Liderança 4.0: como diferenciar um hype da hora de agir
No ritmo frenético em que chegam as informações, os líderes vivem pressionados a dar conta e acompanhar tudo, mas é necessário diferenciar o que é importante do que é apenas ruído corporativo
Uma das principais angústias dos líderes de hoje em dia é estar defasado. Vivemos a era da informação e o volume de conteúdo que é gerado por dia só reforça esse cenário. Segundo a Statista, empresa de análise de dados, mais de 231 milhões de e-mails são enviados em um minuto. Mais de 5.9 milhões de pesquisas são realizadas no Google por minuto. Um CEO dorme hoje e, amanhã, pode acordar num cenário completamente diferente. Piscou, surge uma nova tecnologia, vide o ChatGPT e todos os apps que vieram na rabeira.
Mesmo em tempos em que o debate sobre saúde mental está em alta, muitos profissionais ainda se cobram o tempo todo em estarem conectados. Desligar de tudo e tirar férias de 30 dias com a família, mais do que nunca, continua sendo um artigo de luxo para a maioria de nós. Eu mesmo nunca fiquei mais de 20 dias desconectado.
Alguns conseguem se ausentar do trabalho por até algumas semanas, desde que viajem para um lugar em que o celular tenha bom sinal de internet e possam responder mensagens, acompanhar indicadores e tomar decisões.
Existe até uma síndrome para os que sentem uma necessidade constante de estar bem informado sobre tudo que está acontecendo em sua volta, bastante conhecida como Fomo, que significa "fear of missing out", em tradução livre: "medo de ficar de fora". Ela pode desencadear crises de ansiedade, depressão, entre outras questões que colocam a nossa saúde mental à prova.
Saltamos do mundo Vuca (volátil, incerto, complexo e ambíguo), para outro ainda mais difícil de lidar, o Bani, onde a realidade é frágil, ansiosa, não linear e incompreensível. A tecnologia está intimamente ligada a tudo em nossas vidas, presente em todos os produtos, serviços e tipos de negócios.
Depois da revolução industrial, o que mais virou nossas vidas do avesso, sem dúvida, foi a internet. Ela fez com que os smartphones se pareçam mais com uma extensão do nosso corpo e mente do que com um simples dispositivo.
A inteligência artificial generativa é o exemplo mais radical desse movimento todo. Desde que a OpenAI lançou a nova versão de seu modelo de linguagem natural, o GPT-4, todas as nossas previsões viraram de cabeça para baixo em um vai-e-vem de informações que poucos de nós conseguem decifrar.
Trago isso por que, na minha visão, o principal desafio dos líderes 4.0 é filtrar quais tecnologias são cortinas de fumaça para tirar nosso foco e aquelas que representam de fato mudanças estruturais capazes de conduzir as empresas para a disrupção (ou então para a obsolescência).
Essa habilidade de separar o "joio do trigo" tornou-se essencial. Mais do que nunca, precisamos ser capazes de analisar o que pode nos impactar de fato, ou seja, aquelas novidades que mesmo que pareçam só hype, podem ganhar força rapidamente e transformar o status quo. Esse discernimento é o que nos permite enxergar oportunidades.
Não é uma missão fácil, mas podemos treinar. Eu costumo pautar minhas decisões numa tríade simples. Primeiro, me concentro para fazer uma análise profunda e sensata de cada nova tecnologia. Faço isso lendo matérias, assistindo vídeos, testando a tecnologia e trocando com outros profissionais que também estão procurando se aprofundar. Não podemos sair repetindo ideias de terceiros sem mergulhar no assunto e formar a nossa própria visão.
Depois, me baseio na premissa de que a tecnologia tem de sempre estar a nosso favor, pois demanda investimento de tempo e de dinheiro, então, deve obrigatoriamente agregar valor ao negócio ou gerar eficiência.
Por último, se avalio que é hora de agir, que seja rápido e meu time esteja capacitado. Isso significa testar, corrigir e ajustar com agilidade — e, claro, se foi uma decisão errada, voltar atrás e estancar o gasto de tempo e dinheiro (''fail fast'').
O líder 4.0 continua com a missão de sempre: liderar, inspirar e engajar pessoas, além de garantir a entrega de resultados por meio de competências como adaptabilidade, alta performance e aprendizado contínuo.
Mas, hoje, um líder também precisa entender o seu perfil e, diariamente, encontrar o equilíbrio entre ser um visionário, que observa sinais da sociedade, antecipa movimentos e está um passo à frente da concorrência, e ser um líder com perfil tático, que faz põe a mão na massa, participa do dia a dia e faz a coisa acontecer.
Um exemplo disso foi a liderança do Slack, que surgiu em 2013 e rapidamente se destacou no mercado corporativo por ser um software leve, ter melhor qualidade de áudio e vídeo e, principalmente, oferecer uma nova usabilidade. A liderança do Slack propôs que a ferramenta pudesse ser utilizada por uma empresa não apenas para trocar mensagens, como o Skype da Microsoft já permitia na época.
Ela trouxe como vantagem a criação de grupos de trabalho (workspace) entre os colaboradores das empresas, a troca de conteúdos em tempo real e a fixação de arquivos ou links úteis que podem ser facilmente acessados por todos os membros de um grupo.
O Slack resolveu, por meio da tecnologia, algumas das principais dores que as pessoas tinham: a organização dos fluxos de trabalho e a redução no volume de e-mails que passaram a ser resolvidos de maneira quase síncrona em poucos cliques. A liderança estava atenta e fez a inovação acontecer no tempo certo.
A tecnologia para a ferramenta já existia, a inovação favoreceu a junção de tecnologias e timing, tudo isso observando os sinais globais (times remotos, mudanças aceleradas, mudança do modelo de trabalho tradicional) e claro: a pandemia acelerou tudo isso. O Microsoft Teams, lançado em 2017, embora trouxesse a facilidade de integração ao famoso pacote Office, está correndo atrás do prejuízo.
Na minha visão, o novo modelo de liderança exige pessoas conectadas e abertas. Abertas para testar coisas novas, para explorar e atentas aos sinais que o seu setor envia. Sinais fracos podem virar sinais fortes, que se tornam tendências. Hoje quase tudo passa por tecnologia e qualquer inovação futura também vai passar.