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Fechamento do Estreito de Ormuz é grave para a Ásia, mas afeta o mundo todo de diversas maneiras

O controle dos gargalos comerciais marítimos confere um tipo de poder que não depende de orçamento militar nem de arsenal nuclear. Basta ter posição geográfica e disposição para usá-lo

18 mar 2026 - 12h18
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A crise no Golfo Pérsico confirma o que a pesquisa sobre mobilidade e fronteiras marítimas já indicava: quem controla os fluxos no mar controla a política internacional. O bloqueio de um corredor de pouco mais de 30 quilômetros está abalando a economia global — e o preço da gasolina no Brasil.

Quem pesquisa a relação entre mobilidade e fronteiras, em especial no mar, reconhece há tempos uma verdade incômoda: a ordem política moderna foi construída sobre o controle de fluxos marítimos. Costumamos pensar em fronteiras como linhas traçadas em terra firme, mas as fronteiras que mais importam para a economia global são as que cortam a água.

Nas últimas duas semanas, essa verdade acadêmica ganhou a forma mais concreta possível. Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos coordenados contra o Irã — a operação que o Pentágono batizou de Epic Fury. O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, foi morto em bombardeios em Teerã. O Irã retaliou em horas com mísseis e drones contra bases americanas, território israelense e países vizinhos.

Mas a resposta iraniana mais consequente não veio pelo ar. Veio pelo mar. Em 2 de março, a Guarda Revolucionária declarou o Estreito de Ormuz formalmente fechado e prometeu atacar qualquer navio que tentasse cruzar. Não era blefe. O barril de Brent, que estava na faixa dos US$ 70 antes dos ataques, chegou a US$ 119 na segunda semana de março — a maior cotação desde 2022.

Por que o mar importa mais do que pensamos

Há uma tendência, nos debates públicos, de tratar conflitos internacionais como disputas entre exércitos em terra. Mas a globalização não se sustenta sobre estradas — sustenta-se sobre rotas marítimas. Cerca de 80% do comércio mundial, em volume, viaja por mar. E esse comércio depende de um punhado de gargalos geográficos: Ormuz, Suez, Malaca, Bab el-Mandeb, o Estreito da Dinamarca.

O controle desses gargalos confere um tipo de poder que não depende de orçamento militar nem de arsenal nuclear. Basta ter posição geográfica — e disposição para usá-lo.

O Estreito de Ormuz é o mais crítico deles. Fica entre o Irã e Omã, tem cerca de 33 quilômetros no ponto mais estreito, e as faixas de navegação úteis somam menos de oito quilômetros. Por esse corredor passam, em condições normais, aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo por dia — um quinto do consumo global — e cerca de 20% do gás natural liquefeito comercializado no mundo, quase todo vindo do Catar.

A geografia crítica nos ensina que o espaço nunca é neutro: ele é produzido, disputado e controlado por relações de poder. Ormuz é a demonstração mais evidente desse princípio. Não é só um acidente geográfico — é uma fronteira líquida onde se decide quem tem acesso à energia e quem não tem.

Para quem o bloqueio é mais grave

Quase 90% do petróleo que transita por Ormuz vai para a Ásia. A China sozinha recebe cerca de 38% dos fluxos. Índia (15%), Coreia do Sul (12%) e Japão (11%) completam o quadro. Essa concentração transforma o fechamento do estreito numa questão de sobrevivência econômica para a Ásia industrializada — não à toa, o Japão pediu liberação de estoques e a Coreia do Sul convocou reuniões de emergência nas primeiras horas da crise.

O Catar, segundo maior exportador mundial de gás natural liquefeito, depende quase integralmente do estreito para escoar sua produção. No início de março, o ministro de Energia catari alertou que a continuidade da guerra poderia forçar outros produtores do Golfo a suspender exportações. É precisamente essa dependência concentrada que torna a estratégia iraniana tão eficaz.

O Irã e a arma que nenhum míssil substitui

O Irã não tem como vencer Estados Unidos e Israel no ar. Sua aviação de combate é obsoleta e suas defesas antiaéreas foram degradadas nos primeiros dias de bombardeio. Mas Teerã controla ilhas estratégicas dentro e ao redor do estreito — incluindo as disputadas Abu Musa e Tunb, ocupadas desde 1971 com soberania contestada pelos Emirados. De lá operam mísseis, drones navais e lanchas rápidas.

E há uma arma ainda mais antiga — e mais difícil de neutralizar. Em meados de março, fontes de inteligência americanas confirmaram que o Irã começou a depositar minas navais no estreito. Poucas dezenas até agora, mas o arsenal iraniano é estimado em 5.000 a 6.000 unidades. Uma mina custa alguns milhares de dólares e pode causar danos de dezenas de milhões. Os EUA destruíram 16 embarcações mineiras, mas o grosso da frota iraniana de pequenas embarcações permanece intacto — e a simples suspeita de minas na água já basta para manter o tráfego paralisado.

Em termos de geopolítica dos fluxos, o que o Irã fez foi converter um corredor de circulação global em zona de interdição — com mísseis, drones, embarcações-suicidas e agora minas. É verdade que não está claro por quanto tempo Teerã conseguirá manter esse bloqueio diante da pressão militar americana. Mas o ponto central é outro: mesmo que o estreito reabra em semanas, o Irã já demonstrou que um Estado com capacidade militar limitada pode, por meio do controle de um gargalo marítimo, impor custos econômicos a todo o planeta. Essa demonstração não se desfaz com um cessar-fogo.

Em 9 de março, Mojtaba Khamenei — filho do líder morto — foi nomeado novo líder supremo. Três dias depois, em sua primeira declaração pública, afirmou que o estreito permanecerá fechado como instrumento de pressão.

Por que porta-aviões não resolvem

Os Estados Unidos responderam com força militar — a Quinta Frota no Bahrein, promessa de escoltas navais, fuzileiros deslocados do Japão. Mas duas semanas depois, nenhum comboio começou a funcionar. A indústria naval não quer arriscar tripulações num corredor com mísseis, drones e agora possivelmente minas.

Existem oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados que desviam parte da produção por terra. Mas a capacidade disponível, segundo a AIE, é de 3,5 a 5,5 milhões de barris por dia — no máximo 27% do que normalmente transita pelo estreito. Em 11 de março, os 32 países da AIE aprovaram a liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas, a maior intervenção da história da instituição. Ainda assim, para o grosso do fluxo, não há alternativa.

É aqui que a análise geopolítica dos fluxos marítimos encontra seu ponto mais incômodo. A economia global construiu toda a sua infraestrutura energética sobre a premissa de que Ormuz estaria sempre aberto. Essa premissa acabou. Há quem argumente que a transição energética já está tornando essa dependência irrelevante — e o argumento não é trivial. Mas o ritmo da transição é lento, e a crise é agora.

E o Brasil?

O Brasil não importa petróleo por Ormuz. Mas o preço do petróleo é formado em mercados globais. Quando o barril pula de US$ 70 para quase US$ 120 em duas semanas, os efeitos chegam à bomba de gasolina, ao custo do frete, à inflação. Não importa a origem do petróleo que abastece o país — importa o preço que o mercado internacional impõe a ele. Ormuz é um lembrete concreto de que a segurança energética não é um tema de países distantes que importam petróleo do Golfo — é uma questão que afeta o custo de vida de todos nós.

E é, acima de tudo, uma confirmação do que a pesquisa sobre mobilidade e fronteiras marítimas vem demonstrando: na era da globalização, o poder se exerce menos pela conquista de territórios do que pelo controle dos corredores que conectam esses territórios. A política internacional não se decide apenas em capitais e campos de batalha — decide-se nos estreitos, nos canais, nos gargalos por onde a economia mundial precisa passar. O Irã, numa faixa de 30 quilômetros de água, acaba de tornar isso impossível de ignorar.

Nota: Os dados de fluxo energético provêm da EIA e da AIE (Q1 2025). Informações sobre minas navais baseiam-se em reportagens da CNN, CBS News, CNBC e Reuters de 10-12 de março de 2026. Demais informações sobre a Operação Epic Fury refletem fatos disponíveis até 16 de março de 2026.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Francisco Eduardo Lemos de Matos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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