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Fuga de Flávio para os EUA aprofunda crise entre Brasil e Washington

28 out 2026 - 17h56
(atualizado às 18h36)
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Resumo
Após perder a eleição para Lula, Flávio Bolsonaro fugiu para os EUA com passaporte retido, obtendo refúgio do governo Trump com auxílio da Argentina de Milei. Investigado no STF e contestando a vitória petista sem provas, o senador intensifica o desgaste diplomático entre Brasília e Washington. Analistas apontam que a acolhida pode servir a interesses políticos internos de Trump, mas enfraquece a imagem externa americana, enquanto o governo Lula avalia o episódio como ingerência estrangeira.

Após perder para Lula em virada histórica, filho de Jair Bolsonaro deixou o país mesmo com passaporte cancelado. Para especialistas, relação entre os dois países sofre baque, mas ruptura ainda é evitável.A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos é mais um capítulo nas relações já estremecidas entre Washington sob Trump e Brasília sob Lula. O petista derrotou, numa virada histórica, o senador do PL. Dois dias depois, nesta quarta (28/10), Flávio pegou ilegalmente um avião para os EUA, mesmo depois de ter sido intimado pela Polícia Federal a entregar os passaportes. O filho de Jair Bolsonaro é investigado por lavagem de dinheiro e favorecimento a plataformas de bets.

Bolsonaro desembarcou com a família nesta quarta em Miami
Bolsonaro desembarcou com a família nesta quarta em Miami
Foto: DW / Deutsche Welle

A entrada de Flávio em território americano foi aprovada pelo governo Trump, segundo a agência Reuters. O candidato derrotado por Lula nas urnas deverá receber abrigo no país. A fuga ocorreu pela Argentina, com ajuda do governo Milei, num jatinho da empresa Bares Fly, que já foi utilizada pelo presidente argentino. A aeronave saiu de Puerto Iguazú por volta da 0h20 e foi flagrada pelo canal argentino C5N.

Para especialistas, a fuga de Flávio para os EUA deve impactar severamente as relações de Washington com o governo Lula, mas ainda é cedo para falar em ruptura diplomática. No entanto, nos últimos meses, uma série de medidas vêm aprofundando uma crise entre Washington e o Itamaraty, como a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, a revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA e os tarifaços.

Além disso, Eduardo Bolsonaro, que, segundo o jornal O Globo, teria articulado a fuga do irmão Flávio, está foragido no país. O 02 da família Bolsonaro foi condenado pelo STF por coagir a Justiça, agindo junto a autoridades americanas para pressionar o Brasil a liberar o pai, Jair, que cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de estado.

Apoio enquanto houver interesse

De acordo com Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a participação de Washington no plano de fuga de Flávio pode ajudar Trump a desviar a atenção da baixa aprovação popular às vésperas das eleições americanas de meio de mandato, em 3 de novembro, nas quais o Partido Republicano corre risco de perder maioria em pelo menos uma das casas legislativas.

"A busca do inimigo externo costuma recompensar bem. Como ele está em dificuldade dentro, ele pode estar buscando fora alguns espantalhos. E o Brasil, como um espantalho, neste momento pode ser conveniente. Mas ele não pode também botar ficha demais, porque os Estados Unidos têm relações com o Brasil, têm um engajamento com o Brasil importante", afirma Lopes, que lembra que algumas sondagens indicam Trump com menos de 30% de aprovação junto à população.

Além disso, os EUA já travam uma guerra contra o Irã desde fevereiro, além de terem invadido, em janeiro, a Venezuela, e capturado o então presidente Nicolás Maduro.

Para Roberto Goulart Menezes, professor titular em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), porém, a chegada de mais um membro da família Bolsonaro aos Estados Unidos pode prejudicar a reputação de Trump.

"Isso não ajuda em nada. A imagem dos Estados Unidos é a imagem que dá guarida para criminoso. Allan dos Santos [investigado no STF e foragido] está lá andando livremente. O Eduardo Bolsonaro também", diz ele, que tampouco descarta que Flávio possa ficar sem apoio se for conveniente ao presidente americano.

Em 2022, também após perder as eleições para Lula e tramar um plano para impedir a posse do petista, Jair Bolsonaro foi para os EUA, mas retornou ao Brasil.

"O Trump tende a ser mais pragmático. Nesse momento, os EUA estão praticamente abandonando o Zelenski [presidente da Ucrânia]. Eles não têm aliados, têm interesses. Se tiver que abandonar, ele abandona", diz Menezes.

"Os Bolsonaro não interessam nada para os Estados Unidos. O que interessa é se eles, uma vez no poder, entregariam o que os EUA querem: se isolar da China, terras raras e tornar o brasil um protetorado. Só que o Brasil não vai se subjugar dessa forma", complementa.

Participação de Milei

Nessa terça, durante o dia, uma reportagem do site Infobae já havia indicado que a fuga de Flávio Bolsonaro ocorreria por Puerto Iguazu. O governo Milei, no entanto, negou a informação de que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro estaria no país. Informações conflitantes divulgadas por aliados, depois confirmadas como falsas, indicavam que ele já havia chegado nos Estados Unidos.

Flávio, no entanto, estava escondido e, com a ajuda de Santiago Caputo, braço-direito de Javier Milei, chegou ao aeroporto de Puerto Iguazú somente à noite, horas depois da divulgação da informação de que já estaria nos EUA. Nesta quarta-feira, em uma carta golpista divulgada após aterrissar em solo americano, Flávio agradeceu a Milei pela ajuda na fuga.

Até agora, relações entre o governo Milei e Lula são mínimas. Após a vitória de Lula nas urnas, o governo Milei, que apoiou Flávio Bolsonaro nas eleições perdidas pelo senador para o líder do PT, disse que não reconheceria o resultado do pleito.

"O Milei deve o cargo ao Trump e ainda parece ser o true believer, ele está ali porque acredita nessas coisas da extrema-direita em boa medida", diz Dawisson. "Ele é um engajado desde sempre nessa cantilena direitista e está colaborando, está cooperando, fazendo disso uma profissão de fé. Mas isso não surpreende ninguém. A Argentina nem sequer cumprimentou o presidente Lula pela vitória eleitoral. Mas não cabe à Argentina nem aos Estados Unidos reconhecer nada."

Falta de argumentos

Até a tarde desta quarta-feira, o governo americano tampouco havia reconhecido a vitória de Lula. Um dos pontos centrais para isso foi o questionamento, sem qualquer tipo de provas, do resultado das eleições em que Flávio sofreu uma virada inédita entre o primeiro e o segundo turnos e ainda ficou 4,4 milhões de votos atrás de Lula. O senador pelo PL afirmou, logo após a confirmação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que iria contestar a vitória do petista.

O argumento era a prorrogação do período de votação por duas horas no domingo (25/10), medida autorizada pelo STF, mas que foi pedida tanto pelo PT quanto pelo PL, partido de Bolsonaro. Além disso, os votos contabilizados nesse período extra foram deapenas cerca de 35 mil, sendo a grande maioria deles nos primeiros cinco minutos após as 17h, o que indica que eram de pessoas que estavam na fila .

A tese, sem provas, de questionar as urnas, argumento usado repetidamente por Trump e aliados como os Bolsonaro em derrotas eleitorais, também foi encampada pelo presidente americano novamente na segunda (26/10), usando o Brasil como exemplo.No mesmo comentário, porém, Trump disse que "gosta" do presidente reeleito.

Para Dawisson Belém Lopes, da UFMG, o resultado com certa folga para Lula enfraquece ainda mais o argumento de Trump e Flávio. "Isso diminui a alavancagem do Trump", ressalta. "Quem não conhece o processo aqui, olha e diz: bom, ele ficou 4 milhões e meio de votos à frente, não tem nem o que questionar."

Desde domingo, todos os partidos brasileiros reconheceram a reeleição de Lula, inclusive o PL de Flávio. O vice dele na chapa, Alfredo Gaspar, também. Na opinião de Menezes, da UnB, isso só torna a tese de Flávio ainda mais insustentável e aponta, por outro lado, para a suspeita de que o senador esteja fugindo de uma possível prisão, já que ele é alvo de três investigações só no STF por desvio de dinheiro público, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Em poucas semanas, porém, Lula terá a oportunidade de discutir o caso pessoalmente com Trump. Em dezembro, os dois líderes participam da cúpula do G-20, em Miami.

"Acho que agora o presidente Lula vai entrar em cena. Significa que ele vai querer saber do próprio Trump o que está se movimentando. Se ficar claro que é uma ação orquestrada pelos Estados Unidos, vai ser considerada uma ingerência, se é parte de um ataque dos EUA contra o Brasil. Uma coisa é ele chegar sozinho. Outra é ter o nome na Interpol e ser recebido pelas autoridades com passaporte cancelado", diz o professor titular da UnB.

Na tarde desta terça, parlamentares do PT entraram com um pedido na Justiça para que o nome de Flávio fosse incluído no alerta vermelho da Interpol.

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