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Moeda alternativa vira arma climática na Alemanha

4 jun 2026 - 10h36
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Um experimento em sala de aula saiu do controle e criou microssistema financeiro na Bavária. Hoje, moeda própria recompensa ações em favor do meio ambiente e da economia local.Quem entra numa padaria ou livraria da região de Chiemgau, na Baviera, se depara com um cliente pagando com o que parece ser dinheiro de brincadeira. São cédulas coloridas, estampadas com gafanhotos, joaninhas e outros insetos, que nada se parecem com o euro, a moeda adotada na Alemanha.

Chiemgauer foi inventado por professor e alunos antes de, pouco a pouco, gerar um microssistema financeiro
Chiemgauer foi inventado por professor e alunos antes de, pouco a pouco, gerar um microssistema financeiro
Foto: DW / Deutsche Welle

"Estimamos que de 10% a 15% dos clientes paguem dessa forma", contou um livreiro à DW.

Os moradores chamam a moeda, criada pela própria comunidade, de "Chiemgauer". Ela sustenta um microssistema financeiro que funciona há mais de duas décadas - e recentemente evoluiu para se tornar uma ferramenta de redução de emissões de carbono num pitoresco canto do sudeste alemão.

Experimento em sala de aula saiu do controle

O Chiemgauer nasceu em 2003 em uma escola de ensino médio local, quando o professor de economia Christian Gelleri e um grupo de estudantes buscavam uma forma de apoiar comerciantes locais que estavam perdendo clientes para shopping centers e grandes redes.

A solução foi inventar uma moeda, pensada para manter o dinheiro circulando dentro da região. Eles a imprimiram e colocaram-na em circulação. Pouco a pouco, moradores passaram a usá-la e lojas começaram a aceitá-la.

"Cinco milhões de Chiemgauers são gastos anualmente hoje", afirma Gelleri, que ainda preside a associação que administra a moeda.

Em seu escritório na cidade de Traunstein, nos contrafortes alpinos, ele abre o cofre do grupo e revela pilhas espessas de cédulas. Um euro equivale a um Chiemgauer. "São mais de 200 mil Chiemgauers, com o mesmo valor em euros", acrescenta, orgulhoso.

As notas agora são produzidas por uma empresa profissional, contam com marcas d'água e são protegidas por recursos de segurança contra falsificação.

Pela legislação alemã, imprimir e usar dinheiro que não seja o euro pode ser crime. Mas, como o Chiemgauer é restrito à região e utilizado por apenas cerca de 4,2 mil pessoas e 300 empresas, o banco central alemão, Deutsche Bundesbank, o tolera. Quem deseja usar a moeda precisa se registrar na associação Chiemgauer.

Um pequeno truque mantém a circulação

Um passeio pelas lojas de Traunstein, com suas fachadas coloridas, ajuda a entender como o sistema funciona. Em uma loja, um cliente paga queijo e embutidos com uma nota de 50 Chiemgauers. "Tenho uma loja de alimentos orgânicos e uso parte do que ganho em Chiemgauers para minhas próprias compras", conta ele à DW.

O mesmo acontece com uma vendedora de iguarias mediterrâneas numa banca de mercado. "Usamos os Chiemgauers que recebemos para pagar o fornecedor de onde compramos os ingredientes frescos", explica.

O dinheiro circula, seja em espécie ou de forma eletrônica, por meio de um cartão especial que funciona com contas bancárias convencionais.Para manter uma nota válida e o Chiemgauer em circulação, os usuários precisam comprar um pequeno selo a cada seis meses. O selo para uma nota de 10 Chiemgauers custa cerca de 0,30 euro, por exemplo. Após três anos, as cédulas expiram.

Usuários privados não podem converter Chiemgauers em euros. Empresas podem fazê-lo, mas pagam uma taxa de 5%. Esse valor financia a operação da moeda e apoia organizações locais sem fins lucrativos.

Recompensa por ação ambiental

Nos últimos anos, Gelleri e os organizadores do Chiemgauer introduziram uma dimensão ambiental à moeda. Moradores agora podem ganhar Chiemgauers de bônus ao fazer escolhas favoráveis ao clima - como consertar jeans em vez de comprar novos, usar serviços de compartilhamento de carros ou isolar casas com materiais naturais. Essas ações rendem bônus que variam de um a 200 Chiemgauers.

"O dono deste conjunto de painéis solares ganhou 100 Chiemgauers", diz Gelleri, apontando para dois painéis instalados em um quintal em Traunstein. "Em 20 anos, esse sistema de energia para varanda vai economizar 11 toneladas de dióxido de carbono (CO2)."

Moradores e empresas locais financiam as recompensas contribuindo para um fundo coletivo para compensar suas emissões - uma espécie de minissistema de comércio de emissões. Para cada tonelada de carbono compensada pelo fundo, nove toneladas são economizadas por meio dos comportamentos sustentáveis que ele incentiva.

Esquemas semelhantes de bônus climáticos se espalharam da Baviera para mais quatro regiões da Alemanha. Nos últimos quatro anos, eles economizaram 12,8 toneladas de CO2 - o equivalente às emissões de cerca de 2 mil carros alemães no mesmo período, segundo auditorias independentes da TÜV Nord.

Moedas alternativas no mundo

O Chiemgauer está longe de ser único. Cerca de 300 "moedas complementares", assim chamadas por funcionarem ao lado da moeda oficial de um país, existem em todo o mundo. A maioria está concentrada na Europa e no Brasil, com foco na promoção da economia local e do bem-estar social. Como efeito colateral, elas também reduzem emissões relacionadas ao transporte.

"As moedas incentivam o consumo local, o que encurta as cadeias de suprimento, já que os comerciantes compram produtos produzidos localmente", afirma Ester Barinaga, pesquisadora de moedas complementares na Universidade de Lund, na Suécia. Segundo o MIT e a Agência Internacional de Energia, o transporte de cargas responde por 8% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Algumas dessas moedas são criadas especificamente para estimular comportamentos ambientalmente responsáveis. Na cidade espanhola de Viladecans, por exemplo, o "Vilawatt" recompensa moradores por economizar energia. Já na Indonésia, nas Filipinas e em outros países, os chamados tokens do "Plastic Bank" são oferecidos a quem recolhe e entrega garrafas plásticas para reciclagem.

"O dinheiro pode ser desenhado", acrescenta Barinaga. "Se o dinheiro é criado para recompensar comportamentos pró-ambientais, então mais pessoas vão se comportar de forma pró-ambiental."

Ainda assim, todas essas moedas têm limites, e o Chiemgauer não é exceção. Roupas, eletrônicos e a maioria dos bens manufaturados continuam sendo produzidos no exterior e importados. Menos de 1% da população da região participa do sistema. E, se ele crescesse muito, o banco central alemão poderia intervir para regulá-lo.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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