Guerra moderna desafia aposta militar bilionária da Alemanha
Alemanha aumenta investimentos em defesa. Mas, em meio a conflitos cada vez mais tomados por drones de baixo custo, especialistas defendem que país não pode só apostar em armas tradicionais, como tanques.A proliferação de drones baratos e fáceis de operar, evidenciada nas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, leva a Alemanha a reavaliar suas prioridades militares e a questionar se o aumento bilionário dos gastos em defesa acompanha a transformação do campo de batalha. Críticos afirmam que, sem mudanças estruturais na forma como o país compra equipamentos e organiza sua indústria militar, a expansão dos recursos dificilmente entregará os resultados esperados.
Nos últimos anos, a Alemanha ampliou fortemente seus gastoscom defesa. Além do fundo especial de 100 bilhões de euros (R$ 579 bilhões), criado após a invasão russa da Ucrânia, o governo elevou o orçamento do setor de 62,4 bilhões de euros (R$ 361 bilhões) em 2025 para 82,7 bilhões de euros (R$ 478 bilhões) em 2026. A meta é alcançar 152 bilhões de euros (R$ 880 bilhões) até 2029.
Contudo, o conflito moderno mostra que drones baratos podem ameaçar ou neutralizar sistemas de armas cuja pesquisa, desenvolvimento e fabricação consumiram bilhões. As defesas aéreas ucranianas, por exemplo, têm conseguido resistir a ofensivas russas apesar da inferioridade numérica e orçamentária das Forças Armadas do país.
Por isso, especialistas questionam se os recursos turbinados pelo governo alemão estão sendo aplicados da forma mais eficiente, especialmente após o cancelamento, em junho, do programa do caça franco-alemão FCAS, avaliado em mais de 100 bilhões de euros.
O analista de defesa Nico Lange, ex-integrante do Ministério da Defesa alemão, afirma que o sistema continua disfuncional. "A diferença é que agora se coloca muito mais dinheiro nele. Sem uma mudança real nas estruturas de planejamento militar e de aquisição, os resultados não serão diferentes", disse ao portal Web.de. Um dos principais problemas continua sendo o tempo necessário para adquirir equipamentos.
Alemanha tenta adaptar seus processos
Para alguns parlamentares, a guerra na Ucrânia está forçando uma revisão profunda das prioridades militares alemãs.
Andreas Schwarz, deputado social-democrata e integrante da comissão de defesa do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão, afirma que o conflito transformou a maneira como as guerras são travadas.
Durante visita à Ucrânia neste mês, ele constatou que discussões que dominaram o debate político alemão no início da guerra, como o envio de tanques e mísseis, mudaram de foco.
"Quando estive na Ucrânia na semana passada e visitei o Ministério da Defesa, ninguém me perguntou sobre mísseis Taurus ou tanques Leopard", disse à DW. "O que eles precisam é de ajuda com drones, munição, modernização da infraestrutura de TI, satélites e sistemas de comunicação."
Armas tradicionais continuam relevantes
Max Becker, pesquisador do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), argumenta que a guerra demonstrou justamente a importância de combinar novas tecnologias com equipamentos convencionais.
"Precisamos da combinação correta entre sistemas tradicionais, que continuam necessários, e tecnologia de drones", afirmou à DW. "Esse é o desafio. De um lado, é preciso investir em equipamentos caros, como tanques de combate, cujo prazo de entrega é longo. De outro, é necessário investir em drones e munições vagantes."
Segundo Becker, a estratégia ucraniana baseada em drones surgiu, em parte, por necessidade, diante da escassez de tanques e sistemas de artilharia convencionais.
"Os cenários para os quais a Alemanha e a Otan se preparam são muito diferentes da guerra entre Rússia e Ucrânia, porque a aliança dispõe de capacidades militares distintas", disse.
Schwarz compartilha dessa avaliação. Para ele, tanques continuarão sendo necessários, mas isso não significa que devam permanecer no centro da estrutura militar.
"Não estou dizendo que não precisamos mais de tanques. Sempre precisaremos deles", afirmou. "A questão é saber se ainda são necessários na mesma quantidade e até que ponto podem ser complementados ou otimizados por unidades menores e mais flexíveis."
Os drones, além de mais sofisticados, tornaram-se mais baratos e simples de operar. Alguns modelos militares podem ser controlados por aplicativos em smartphones, dispensando sistemas especializados que antes eram indispensáveis.
Schwarz acredita que tanto o governo quanto a indústria de defesa já compreenderam essa mudança, mas ainda enfrentam dificuldades para transformá-la em políticas concretas.
O desafio da burocracia
O principal obstáculo, porém, continua sendo a lentidão dos processos de aquisição.
Durante décadas, a indústria bélica alemã se concentrou em tecnologias consolidadas, produzidas por grandes empresas como a Rheinmetall. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas organizaram seu planejamento em torno de cenários estratégicos que hoje parecem menos prováveis.
"Temos uma indústria de defesa que se apoiou durante décadas em determinadas tecnologias comprovadas", disse Schwarz. "Também temos um exército que passou anos se preparando para cenários diferentes dos atuais. Mudar essa mentalidade exige disposição para rever conceitos estabelecidos."
Na tentativa de acelerar as compras militares, o governo aprovou neste ano a chamada Lei de Aceleração das Aquisições Militares.
A regra amplia os limites de valor para compras realizadas sem a necessidade de instâncias adicionais de aprovação e reduz exigências burocráticas em contratos de defesa entre governos.
Em um cenário em que drones e outros sistemas podem se tornar ultrapassados em questão de semanas, não faz sentido adquirir grandes volumes de equipamentos para armazenamento prolongado, entende Becker.
"Essa nova lógica surge quando cláusulas de inovação são incorporadas aos contratos de aquisição e obrigam as empresas a atualizar continuamente seus sistemas", afirmou.
Segundo ele, o principal objetivo da Alemanha deveria ser construir uma estrutura industrial capaz de responder rapidamente a novas demandas.
"Não preciso comprar um milhão de drones. Preciso de um estoque para treinamento e exercícios, mas também de capacidade industrial suficiente para iniciar a produção em massa em quatro a seis semanas", disse.
Paralelamente, as Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr) enfrenta dificuldades para atrair novos recrutas. Mesmo com o avanço da automação nos campos de batalha, Schwarz considera o fator humano indispensável.
"Ainda precisamos de pessoas para operar drones e trabalhar com novas tecnologias", afirmou. "Também precisamos fortalecer as forças de reserva e garantir a proteção do território alemão em situações extremas."
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.