Meninas menstruando cada vez mais cedo: o que está acelerando a puberdade infantil
O endocrinologista pediátrico Dr. Miguel Liberato explica como estilo de vida moderno e exposição a substâncias químicas têm acelerado o desenvolvimento das crianças
Uma mudança silenciosa, mas cada vez mais evidente, tem chamado a atenção de pais e especialistas: a puberdade está começando mais cedo em meninas. A primeira menstruação (menarca) que antes era esperado por volta dos 15 ou 16 anos, hoje já acontece, em média, entre os 11 e 12 anos e, em muitos casos, ainda chega a acontecer de forma ainda mais prematura, chegando algumas meninas a apresentarem a menarca antes mesmo dos dez anos.
Segundo o endocrinologista pediátrico Dr.
Miguel Liberato, referência em Crescimento Infantil em São Paulo, esse fenômeno não é coincidência, mas reflexo direto das transformações do mundo moderno.
"Essa antecipação histórica evidenciada no último século é um reflexo direto de como o ambiente moderno tem reescrito as regras do nosso desenvolvimento", explica ele.
Dados mostram que o início da puberdade, marcado pelo desenvolvimento das mamas nas meninas, tem ocorrido frequentemente entre os oito e nove anos, ou até menos. Explica o especialista, dois fatores principais ajudam a explicar esse cenário: mudanças no estilo de vida e a exposição crescente a substâncias químicas que interferem no sistema hormonal.
Um dos principais gatilhos está relacionado ao aumento dos casos de obesidade infantil.
"Nos últimos anos observamos uma epidemia global de obesidade infantil, impulsionada pelo sedentarismo e pelo consumo de alimentos ultraprocessados",afirma o médico. Ele destaca o papel da leptina, hormônio produzido pelo tecido adiposo, nesse processo:
"Basicamente, a gordura funciona como um gatilho para a puberdade. Quando a criança atinge um certo nível de gordura no corpo, a leptina sinaliza ao cérebro que o processo já pode começar", emenda o Dr. Miguel.
Outro ponto de atenção são os chamados desreguladores endócrinos, substâncias presentes no dia a dia, muitas vezes de forma invisível.
"Eles estão em toda parte: no plástico das garrafas de água, nos recibos de supermercado, nos cosméticos, em produtos de limpeza e nos agrotóxicos", alerta o especialista. Compostos como o bisfenol A (BPA), ftalatos e parabenos têm estrutura semelhante ao estrogênio e podem agir como hormônios no organismo.
"Quando essas substâncias entram no corpo da criança, elas podem levar não só à puberdade precoce, como também alterar outros hormônios como os da tireoide", completa.
Apesar de ser impossível eliminar totalmente o contato com esses agentes, pequenas mudanças na rotina podem fazer diferença.
"Evitar o uso precoce de maquiagens e cosméticos de adultos, priorizar uma alimentação mais natural e ter cuidado com o uso de plásticos, especialmente com alimentos quentes, são medidas que ajudam a reduzir a exposição", orienta o especialista.
Além das questões físicas, o impacto da puberdade precoce vai muito além. O descompasso entre o desenvolvimento do corpo e a maturidade emocional pode trazer consequências importantes.
"Estamos presenciando uma geração que atinge a maturidade física muito antes da maturidade emocional e cognitiva, o que pode resultar em ansiedade, depressão e isolamento social", destaca.
Do ponto de vista clínico, também há implicações no crescimento. Crianças que entram na puberdade mais cedo até podem crescer mais rapidamente no início, mas tendem a parar de crescer antes.
"Elas dão a impressão de que vão ficar mais altas, mas acabam não atingindo seu potencial de crescimento", explica.
O alerta para os pais é fundamental. No caso das meninas, sinais como desenvolvimento das mamas, pelos pubianos ou odor axilar antes dos 8 anos devem ser investigados. Já nos meninos, esses sinais antes dos nove anos também exigem atenção.
"Quando conduzido no momento correto, há tratamento para bloquear a evolução da puberdade",afirma o médico.
Para o especialista, informação e acompanhamento são essenciais.
"Pais que conseguem perceber essas mudanças no momento certo permitem que os filhos tenham acesso ao tratamento adequado, protegendo não só a estatura final, mas também a infância dessa criança", conclui.
* Texto com informações de assessoria.
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