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Missão SMILE une China e Europa no espaço para estudar escudo magnético que protege a Terra

A missão SMILE, fruto de colaboração entre a Agência Espacial Europeia e a Academia Chinesa de Ciências, explorará pela primeira vez a conexão global entre o Sol e a Terra

19 mai 2026 - 07h48
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Imagem de uma mancha solar capturada pelo TRACE, um observatório solar da Nasa: monitorar e entender a atividade solar e como ela afeta nosso planeta é cada vez mais fundamental diante dos impactos que ela pode ter na tecnologia moderna de que tanto dependemos. Wikimedia commons, CC BY
Imagem de uma mancha solar capturada pelo TRACE, um observatório solar da Nasa: monitorar e entender a atividade solar e como ela afeta nosso planeta é cada vez mais fundamental diante dos impactos que ela pode ter na tecnologia moderna de que tanto dependemos. Wikimedia commons, CC BY
Foto: The Conversation

A Terra é rodeada por um escudo invisível que nos protege continuamente da atividade solar. Embora não possamos vê-lo diretamente, sua existência é essencial: sem ele, a radiação solar erodiria a atmosfera, satélites ficariam muito mais expostos e as tempestades geomagnéticas afetariam com muito mais intensidade nossa tecnologia. Esse escudo é chamado de magnetosfera, uma gigantesca bolha criada pelo campo magnético terrestre que desvia grande parte das partículas carregadas vindas do Sol.

Foto: The Conversation
Ilustração da magnetosfera terrestre e sua interação com o vento solar.NASA, CC BY

A missão SMILE

Ainda não sabemos completamente como funciona a magnetosfera. E é justamente para responder a essa questão que nasceu a SMILE (Solar wind Magnetosphere Ionosphere Link Explorer, "explorador da ligação magnetosfera, ionosfera e vento solar", em tradução livre), uma missão conjunta da Agência Espacial Europeia (ESA) e a Academia Chinesa de Ciências (CAS), projetada para estudar de forma abrangente a interação entre o Sol e a Terra.

A missão representa uma importante mudança de perspectiva. Durante décadas, estudamos a magnetosfera por meio de medições realizadas em pontos específicos do espaço, como se tentássemos compreender um furacão observando apenas pequenas correntes de ar isoladas. A SMILE oferecerá, pela primeira vez, uma visão global do sistema.

Foto: The Conversation
Ilustração da sonda SMILE.ESA, CC BY

O aspecto mais fascinante da missão SMILE é que ela nos permitirá contemplar nosso planeta sob uma perspectiva diferente: não como um mundo isolado, mas como parte de um sistema dinâmico permanentemente conectado ao Sol. A SMILE vai examinar minuciosamente o laço que nos conecta diretamente à nossa estrela, um laço turbulento.

Um planeta sob o vento solar

Embora costumemos imaginar o espaço como um lugar vazio e tranquilo, o Sol emite continuamente um fluxo de partículas carregadas conhecido como "vento solar". Quando esse fluxo atinge a Terra, a magnetosfera atua como uma barreira protetora: ela comprime o campo magnético no lado voltado para o Sol e gera uma longa cauda magnética no lado noturno do planeta.

Na maior parte do tempo, esse escudo funciona de maneira eficaz. Mas durante episódios de intensa atividade solar, como as erupções solares ou as ejeções de massa coronal, enormes quantidades de energia atingem o ambiente terrestre e alteram esse equilíbrio. Assim, podem ocorrer tempestades geomagnéticas capazes de afetar satélites, sistemas GPS, comunicações de rádio e até as redes elétricas.

Um dos grandes problemas em aberto da física espacial é compreender como exatamente essa energia é transferida do Sol para a Terra. E é precisamente aí que a SMILE trará uma visão completamente nova.

Como fotografar algo invisível

A grande inovação da missão é que ela observará a magnetosfera terrestre em raios X "moles", algo que nunca foi feito de forma global.

Quando as partículas do vento solar interagem com átomos neutros presentes ao redor da Terra, ocorre um fenômeno denominado troca de carga. Durante esse processo, são geradas emissões fracas de raios X que o SMILE poderá detectar. Graças a isso, a missão será capaz de "traçar" os limites da magnetosfera e acompanhar suas mudanças quase em tempo real.

A ideia lembra iluminar as bordas de uma bolha transparente para finalmente distinguir sua forma. Dessa forma, os cientistas poderão observar como o escudo magnético terrestre se comprime, se expande e se deforma sob a influência do vento solar.

Ao mesmo tempo, a missão estudará as auroras boreais e austrais, que constituem a manifestação visível dessa interação entre o Sol e a Terra. Quando partículas solares penetram perto dos polos e colidem com os gases da atmosfera, geram emissões luminosas de diferentes cores.

A novidade é que a SMILE observará simultaneamente as auroras e toda a magnetosfera. Graças a isso, os pesquisadores poderão relacionar diretamente as mudanças no ambiente magnético terrestre com seus efeitos visíveis na atmosfera superior.

Órbita projetada para observar de longe

O lançamento da SMILE em um foguete Vega-C da Guiana Francesa aconteceu na madrugada desta terça-feira, 19 de maio de 2026. Uma vez no espaço, a sonda segue uma órbita altamente elíptica que a levará a cerca de 121.000 quilômetros de distância sobre o Hemisfério Norte.

Essa trajetória é fundamental para os objetivos científicos da missão. A partir de tão longe, a sonda poderá observar enormes regiões da magnetosfera de uma só vez, algo impossível para satélites situados em órbitas baixas.

A sonda incorporará quatro instrumentos científicos destinados a analisar partículas, campos magnéticos e emissões em raios X e ultravioleta. Com eles, os pesquisadores esperam responder a três perguntas essenciais: como a energia solar entra na magnetosfera, o que desencadeia determinadas perturbações magnéticas e como evoluem as tempestades geomagnéticas.

Muito mais do que pesquisa básica

A SMILE busca responder questões fundamentais sobre a relação entre o Sol e a Terra, mas seus resultados também terão implicações práticas importantes.

Nossa sociedade depende cada vez mais de tecnologias vulneráveis ao clima espacial. Satélites de comunicação, sistemas de navegação, aviação e redes elétricas podem ser afetados por episódios extremos de atividade solar.

De fato, em 1859, uma gigantesca tempestade geomagnética, o chamado Evento Carrington, provocou falhas em massa nos sistemas telegráficos da época. Um fenômeno semelhante teria hoje consequências muito maiores em uma civilização profundamente dependente da eletrônica e da infraestrutura espacial.

Foto: The Conversation
Acredita-se que o Evento Carrington tenha provocado, em 1859, gigantescas auroras, visíveis quase de qualquer ponto do globo terrestre.Wikimedia commons

Compreender melhor o comportamento da magnetosfera poderia permitir antecipar e mitigar os efeitos do clima espacial. Mas, além disso, a SMILE vai oferecer novos dados sobre essa ligação em constante atividade que nos une ao Sol.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Carlos Vázquez Monzón não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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