Postura polarizada e extremista de parte da juventude é desafio para a democracia
Criação de observatório ibero-americano busca diagnosticar dinâmicas de radicalização juvenil e promover respostas
Entre memes, algoritmos e a lógica da "lacração", muitos jovens têm hoje seus primeiros contatos com a política em um ambiente marcado por conflito, disputas acirradas e forte polarização. Esse cenário molda a forma como a política é percebida e também influencia como as novas gerações se posicionam diante da democracia.
Ao mesmo tempo, cresce o distanciamento de parte da juventude ibero-americana em relação às instituições democráticas. Dados recentes do Latinobarômetro apontam uma queda no apoio à democracia, especialmente entre jovens. Ela é acompanhada por níveis mais baixos de confiança em parlamentos, partidos políticos e outras instituições representativas, quando comparados à população acima dos 30 anos.
Gráfico elaborado pelos pesquisadores com base em dados do Latinobarómetro (2010-2024). Ele mostra a porcentagem de pessoas que afirmam apoiar a democracia, mostrando uma queda grande, especialmente entre jovens.Fonte: acervo do autor.Esse cenário, no entanto, não deve ser interpretado como uma rejeição pura e simples à democracia. Uma das hipóteses é que estamos diante de uma crítica às formas concretas pelas quais ela tem operado. Afinal, embora 68% dos jovens ainda considerem a democracia o melhor sistema de governo, 65% demonstram insatisfação com seu funcionamento prático.
A desafeição democrática juvenil não é apenas como afastamento institucional. Faço parte de um grupo de pesquisadores sociais que analisa essa questão criticamente. Nós partimos da hipótese de que ela também expressa disputas relevantes. É preciso reimaginar a política e a democracia em contextos marcados por desigualdade, insegurança e transformações digitais aceleradas.
Frustrações frente a demandas sociais
Esse descontentamento institucional não surge no vazio. Ele dialoga diretamente com os desafios concretos enfrentados por jovens na Ibero-América. As dificuldades de inserção no mercado de trabalho, por exemplo, seguem persistentes e desproporcionais em relação a outros grupos etários.
Além disso, o alto custo de vida, a precarização das condições habitacionais e a segregação socioespacial, limitam o acesso a oportunidades. Esse conjunto de fatores dificulta a construção de projetos de vida autônomos, prolonga a dependência familiar e torna mais instável e incerta a transição para a vida adulta.
A crise climática adiciona ainda mais complexidade a esse cenário. Para além de seus impactos materiais, ela afeta a forma como os jovens projetam o futuro. Muitas vezes, marcado por insegurança e desconfiança sobre a capacidade das instituições de responder a desafios de longo prazo.
Outro elemento importante é o agravamento dos problemas de saúde mental entre as juventudes. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que mais de um em cada sete jovens vive com algum transtorno de saúde mental, sendo ansiedade e depressão as condições mais comuns.
Nesse contexto, a aparente desafeição democrática entre jovens pode ser melhor compreendida como expressão de frustrações diante de demandas sociais não atendidas. Em muitos casos, a desconfiança nas instituições se intensifica diante da percepção de que elas não conseguem oferecer respostas concretas a questões de inclusão, reconhecimento e justiça social.
Juventude e extremismo
Esse ambiente de frustração cria condições favoráveis à circulação de discursos extremistas. Entre jovens, essas narrativas encontram particular ressonância no ambiente digital. Plataformas digitais ampliam a circulação de conteúdos simplificados, emocionalmente mobilizadores e frequentemente polarizadores. Ao mesmo tempo, oferecem formas de pertencimento, reconhecimento e identidade política que muitas vezes ocupam o espaço deixado pelo distanciamento das instituições democráticas tradicionais.
Nos últimos anos, pesquisas mostram que forças autoritárias têm mobilizado sentimentos de insegurança, ressentimento e ameaça cultural. Transformações sociais passam a ser interpretadas como sinais de perda de identidade nacional ou de decadência moral. Um dos principais riscos desse processo é a sua normalização. Ideias antes consideradas marginais passam a circular com mais frequência no debate público, influenciando diferentes campos políticos e ampliando os limites do que é considerado aceitável.
Os algoritmos intensificam esse fenômeno. Amplificam a escala e a velocidade de difusão de discursos radicais, inclusive em torno de temas como misoginia, racismo e intolerância. Assim, as novas gerações passam a construir suas identidades políticas em ambientes em que discursos extremistas estão cada vez mais presentes e, em alguns casos, legitimados.
Esse movimento também tem efeitos concretos nas políticas públicas voltadas para a juventude. Em diferentes países, vemos a deslegitimação de políticas sociais e o questionamento de direitos, frequentemente acompanhados por discursos moralizantes. Nesse cenário, jovens são muitas vezes enquadrados como problema social ou responsabilizados individualmente por trajetórias marcadas por desigualdades estruturais.
Um observatório para compreender e enfrentar o problema
Diante desse cenário, foi criado o Observatório Multilateral de Juventudes Frente ao Extremismo, uma iniciativa do Organismo Internacional de Juventude para Ibero-América (OIJ), em parceria com equipes de pesquisadores da PUC-Rio e da UniRio.
Nos próximos dois anos, nosso objetivo é aprofundar a análise das condições que moldam a experiência democrática das juventudes na região. Buscaremos articular dados empíricos e interpretação analítica para compreender os fatores que sustentam o distanciamento em relação às instituições e que favorecem a disseminação de discursos extremistas.
Apresentação do Observatório Multilateral da Juventude sobre o Extremismo, durante a reunião da Global Progressive Mobilisation (GPM), em 17 de abril de 2026. Margarita Guerrero, Diretora do Instituto Nacional da Juventude, Espanha; Alexandre Pupo, secretário-geral da OIT; Talita Tanscheit, Coordenadora Geral do Observatório e Vitória Genuino, Secretária Nacional da Juventude, Brasil.O projeto abrange cinco países — Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha — e pretende gerar inteligência regional sobre tendências emergentes. Nosso foco está na interseção entre desigualdades estruturais e dinâmicas contemporâneas de participação política.
A princípio, identificamos quatro eixos estratégicos de análise: educação, disputas de memória, ambiente digital e desigualdades (de classe, raça, gênero, sexualidade e território). Eles nos ajudam a entender a atuação de forças extremistas e também a moldar as possibilidades de construção de respostas democráticas.
A pesquisa combinará diferentes estratégias metodológicas. O projeto prevê a realização de um survey comparativo nos cinco países participantes. As amostras serão estratificadas por gênero, faixa etária, escolaridade, nível socioeconômico, raça/etnia e território.
Também serão realizados grupos focais com jovens de diferentes perfis sociais e posicionamentos políticos, além do monitoramento digital de narrativas extremistas, desinformação e discursos antidemocráticos em plataformas digitais.
Além disso, o Observatório fará o mapeamento de políticas públicas e práticas democráticas voltadas à juventude em diferentes países da região. Buscaremos identificar experiências capazes de fortalecer a participação democrática e enfrentar processos de radicalização.
Além de mapear e compreender melhor o problema, o Observatório buscará articular academia, governos, sociedade civil e organismos internacionais na construção de respostas democráticas capazes de enfrentar o extremismo de forma consistente. O foco dessa agenda será a ampliação de direitos, a redução das desigualdades e o fortalecimento da participação juvenil, entendendo que o enfrentamento ao extremismo também passa pela capacidade de reimaginar a política e a democracia a partir das experiências, demandas e expectativas das novas gerações.
Talita Tanscheit não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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