões podem ser compreendidas como parte do "DNA social" brasileiro: momentos em que a identidade nacional se atualiza por meio do encontro, da emoção compartilhada e da ocupação coletiva do espaço.

As multidões do Carnaval, portanto, não surgem por acaso e persistem apesar dos empecilhos. Um fator que interfere no fenômeno das multidões é o próprio espaço urbano. As cidades brasileiras, especialmente as capitais, possuem ruas abertas, praças amplas e áreas públicas que favorecem esses encontros coletivos, mas o Carnaval também acontece mesmo nas ruelas mais estreitas e nas ladeiras mais íngremes de Olinda, Rio de Janeiro ou São Paulo. Diferentemente de contextos em que o lazer ocorre majoritariamente em ambientes privados, no Brasil a rua continua sendo um lugar central de sociabilidade.

Outro fator essencial é a dinâmica dos blocos de rua. Eles operam com uma lógica descentralizada e participativa. Muitas vezes organizados por moradores, artistas ou coletivos culturais, os blocos não exigem ingresso nem barreiras físicas. Qualquer pessoa pode chegar, permanecer o tempo que quiser e participar da festa. Essa abertura facilita a formação rápida de grandes multidões e reforça o caráter democrático do Carnaval.

O resultado é um tipo de multidão muito particular: ao mesmo tempo espontânea e organizada, intensa e relativamente pacífica, caótica na aparência, mas sustentada por regras informais compartilhadas pelos participantes.

A criação de atmosferas sociais

As experiências coletivas das multidões são capazes de criar as chamadas atmosferas sociais. Em termos simples, a atmosfera social é o clima emocional que surge quando milhões de pessoas se reúnem no mesmo espaço e momento. No Carnaval, essa atmosfera é intensa: música, cores, corpos em movimento, o som da multidão e a sensação de liberdade — inclusive com o uso de álcool — criam uma experiência sensorial coletiva. Não se trata de diversão isolada, mas de uma energia compartilhada que amplia emoções e reforça conexões entre desconhecidos. Todos os participantes parecem prestar atenção no mesmo ponto de interesse - por exemplo, uma música, um trio, um artista - e começam a sincronizar os seus movimentos, gerando uma espécie de energia compartilhada que culmina na catarse coletiva.

A atmosfera social do carnaval ajuda a explicar por que tantas pessoas relatam sentimentos de alegria, pertencimento e até transformação pessoal durante a festa. Ela também revela como multidões podem gerar valor social, criando memórias, fortalecendo vínculos entre participantes e estimulando a criatividade cultural.

Efeitos sociais e econômicos das multidões

As multidões carnavalescas produzem impactos que vão muito além do entretenimento. Do ponto de vista econômico, o Carnaval movimenta cadeias produtivas inteiras. Pequenos comerciantes, vendedores ambulantes, costureiras, músicos, técnicos de som e trabalhadores informais encontram na festa uma importante fonte de renda.

Em muitos bairros, especialmente nas periferias, a organização de blocos gera empregos temporários e fortalece redes locais de cooperação. A preparação envolve meses de trabalho: ensaios, arrecadação de recursos, criação de fantasias, planejamento de trajetos e negociação com autoridades municipais.

Há também impactos sociais menos visíveis, mas igualmente relevantes. O Carnaval cria oportunidades de convivência entre pessoas de diferentes origens, classes sociais e faixas etárias. Ele promove um sentimento de pertencimento coletivo e reforça identidades locais.

Para muitos moradores, o bloco do bairro não é apenas um evento anual. É um símbolo de continuidade, memória e orgulho comunitário.

Quando o investimento diminui, os custos aparecem

Nos últimos anos, algumas cidades brasileiras têm reduzido investimentos no Carnaval de rua. São Paulo é um exemplo frequentemente citado por organizadores de blocos e foliões. Cortes em recursos públicos destinados à logística, segurança, apoio técnico e infraestrutura têm gerado desafios crescentes.

A redução de investimentos é uma decisão equivocada se analisarmos os dados de retorno econômico dessas atmosferas sociais. No Brasil, cada real investido em cultura pode render R$ 7,59 para sociedade por meio de empregos e renda, o que representa um impacto maior do que investimentos em setores como o de automóveis (com impacto multiplicador de R$ 3,76).

A redução de investimentos em eventos coletivos pode ainda gerar perdas culturais e sociais difíceis de recuperar. Essa situação não apenas prejudica a qualidade da experiência para os foliões, mas ameaça a sustentabilidade do Carnaval de rua. Em muitos casos, os próprios blocos precisam arcar com custos antes compartilhados com o poder público ou patrocinadores. Sem apoio consistente, blocos menores — especialmente aqueles localizados em bairros periféricos — enfrentam maior risco de desaparecer.

Uma identidade coletiva que precisa ser cuidada

As atmosferas sociais que as multidões criam são as expressões mais visíveis da capacidade brasileira de criar e sustentar experiências coletivas intensas. Elas são provas de como multidões podem produzir valor coletivo, fortalecer comunidades e impulsionar economias locais. Nas redes sociais, as multidões reforçam a imagem do Brasil no exterior como um país que sabe viver e se alegrar, mesmo diante dos problemas.

Muito mais do que uma festa, o Carnaval é patrimônio cultural vivo que reflete a diversidade, a criatividade e a sociabilidade do país. Preservar essa tradição exige reconhecer sua importância estratégica. Isso implica garantir investimentos públicos adequados, minimizar impactos, estimular parcerias privadas responsáveis e valorizar o trabalho das milhares de pessoas que tornam a festa possível.

Em essência, cuidar das multidões é preservar um patrimônio imaterial que vai além do espetáculo. É proteger a vocação brasileira de ocupar a rua, compartilhar espaços e transformar encontros coletivos em experiências de alegria, pertencimento e identidade comum — um legado que se renova a cada celebração e integra a cultura do país.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Flavia Cardoso recebeu financiamento do Governo do Chile (Fondecyt) e da Fundação Luksic.

Daiane Scaraboto e Jannsen Santana não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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