Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Militarização da indústria alemã gera dilema entre trabalhadores

16 mar 2026 - 14h20
Compartilhar
Exibir comentários

Centenas de fábricas na Alemanha vêm sendo convertidas para o setor de defesa. Em Berlim, trabalhadores e sindicatos se veem divididos entre promover a paz e garantir segurança financeira.Armados apenas com uma lata de biscoitos, uma garrafa térmica de café e uma caixa de leite de aveia, um pequeno grupo de ativistas passou uma tarde ensolarada da semana passada em frente a uma fábrica de componentes automotivos em Berlim. Eles tentavam distribuir panfletos aos trabalhadores que entravam e saíam da unidade, que se prepara para uma transição para um novo ramo.

Fábrica da Rheinmetall em Berlim começará em breve a produzir projéteis de grande calibre
Fábrica da Rheinmetall em Berlim começará em breve a produzir projéteis de grande calibre
Foto: DW / Deutsche Welle

A partir deste ano, a maior parte dos 350 trabalhadores da Pierburg, uma subsidiária da gigante industrial Rheinmetall, trabalhará na produção de projéteis para munições de grande calibre.

"Nosso objetivo é iniciar conversas com os trabalhadores daqui", disse Andreas (que preferiu não divulgar o sobrenome), integrante da Aliança de Berlim Contra a Produção de Armas (BBgW, na sigla em alemão). O grupo composto por cerca de 30 organizações se opõe ao que enxerga como a militarização gradual da indústria alemã.

No ano passado, o Parlamento alemão aprovou um pacote de dívidas de vários bilhões de euros para investir em defesa e infraestrutura. Desde então, centenas de fábricas alemãs vêm mudando silenciosamente para a produção militar.

Enquanto isso, dentro de um contexto maior de estagnação da economia nacional, o setor automotivo passa por uma crise, que ameaça dezenas de milhares de empregos. "Todos nós somos afetados pela crise, pelos cortes e pela ameaça de desemprego. Mas achamos que a indústria bélica e a produção de defesa não são a solução", diziam os panfletos distribuídos pelos ativistas.

História volta à tona

Mas foram poucos os trabalhadores cruzando os portões que aceitaram os folhetos. A maioria apressou o passo, se recusou a recebê-los ou manteve as janelas dos carros fechadas.

Uma parte dos moradores locais não parece satisfeita com o fato de que o bairro seja, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, sede de uma fábrica de armas. O distrito de Wedding é um tradicional reduto operário de esquerda.

"Sou filha da guerra. Eu e meu irmão fomos evacuados. Somos todos contra a guerra," disse uma senhora de 87 anos à DW enquanto passava pelos portões. "Para mim, eles não deveriam (fabricar armas) aqui. Eu não quero isso", afirmou. "Mas, por outro lado, precisamos nos proteger."

Havia indícios de que alguns funcionários também não estavam contentes com a mudança. De dentro do carro e sem se identificar, uma funcionária expressou para a DW a sua opinião negativa sobre a mudança na fábrica. "Mas não me importo porque não vou ficar trabalhando aqui por muito tempo. Vou me aposentar."

Munições viram grande negócio

O governo alemão, como muitos governos europeus, está investindo mais na indústria de defesa, em resposta a uma mudança no cenário geopolítico. A Europa percebe uma ameaça crescente da Rússia sob o presidente Vladimir Putin, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se mostra como um aliado cada vez mais incerto.

A gigante Rheinmetall é uma das maiores fabricantes industriais da Alemanha, especializada em engenharia mecânica, peças automotivas e, cada vez mais nos últimos anos, armamentos.

A empresa participa da produção de diversos veículos usados pelas Forças Armadas alemãs e por alguns de seus parceiros na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), incluindo o tanque Panther, atualmente em desenvolvimento.

Sua divisão "Armas e Munições", à qual a fábrica da Pierburg será integrada, é especializada em munições de médio e grande calibre para estes veículos. O preço das ações da Rheinmetall aumentou 16 vezes desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

Uma "questão existencial"

Em nota enviada à DW, a Rheinmetall afirmou que a conversão da fábrica para a produção de armas é uma resposta à queda nas vendas do setor automotivo e ao simultâneo aumento na demanda no setor militar. "Estamos satisfeitos que essa mudança nos permitirá continuar oferecendo empregos seguros aos trabalhadores da planta em Berlim no futuro", acrescentou o comunicado.

Muitos argumentam que os trabalhadores simplesmente não têm escolha, uma vez que não cabe a eles decidir sobre os novos rumos dos negócios.

"Claro que eles não estão entusiasmados. Acho que ninguém gosta de fabricar para a indústria de defesa", disse Klaus Murawski, membro do sindicato IG Metall em Berlim, ao comentar a falta de adesão aos protestos na porta da Pierburg. "Não é uma questão de consciência. É uma questão existencial para esses funcionários."

O sindicato, que representa muitos dos trabalhadores da Pierburg, está dividido. "Nosso estatuto diz que somos pela paz, pela desmilitarização, mas também diz que queremos defender a ordem social livre e democrática. E, antes de tudo, representamos os trabalhadores," afirma Constantin Borchelt, chefe do IG Metall em Berlim.

Militarização crescente

Já para Andreas, o medo de perder empregos é um obstáculo para uma mobilização maior dos trabalhadores. "Ainda assim, é possível apresentar sugestões e levar críticas à direção. Uma fábrica como essa poderia produzir outras coisas além de projéteis de munições."

O seu pequeno grupo de manifestantes da BBgW pretendia voltar aos portões da fábrica na semana seguinte para tentar novamente conversar com os trabalhadores. Ele acredita que a militarização da indústria alemã é um erro perigoso.

"Quem está armado está mais preparado para seguir uma política externa mais arriscada", disse ele ainda. "Temos que entender por que a Alemanha está fazendo isso. Claro que isso pode voltar para assombrar o país. Isso seria guerra."

Em 2025, mais de 24 mil empresas não tiveram condições de honrar todos os seus compromissos financeiros e, portanto, viram-se obrigadas a declarar insolvência na Alemanha, segundo dados do Escritório Federal de Estatística.

O número foi o mais alto desde 2014, mas ainda está longe do patamar da crise financeira em 2009, quando quase 32,7 mil empresas se tornaram insolventes.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade