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Guerra pressiona sistema de saúde do Irã e ameaça pacientes crônicos

17 mar 2026 - 16h51
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Hospitais evacuados, quedas de energia e cirurgias adiadas. O conflito já pressiona o sistema de saúde iraniano e interrompe o tratamento de pessoas que dependem de serviços essenciais.Por trás das linhas de frente de qualquer guerra existe um grupo de pessoas afetadas cujo sofrimento costuma passar despercebido: aquelas cuja sobrevivência depende de medicamentos regulares, consultas médicas ou terapias vitais. Para elas, o conflito não significa apenas explosões e destruição, mas também a interrupção abrupta de seu tratamento.

Segundo OMS, seis hospitais foram evacuados até o momento, como o Gandi, em Teerã, que ficou danificado após um míssil atingir um prédio próximo
Segundo OMS, seis hospitais foram evacuados até o momento, como o Gandi, em Teerã, que ficou danificado após um míssil atingir um prédio próximo
Foto: DW / Deutsche Welle

Fatemeh S. é uma delas. Ela tem câncer e vive no Irã. "Eu preciso urgentemente de uma cirurgia", diz ela em conversa com a DW. Seu estado é crítico, mas só há possibilidade de marcar um procedimento em abril, após o feriado de Ano Novo, o Nowruz. Seu especialista, por enquanto, está inacessível.

É difícil estimar quantos pacientes como Fatemeh estão agora sob enorme pressão psicológica. Pacientes com câncer que precisam de quimioterapia contínua; pessoas com esclerose múltipla que dependem de medicamentos específicos; diabéticos que correm risco imediato se ficarem sem insulina.

Também estão entre os grupos mais vulneráveis pessoas com talassemia, uma anemia hereditária grave, que precisam de transfusões de sangue regulares, e pessoas com hemofilia, para quem até pequenos ferimentos podem ser fatais.

Desde o início da guerra, multiplicam‑se relatos no Irã sobre clínicas particulares e centros médicos que fecharam as portas. Alguns médicos deixaram cidades atingidas por ataques constantes.

Seis hospitais evacuados, 18 atingidos

Hospitais estão com falta de pessoal, cirurgias programadas estão sendo adiadas e serviços essenciais, como vacinação ou tratamento de doenças crônicas, estão sendo interrompidos, confirmam dois médicos e ativistas de direitos humanos, Dr. Hassan Naib Hashem e Dr. Hamid Hematpour, em entrevista à DW.

Ambos são médicos de origem iraniana que vivem na Áustria, mas mantêm contato com uma ampla rede de profissionais de saúde no país. Eles alertam para uma escalada da crise que pode levar ao colapso do sistema de saúde.

"Alguns especialistas em Teerã precisam atender, neste momento, entre 200 e 300 pacientes. Um número muitas vezes superior ao que seria aceitável", afirma o radiologista Hamid Hematpour.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), seis hospitais foram evacuados em meio à operação militar conduzida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Até o momento, ao menos 18 ataques danificaram instalações de saúde, como o Hospital Gandhi, em Teerã. Oito médicos morreram.

Mas Hematpour relata quedas de energia após os ataques também paralisam hospitais, além das falhas de comunicação que dificultam ainda mais o trabalho médico: "Quando a internet e as linhas telefônicas ficam instáveis, a coordenação médica se torna praticamente impossível."

Desde o início do conflito, as autoridades iranianas voltaram a cortar o acesso à internet. Muitos médicos que, por segurança, se deslocaram temporariamente para o norte do país, como Gilan ou Mazandaran, no Mar Cáspio, não conseguem sequer obter informações confiáveis sobre colegas. A telemedicina praticamente parou.

Nessas condições, muitos pacientes crônicos perderam o acesso a seus médicos e a medicamentos essenciais.

Medo de novos desabastecimentos e falta de remédios

Pacientes que dependem de medicação contínua estão cada vez mais preocupados. Alguns medicamentos precisam ser armazenados em temperaturas específicas, e quedas de energia podem inutilizá‑los. Ao mesmo tempo, falhas na distribuição e problemas de importação dificultam cada vez mais o acesso das famílias a remédios vitais.

Apesar das repetidas declarações do Ministério da Saúde iraniano de que há "estoques estratégicos" suficientes, a realidade para muitas famílias é bem diferente: ou esses estoques não existem, ou não conseguem ser distribuídos.

Para pessoas com hemofilia ou doenças genéticas raras, isso é potencialmente fatal, afirma Hematpour. Muitos desses medicamentos já não estão amplamente disponíveis. Se a escassez durar mais do que algumas semanas, esses grupos podem enfrentar uma crise de saúde irreversível.

Hematpour também alerta que o rápido aumento no número de feridos de guerra pode sobrecarregar o sistema de saúde. Em algumas regiões, incluindo as províncias ocidentais de Ilam e Kermanshah, já há falta até de medicamentos básicos e antibióticos.

"No contexto da guerra, o primeiro direito a ser abalado é o mais fundamental: o direito à vida. Quando esse direito central está em risco, outras violações vêm quase automaticamente, como o direito à saúde e ao atendimento médico", afirma o médico e ativista Hassan Nayeb‑Hashem, que vive em Viena.

Ele ressalta que as consequências humanitárias vão muito além do número de mortos: "Experiências de conflitos anteriores mostram que o número de feridos costuma ser de três a seis vezes maior que o de mortos. Muitos deles com incapacidades permanentes."

Segundo a OMS, desde o início da guerra pelo menos 1.255 pessoas foram mortas no Irã e mais de 15.000 ficaram feridas. Por outro lado, a organização afirmou que a "atenção primária e a infraestrutura de saúde do Irã são bastante boas e robustas, e o país consegue absorver as vítimas até o momento".

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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