Mineração ilegal de Bitcoin pressiona redes elétricas na Ásia
Furto de eletricidade ligado a criptomoedas cresce no Sudeste Asiático. E autoridades ampliam ações contra esquemas associados à lavagem de dinheiro, golpes online e crime organizado.Uma operação policial realizada na semana passada na Malásia expôs como a mineração ilegal de criptomoedas vem se associando ao furto de eletricidade e a redes de crime organizado no Sudeste Asiático.
No estado de Johor, no sul do país, 71 equipamentos de mineração operavam ininterruptamente em quatro imóveis alugados havia cerca de um mês quando a polícia realizou uma série de buscas.
Nas ações, realizadas em 22 e 23 de julho, três suspeitos foram presos. Os agentes apreenderam computadores, roteadores, veículos e equipamentos usados para minerar Bitcoin de forma ilegal.
Segundo o chefe da polícia de Johor, Ab Rahaman Arsad, o grupo fraudava os medidores de energia elétrica, provocando perdas estimadas em 14,5 mil euros (R$ 84,8 mil) em aproximadamente um mês, de acordo com a imprensa local. As máquinas gerariam entre 17,2 mil e 21,5 mil euros por mês (entre R$ 100,6 mil e R$ 125,8 mil).
O caso é considerado relativamente pequeno para os padrões da Malásia. Entre 2020 e 2025, a concessionária nacional Tenaga Nasional Berhad (TNB) identificou quase 14 mil imóveis ligados ao furto de energia para mineração de criptomoedas. As perdas acumuladas chegaram a cerca de 1,1 bilhão de euros (R$ 6,44 bilhões).
De acordo com o Ministério da Energia da Malásia, os casos detectados aumentaram de 610 em 2018 para 2.397 em 2024. O governo considera a mineração ilegal uma ameaça à segurança pública, à estabilidade econômica e ao sistema elétrico nacional.
"Na Malásia, milhares de ocorrências deram origem a investigações sobre mineração ilegal de criptomoedas", afirmou Sonny Zulhuda, professor associado da Universidade Islâmica Internacional da Malásia.
"Isso representa um grande problema para a segurança dos recursos energéticos, a sustentabilidade econômica, a concorrência e a arrecadação pública", disse ele à DW.
Segundo Zulhuda, a fiscalização ainda enfrenta limitações por falta de estrutura legal adequada e capacidade operacional das agências responsáveis por investigação e aplicação da lei.
"É lamentável porque a Malásia está desenvolvendo rapidamente sua infraestrutura digital", acrescentou.
Mineração de criptomoedas e crime organizado
A mineração de criptomoedas não é, por si só, uma atividade criminosa. No entanto, autoridades têm identificado vínculos crescentes entre operações ilegais, jogos de azar online, lavagem de dinheiro e redes de golpes cibernéticos em escala industrial que atuam na região.
Em outubro do ano passado, Estados Unidos e Reino Unido impuseram sanções ao grupo cambojano Prince Group e a empresas associadas, acusando a rede de operar complexos de golpes baseados em trabalho forçado e de lavar recursos por meio de criptomoedas e outros ativos.
Na mesma ocasião, autoridades americanas apreenderam Bitcoins avaliados em cerca de 15 bilhões de dólares (R$ 76,35 bilhões), cujas chaves privadas estavam sob controle de Chen Zhi, presidente do Prince Group. Segundo os investigadores, os ativos eram produto e instrumento de fraude e lavagem de dinheiro.
A Tailândia apresentou uma das ligações mais claras entre furto de energia e crime transnacional.
Em 2025, investigadores desmantelaram três grandes redes de mineração ilegal de criptomoedas, apreenderam mais de 6.390 equipamentos e estimaram prejuízos superiores a 24,9 milhões de euros (R$ 145,7 milhões) para a Provincial Electricity Authority.
Em uma das operações, as autoridades encontraram aproximadamente 1.900 máquinas em galpões. A distribuidora estimou que a rede consumia energia equivalente a cerca de 575 mil euros por mês (R$ 3,36 milhões), pagando apenas uma pequena fração desse valor.
Indonésia também enfrenta o problema
A Indonésia registra casos semelhantes. Em dezembro de 2023, a polícia da província de Sumatra do Norte realizou buscas em dez locais e apreendeu mais de 1.100 equipamentos de mineração de Bitcoin. A estatal de energia PLN estimou prejuízos de cerca de 700 mil euros (R$ 4,1 milhões) ao longo de seis meses.
Em resposta, governos da região intensificaram operações policiais, endureceram penalidades e ampliaram a cooperação entre forças de segurança, concessionárias de energia, reguladores e órgãos de combate à corrupção.
A Malásia criou um comitê interagências e passou a utilizar medidores inteligentes em subestações para detectar padrões anormais de consumo.
Mesmo assim, a fiscalização continua complexa. Os equipamentos podem ser transferidos rapidamente, imóveis podem ser alugados por intermediários e a adulteração de medidores frequentemente envolve redes organizadas ou colaboração interna.
Para Saaidal Razalli Azzuhri, especialista em telecomunicações da Universidade da Malásia, as operações policiais precisam ser complementadas por monitoramento em nível de transformadores, licenciamento obrigatório, transparência sobre os beneficiários finais das empresas e rastreamento de transferências bancárias e carteiras de criptomoedas.
"O objetivo não deve ser proibir a tecnologia blockchain, mas garantir que os mineradores arquem com o custo real da eletricidade e não transfiram esses custos e riscos de infraestrutura para a sociedade", afirmou.
Zulhuda argumenta que os governos do Sudeste Asiático precisam tratar o problema de forma adequada para evitar sinais negativos a empresas interessadas em investir nos setores digitais da região.
Ele cita a Lei de Segurança Cibernética de 2024, voltada à proteção das infraestruturas críticas de informação da Malásia, e a Lei de Crimes Cibernéticos de 2026, criada para combater o uso indevido de sistemas digitais.
Laos recua da aposta na mineração
O Laos oferece um exemplo de como até mesmo a mineração legal de criptomoedas, apoiada pelo Estado, pode ter dificuldade para entregar os resultados prometidos.
Em meados de 2021, o governo autorizou seis empresas a minerar e negociar criptomoedas. A estratégia parecia adequada para um país que havia investido fortemente em geração hidrelétrica e, em determinados períodos, produzia mais energia do que conseguia consumir internamente.
A mineração surgiu como uma forma de monetizar esse excedente.
No auge, entre 2021 e 2022, o setor consumiu cerca de 500 megawatts. Com o tempo, porém, o excedente energético mostrou-se menos estável do que o esperado.
Algumas empresas acumularam contas de energia em atraso. Além disso, as autoridades concluíram que a atividade gerava poucos empregos e criava demanda limitada para fornecedores locais em comparação com a indústria de transformação e outras atividades produtivas.
Em outubro do ano passado, o vice-ministro da Energia, Chanthaboun Soukaloun, afirmou que o governo pretendia interromper o fornecimento de eletricidade para mineradores de criptomoedas.
A prioridade passou a ser direcionar a energia para setores considerados mais estratégicos, como processamento de metais, fabricação de veículos elétricos, centros de dados voltados à inteligência artificial e exportação de eletricidade para países vizinhos.
A experiência deixou um alerta mais amplo: energia barata pode atrair operações de mineração de criptomoedas, mas não garante investimentos duradouros nem desenvolvimento econômico. Quando operadores furtam eletricidade ou utilizam energia subsidiada sem gerar benefícios significativos para a economia local, o custo acaba recaindo sobre a população.
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