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Itália acusa Suíça de falhas na investigação de incêndio em estação de esqui nos Alpes

16 jan 2026 - 15h16
(atualizado às 15h42)
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Autoridades italianas e advogados das vítimas apontam erros processuais e omissões na investigação da tragédia que deixou 40 mortos no Ano Novo em bar de Crans-Montana.O incêndio que deixou 40 mortos e 115 feridos em uma estação de esqui na Suíça criou amplo escrutínio público não apenas sobre as causas do acidente mas também sobre a atuação das autoridades suíças.

A defesa de familiares das vítimas e juristas suíços criticam uma série de ações tomadas pela Justiça que teria atrapalhado as investigações. Representantes do governo italiano também têm acusado a Suíça de falhar na apuração dos fatos que levaram ao acidente.

Segundo o advogado dos familiares, Romain Jordan, o Ministério Público e as forças policiais cometeram erros processuais na condução das investigações. Por exemplo, alguns corpos não passaram por autópsias completas, dificultando a determinação precisa das causas de morte, e houve lentidão na apreensão de celulares dos proprietários e funcionários do bar onde ocorreu o incêndio, afirmou Jordan à rede alemã ARD.

Autoridades suíças também confirmaram que nenhuma inspeção de segurança contra incêndios havia sido realizada nas instalações do bar Le Constellation, localizado na estação de esqui de Crans-Montana, nos últimos cinco anos.

Estas e outras omissões poderiam comprometer a cadeia de custódia e o processo penal, argumenta Jordan. Os proprietários do bar, um casal francês, são investigados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Um deles cumpre prisão preventiva.

Falta de autópsias

Diversos relatos de familiares na mídia suíça indicam que algumas vítimas não tiveram a causa da morte confirmada pelas autoridades locais.

O tablóide suíço Blick, por exemplo, noticiou o caso de uma vítima de 17 anos para a qual o Ministério Público se recusou a solicitar uma autópsia durante duas semanas. Os médicos legistas só foram autorizados a fazê-la quando o corpo já estava sendo velado.

Situação similar foi denunciada por familiares de um adolescente de 16 anos de Gênova, morto no acidente, ao jornal suíço Neue Zürcher Zeitung. Segundo eles, o corpo também não passou por autópsia antes de ser liberado.

O embaixador italiano na Suíça, Gian Lorenzo Cornado, confirmou ao mesmo periódico suíço que os seis jovens italianos mortos no incêndio não foram autopsiados. Para Jordan, o procedimento é fundamental para determinar a causa e a hora da morte, já que são fatores determinantes na responsabilização dos envolvidos.

Lentidão nas investigações

O advogado das vítimas também critica o tempo levado para a polícia confiscar os aparelhos celulares dos proprietários do bar.

"Meus clientes temem que as provas sejam alteradas ou destruídas, dada a ausência de buscas e outras medidas decisivas por parte do Ministério Público", declarou Jordan à rede pública suíça RTS.

Ele também lamenta que os dois proprietários não tenham sido imediatamente detidos. "De madrugada, enquanto o estabelecimento ainda estava em chamas, os operadores do bar Le Constellation ou alguém próximo a eles suspenderam o acesso às páginas do Facebook, a todas as redes sociais do estabelecimento onde eram exibidas fotos e vídeos da noite", observou o advogado. "Isso demonstra claramente que havia uma consciência do problema e que foi feita uma tentativa de minimizá-lo", afirmou à RTS.

Esta também é a opinião de Sébastien Fanti, que representa familiares de vítimas no processo. "Imagine se essas pessoas deixassem a Suíça. Então, as vítimas não teriam mais a oportunidade de ter o julgamento que merecem".

A procuradora-geral de Valais, Beatrice Pilloud, havia argumentado que não havia indícios de fuga, conluio ou reincidência dos suspeitos. Porém, o Ministério Público mudou posteriormente de opinião e pediu a prisão preventiva de Jacques Moretti, um dos donos do bar.

Oitivas sem a defesa dos familiares

Ouvido pela RTS, o diretor do centro de direito penal da Universidade de Lausanne, Alain Macaluso, vê outros "aspectos muito preocupantes" na atuação das forças policiais suíças, que atuam sob orientação dos procuradores.

Uma das principais críticas é a de que os advogados das vítimas não puderam acompanhar as oitivas dos suspeitos. Pilloud defende que a medida foi imposta "no interesse de acelerar o processo e evitar vazamentos, dada a natureza de alto perfil do caso".

Para Macaluso, porém, o movimento contraria o código de processo penal suíço. "Muito provavelmente, essas audiências terão que ser completamente refeitas por causa disso", afirmou.

Falta de inspeção no local da tragédia

Autoridades municipais também entraram nos holofotes após ser revelado que nenhuma inspeção de segurança contra incêndios havia sido realizada nas instalações do Le Constellation há cinco anos.

Embora tenham sido realizadas inspeções em 2016, 2018 e 2019, "não foram realizadas inspeções periódicas entre 2020 e 2025", afirmou o prefeito de Crans-Montana, Nicolas Feraud, em uma coletiva de imprensa.

Os promotores disseram acreditar que o incêndio começou quando as pessoas que comemoravam o Ano Novo levantaram garrafas de champanhe com velas acopladas, incendiando a espuma de isolamento acústico no teto do subsolo do bar.

As evidências disponíveis sugerem que a pirotecnia em ambiente fechado somada ao uso indevido de materiais inflamáveis nas instalações, rotas de fuga insuficientes e protocolos frouxos, facilitaram o incêndio, assim como ocorreu na tragédia da Boate Kiss , no Brasil.

Na oitiva, Jacques Moretti ainda afirmou que uma porta de serviço estava trancada, o que pode ter dificultado a fuga dos jovens.

Devido aos problemas nas apurações, a Itália decidiu iniciar sua própria investigação do caso e pretende se juntar ao processo criminal suíço.

gq/le (ARD, AFP, ots)

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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