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'Fandoms' em ação: estudo mostra como os fãs de cultura pop ajudaram na reeleição de Lula

A mobilização nas redes e nas ruas de fãs brasileiros de grandes ídolos do pop mundial também fizeram a diferença nas eleições de 2026

2 nov 2026 - 09h44
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Resumo
Um estudo do CULTPOP da UFF revelou que a mobilização de fandoms de cultura pop foi decisiva para a reeleição de Lula no segundo turno de 2026. Fãs de artistas como Beyoncé e BTS suspenderam rivalidades e usaram táticas digitais gamificadas, humor irônico e inteligência artificial para engajar eleitores e convocar atos pró-democracia. A pesquisa destaca a inédita fusão entre a cultura dos fãs e o ativismo político progressista para reverter um resultado eleitoral adverso nas redes sociais.

No dia 04 de outubro de 2026, após a apuração do primeiro turno das eleições presidenciais, algo inédito aconteceu nas redes sociais brasileiras. Os fandoms, perfis dedicados a reunir fãs de artistas internaionais como Beyoncé, Taylor Swift, Olivia Rodrigo, Lady Gaga, Blackpink e BTS, cada um com centenas de milhares de seguidores, ofereceram suas páginas para a campanha de reeleição do presidente Lula. Essa mobilização terminou por contribuir significativamente para o resultado das urnas no segundo turno.

As postagens feitas pelos fandoms ao longo da campanha também convocavam a comunidade de admiradores dos artistas pop para as manifestações que ocorreram nas ruas em defesa da democracia e contra o fascismo. Entre as ações combinadas, houve até um trégua nas chamadas fanwars - disputas acaloradas e muitas vezes até agressivas entre grupos de fandoms rivais - até o final do segundo turno.

Termos como fanwars e fandoms ainda são novidade para grande parte das pessoas, mas fazem parte do cotidiano do Laboratório de Pesquisa em Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias (CULTPOP) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Após o primeiro turno das eleições, as redes sociais pessoais dos integrantes do laboratório foram inundadas por posts de fandoms. Diante do evidente fenômeno, a equipe do laboratório parou todas as suas pesquisas individuais e organizou uma força-tarefa para analisar os acontecimentos. Os resultados ajudam a explicar como a mobilização digital dos fãs contribuiu no esforço coletivo que resultou na mudança de rumos da eleição.

Uma força tarefa de pesquisa

Desde sua fundação, em 2011, o CULTPOP trabalha para compreender as relações entre entretenimento, cultura pop e a sua circulação de conteúdos nos ambientes da cultura digital. O laboratório é vinculado ao Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq e sediado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF, dentro do departamento de Estudos Culturais e Mídia.

Mais de 20 pesquisadores participaram do estudo. O time dedicou de seis a oito horas diárias na observação e análise das movimentações ativistas dos fãs. Até o dia 20 de outubro, foram coletados aproximadamente 6.500 posts nas plataformas digitais X, Threads, TikTok e Instagram, com auxílio de softwares. A equipe acompanhou duas manifestações de apoio a Lula em São Paulo, e analisou materiais complementares no YouTube.

Este trabalho intenso resultou na publicação de um relatório, de abordagem qualitativa e exploratória, sobre o ativismo político de nichos de fãs, como gamers, nerds, k-poppers. A pesquisa também analisa as técnicas e estratégias de comunicação utilizadas pelos fãs.

Os resultados da pesquisa ajudam a entender a campanha digital que, pela primeira vez na história do Brasil, elegeu um candidato a presidente derrotado no primeiro turno. A grande novidade foi o cruzamento entre ativismo político e técnicas de engajamento usadas por fãs há décadas, como a mobilização coletiva para subir determinada hashtag no X ou aumentar a quantidade de visualizações de um vídeo no YouTube. Para isso, os fãs ativistas sincronizaram suas ações e metas por meio de canais em plataformas digitais, como WhatsApp e Instagram.

O ativismo 'gamificado' venceu o jogo

A cada tarefa cumprida, novas metas e prazos eram definidos, mantendo os grupos motivados e focados. Este tipo de ativismo altamente 'gamificado' já é estudado há pelo menos uma década. Um exemplo é o trabalho de Katherine Cross sobre o GamerGate, movimento antifeminista ligado à comunidade de jogos eletrônicos que ganhou força em 2014.

Porém, este tipo de estratégia é muito mais comum nas mobilizações digitais da extrema-direita do que no ativismo progressista. A expertise dos fãs foi crucial para sua adoção nesta campanha.

Identidades culturais e uso de IA

Outro achado importante foi a centralidade das identidades nas mobilizações. Os grandes protagonistas do movimento foram os fãs de música pop, especialmente de divas e k-pop, um grupo com grande participação de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. Esses grupos levaram para a campanha suas gírias, seus memes e suas referências culturais, abusando da ironia cáustica e das referências pop.

Essas expressões são cruciais para o desenvolvimento do dark woke, um novo modo de expressão progressista nas redes que privilegia o conflito, o sarcasmo e a responsabilização do outro em vez do discurso mais conciliatório e acolhedor que dominava a esquerda digital até então.

Os pesquisadores também identificaram o intenso uso de IA generativa para a produção de memes, vídeos e materiais informativos criativos como uma virada estratégica relevante, já que ativistas progressistas se mostravam bem críticos e avessos à sua adoção até o segundo turno. Todas essas estratégias de fãs incorporadas à campanha, ajudaram a mudar a dinâmica da campanha eleitoral.

O relatório traz também um panorama histórico do ativismo de fãs nas últimas décadas no Brasil e no mundo, estudos de caso do posicionamento ativista de cada nicho de fandom e suas táticas e exemplos de posts e abordagens estratégicas observadas. O material pode ser lido e baixado gratuitamente neste link.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Adriana Amaral recebe financiamento do CNPq - Bolsa PQ - Processo 312327/2025-0

Beatriz Blanco recebeu financiamento da CAPES.

Luisa de Mesquita recebeu financiamento da CCPG/PUC-Rio e CAPES e é membra da organização B-ARMYs Acadêmicas.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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