Extensão do horário de votação teve impacto bem limitado
A prorrogação de duas horas na votação do segundo turno, determinada pelo STF, teve impacto irrisório no resultado da eleição presidencial. Apenas cerca de 34 mil votos (0,03% do total) foram registrados após as 17h, a maioria por eleitores que já estavam nas filas, número insuficiente para alterar a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro por mais de 4,4 milhões de votos. Apesar de ameaçar contestar o pleito devido à extensão, Flávio recuou e decidiu focar em ações por abuso de poder econômico.
Cerca de 34 mil votos, ou 0,03% do total na eleição, foram registrados depois das 17h - a maioria nos minutos imediatos, de eleitores que provavelmente já aguardavam na fila. Lula venceu Flávio por 4,4 milhões de votos.A prorrogação por duas horas do horário de votação determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) teve impacto limitado sobre o total de votos registrados no segundo turno da eleição presidencial. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas pouco mais de 34 mil votos foram registrados em urnas após as 17h de domingo (25/10).
De acordo com dois levantamentos realizados pelo jornal Folha de S.Paulo e pela rede CNN, 34.330 votos foram registrados depois das 17h de domingo. Já o portal G1 chegou a número um pouco diferente, mas também limitado, apontando 35.521 votos computados após as 17h. Todos os veículos destacam que se basearam em dados do TSE.
Esses cerca de 34 mil a 35 mil votos depositados entre 17h e 19h representam apenas 0,03% dos 127,8 milhões de votos registrados em todo o país durante o segundo turno.
Essas poucas dezenas de milhares de votos não influem nem de perto no resultado final. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com uma vantagem de cerca de 4,4 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro (PL). No total, o presidente recebeu 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio. A distância entre os dois candidatos foi de 3,5 pontos percentuais, ou 4,43 milhões de votos.
Os levantamentos analisaram os logs de mais de 490 mil urnas utilizadas no Brasil no domingo. Entre outras informações, esses arquivos, que funcionam como um "diário de bordo" da urna, registram o horário em que cada eleitor foi habilitado a votar.
Maioria dos votos extras foi registrada minutos após 17h
Dos votos registrados após as 17h, a maior parte ocorreu imediatamente depois do encerramento regular da votação. Foram 29.001 (84,5%) nos primeiros cinco minutos, segundo a CNN. Depois das 18h, apenas 1.993 votos foram computados, e somente 11 entraram após as 19h.
Essa concentração nos primeiros minutos indica que boa parte desses eleitores já estava na fila ou votando quando o relógio alcançou 17h. Normalmente, pelas regras eleitorais, quem já está na fila pode votar mesmo após o encerramento do horário.
Normalmente, pelas regras eleitorais, quem já está na fila pode votar mesmo após o encerramento do horário. Segundo a CNN, das 497.897 urnas do país, 468.043, ou cerca de 94%, não receberam nenhum voto depois das 17h.
No primeiro turno, quando eleitores de todo o país tiveram que registrar seis votos (presidente, senadores, governador e deputados) e as filas demoraram mais, pouco mais de 3,7 milhões de eleitores votaram depois das 17h, sem que uma prorrogação nacional estivesse em vigor.
Apesar da votação pífia na prorrogação, Flávio falou inicialmente em contestar eleição
Após o anúncio do resultado que deu a vitória a Lula, o candidato Flávio Bolsonaro se recusou a reconhecer a derrota. Num primeiro momento, Flávio argumentou que o processo eleitoral não havia transcorrido de maneira "normal" e que, por isso, não era possível "aceitar o resultado dessas eleições", classificando ainda o resultadocomo uma "sacanagem".
"É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico e vamos pedir a anulação dessas eleições", disse ele no domingo de noite.
Flávio elaborou inicialmente que sua posição de não reconhecer o resultado se devia à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que determinou a prorrogação do horário de votação em duas horas em todo o país. A prorrogação atendeu a um pedido do PT, que apontou que diversas cidades haviam prejudicado o deslocamento de eleitores ao não disponibilizarem ônibus suficientes, no que foi visto como uma tentativa de supressão de votos.
A decisão de Zanin, inédita e divulgada pelo Supremo um minuto depois das 17h, quando milhares de seções eleitorais já haviam sido fechadas, acabou inicialmente provocando confusão e dúvidas entre mesários e chefes de seção. Como consequência, a divulgação da contagem também foi atrasada em duas horas.
Apesar de a decisão de Zanin ter sido posteriormente referendada por um movimento semelhante do ministro Kassio Nunes Marques, que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e é visto como um aliado do bolsonarismo, Flávio ainda disse ver o movimento de prorrogação como inaceitável.
PL também pediu prorrogação
O PT, no entanto, não foi a única parte a pedir uma prorrogação do período reservado para a votação. Ainda no início da tarde de domingo, o PL, de Flávio, pediu uma prorrogação semelhante em 17 municípios, alegando que chuvas e alagamentos haviam prejudicado o movimento de eleitores nesses locais.
Apesar das acusações iniciais de Flávio sobre a prorrogação, Nunes Marques, do TSE, afirmou que a segurança das eleições não foi comprometida.
"Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial. Houve prorrogação na forma em que foi decidida. O TSE cumpriu a decisão nos estritos termos em que ela foi proferida e logo após demos fluência à totalização e à disponibilização. Então, temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral", disse Nunes Marques ao anunciar o resultado das eleições.
A posição inicial de Flávio sobre contestar as eleições também não foi compartilhada por todo o campo politico do candidato. O presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), que apoiou Flávio no segundo turno, reconheceu o resultado e declarou "se curvar à maioria". Até mesmo o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais agitadores digitais do bolsonarismo, disse reconhecer que "a chance de anular essa eleição é praticamente nula" e pediu "prudência" para os apoiadores de Flávio.
Já nessa segunda-feira, Flávio voltou atrás em pedir a anulação usando a prorrogação como argumento.
Após conversas com aliados e advogados, Flávio nunciou que pretende entrar com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), pedindo a cassação da chapa de Lula por suposto abuso de poder econômico, argumentando que o presidente tomou medidas eleitoreiras durante o processo eleitoral.
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