Mobilização de recursos para a Ciência: curso na USP busca desenvolver essa competência nas universidades
O Brasil reúne condições para desenvolver uma cultura de doação para a Ciência e a inovação, como já ocorre em diferentes partes do mundo. Para isso, é preciso aproximar o meio acadêmico da filantropia, profissionalizar a captação de recursos e produzir conhecimento sobre essa relação
A USP lançou um curso pioneiro para capacitar a comunidade acadêmica na captação de recursos filantrópicos, visando financiar pesquisas inovadoras e de longo prazo. A iniciativa busca profissionalizar a relação com doadores e diversificar o financiamento científico como complemento aos recursos públicos, preservando a autonomia universitária. O objetivo é superar a barreira da falta de pedidos de doação no Brasil e consolidar uma cultura institucional de sustentabilidade para a ciência nacional.
A Ciência avança quando encontra condições para experimentar, assumir riscos e investir em perguntas cujas respostas nem sempre são imediatas. Nesse processo, a filantropia desempenha um papel estratégico ao ampliar as possibilidades de financiamento de pesquisas de fronteira, projetos de longo prazo e iniciativas inovadoras de elevado impacto científico e social.
Por essa perspectiva, o Brasil reúne condições para desenvolver uma cultura de doação para a ciência e a inovação, como já ocorre em diferentes partes do mundo. Para isso, é preciso aproximar o meio acadêmico da filantropia, profissionalizar a captação de recursos e produzir conhecimento sobre essa relação.
É a partir dessa realidade que a Universidade de São Paulo realiza, de modo pioneiro, até 2 de outubro de 2026, o curso "Mobilização de Recursos para a Universidade e Desenvolvimento de Relações Institucionais"
A iniciativa foi idealizada pelo Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema Filantropia). Em caráter piloto, o curso acontece no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) e tem apoio da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS) e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU).
Não por acaso, o Gema Filantropia conta com a parceria estratégica da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR, que agrega sua experiência acumulada em 25 anos de atuação nesse campo.
Ao longo do curso, os os 60 participantes, indicados pelos dirigentes das unidades, institutos, museus e órgãos da Universidade, desenvolvem um projeto de captação voltado às suas necessidades. Eles serão apresentados e debatidos por especialistas no tema, dia 02/10, na sala do Conselho Universitário da USP.
Campo a ser expandido
O programa busca desenvolver competências para a mobilização de recursos na Universidade. Também pretende fortalecer uma cultura institucional capaz de aproximar projetos acadêmicos de potenciais apoiadores, diversificar fontes de financiamento e criar condições para que pesquisas encontrem novas possibilidades de sustentação.
Existe hoje uma agenda de pesquisa consolidada sobre charitable giving [doações beneficentes], desenvolvida de forma interdisciplinar, com contribuições da economia, psicologia, sociologia, ciência comportamental, marketing e estudos sobre organizações sem fins lucrativos .
Uma das barreiras à ampliação das doações no Brasil é justamente a ausência de solicitação. Dados da 3ª edição da pesquisa Retrato da Solidariedade mostraram que 67% dos brasileiros afirmam não receber pedidos de contribuição (Instituto Pensi,2026).
Estudos internacionais têm demonstrado que ser explicitamente solicitado aumenta significativamente a probabilidade de doar — o chamado power of asking. Mas não basta ampliar a frequência das solicitações: a efetividade da captação depende de saber a quem, quando, quanto e de que forma pedir.
A captação de recursos precisa ser pesquisada, ensinada e praticada para se aprimorar. Captar não significa somente "ter uma boa causa", mas exige método, conhecimento e formação profissional.
Recursos e autonomia
O curso traz para o debate uma questão fundamental: os recursos filantrópicos devem complementar o investimento público, e não substituí-lo, preservando a autonomia acadêmica. O desafio é mobilizar recursos adicionais e aproximar novos atores da produção do conhecimento.
Essa complementaridade é particularmente relevante para pesquisas de fronteira, projetos inovadores e iniciativas de longo prazo, que exigem maior disposição para assumir riscos e nem sempre produzem resultados imediatos.
A Universidade de São Paulo, que já conta com uma parcela relevante de receitas provenientes de fontes distintas do Tesouro Estadual, é uma das instituições que discutem avanços nessa direção.
Na abertura do curso, o professor Aluisio Segurado, reitor da USP, destacou que o fortalecimento de parcerias com a filantropia permite ampliar o impacto das ações, traduzir conhecimento científico em benefícios para a população e fortalecer políticas de inclusão e pertencimento.
Há, portanto, uma oportunidade que ultrapassa os limites desta primeira turma: a expectativa é que a experiência do curso-piloto produza, em articulação com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), um spillover, disseminando conhecimentos e competências entre outros atores, inclusive universidades públicas. Esse talvez seja seu resultado mais promissor: transformar iniciativas dispersas de captação em uma capacidade institucional compartilhada.
Uma universidade que aprende a dialogar melhor com doadores, fundações, empresas e cidadãos amplia sua rede de aliados e sua capacidade de converter conhecimento em benefício coletivo.
Buscar fontes adicionais de recursos, em um diálogo contínuo e sólido com a sociedade, faz parte do cumprimento da missão social da universidade pública.
O desafio, daqui em diante, será transformar essa formação pioneira em política institucional duradoura, preservando a transparência, a autonomia acadêmica e o compromisso inequívoco com o interesse público.
Andréa Martini Pineda é pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP) e recebe financiamento da Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP).
Guilherme Ary Plonski não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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