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Exibicionismo, uma silenciosa violência sexual de cada dia

6 set 2026 - 04h53
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Resumo
O exibicionismo, classificado pela OMS como transtorno parafílico, consiste na exposição não consentida da genitália em público visando excitação sexual. Praticado sobretudo por homens contra mulheres e crianças, esse crime sexual gera graves traumas psicológicos às vítimas, alterando rotinas pelo medo. Embora punida por leis internacionais e enquadrada como importunação sexual no Brasil, a prática enfrenta alta subnotificação e impunidade, reforçando a urgência de denúncias e maior rigor policial.

Compulsão por mostrar a própria genitália está associada a transtorno mental. Criminalizadas em vários países, agressões miram sobretudo mulheres ou crianças.Quando Jonas (nome fictício), de 8 anos, voltava da escola numa típica tarde de segunda-feira em Bonn, na Alemanha, ele e uma amiga foram atraídos pelo que lhes pareceu ser um pedido inocente de ajuda. Saído de uma rua lateral, um homem queria saber "se eles tinham visto um gato preto por aí". As crianças se puseram imediatamente a procurar o suposto bichano perdido.

Crianças e adolescentes estão entre os grupos mais visados pelas abordagens exibicionistas, tipicamente em áreas verdes ou pouco movimentadas
Crianças e adolescentes estão entre os grupos mais visados pelas abordagens exibicionistas, tipicamente em áreas verdes ou pouco movimentadas
Foto: DW / Deutsche Welle

Mas o desconhecido abriu as calças e lhes exibiu a própria genitália, na altura dos olhos dos meninos. O mesmo adulto abordaria, instantes depois, outro menor de idade, a metros de distância de Jonas. Apenas algumas horas antes e na mesma região, um caso semelhante já fora reportado à polícia da cidade.

Especialmente para rotas curtas e cotidianas nas cidades menores, as crianças costumam ganhar cedo a liberdade de ir e vir sozinhas na Alemanha. Mas em Bonn, com pouco mais que 300 mil habitantes e atmosfera majoritariamente sossegada, repetidas ocorrências do que Jonas viveu rachariam a rotina de uma zona residencial.

"Desde então, eu monitoro mais onde ele está ou quando ele sai da escola. Peço que, se possível, ele evite andar sozinho," disse a mãe do menino, três meses após o incidente. "Agora, ele costuma ir para a escola de bicicleta, e não mais a pé."

A família, no mesmo dia, procurou a delegacia. Primeiro, Jonas pediu desculpas, julgando ter responsabilidade pelo que lhe acontecera. Em seguida, os pesadelos com um monstro mau, antes esporádicos, se tornaram frequentes. E ele não esqueceria o gato preto: ao passar de novo pelo local onde o estranho cruzara o seu caminho, voltaria a procurá-lo. Ou, quando de fato viu um felino daquela cor, ficou se perguntando se seria aquele o animal (falsamente) desaparecido.

"Ele expressa no cotidiano sinais de medo, mas não sabe bem do quê," relata a mãe. "Os resquícios dessa experiência ficaram dentro dele."

Este e episódios semelhantes começaram a correr no boca-a-boca, levando os pais das crianças afetadas a se juntarem. Eles reuniram 26 casos relatados pelos seus filhos, entre outubro de 2024 e maio de 2026, com os contornos discerníveis de um mesmo modus operandi. As descrições lhes apontavam, ao mesmo tempo, para a probabilidade de mais de um executor das abordagens.

A polícia de Bonn, enquanto isso, recebeu 120 denúncias desde 2024 até 19 de julho de 2026, incluindo 71 na região onde moravam estas famílias. Do total, foram identificados suspeitos em 26 casos até meados de agosto, disseram as autoridades locais em nota à DW.

Trauma para crianças

A maioria das famílias em Bonn poderia não saber a fundo até então, mas mostrar órgãos genitais para estranhos em espaços públicos leva o nome de exibicionismo. Os executores deste tipo de agressão são quase sempre homens, movidos por uma excitação sexual que deriva de ver o choque nos olhos do outro.

Em geral, os exibicionistas usam roupas que podem ser rapidamente abertas e fechadas, para agir discretamente e causar susto. É frequente que eles passem à masturbação ou ao orgasmo depois de se exibirem, embora raramente encostem nos seus alvos - ao contrário do frotteurismo, cujos praticantes tocam outra pessoa ou se esfregam nela sem consentimento.

As principais vítimas são mulheres jovens, adolescentes e crianças, apontam conjuntos de dados em diferentes países. A psicóloga Anke Voßhenrich, do Centro de Aconselhamento contra Violência Sexualizada em Bonn, estima já ter atendido uma dezena de casos de menores de idade que passaram por episódios exibicionistas, ao longo de décadas de carreira num centro de atendimento especializado para vítimas de violência sexual em Bonn.

"As crianças são mais vulneráveis e não podemos prepará-las completamente para que algo assim aconteça. Elas costumam pensar: 'será que eu deveria ter ido por outro caminho?' ou 'eu deveria ter olhado de outra forma?'," relata.

A família de Mia (nome fictício) procurou ajuda quando a menina de 9 anos entrou, em outubro, para a lista de alvos das abordagens exibicionistas na cidade do oeste alemão. "Ela chegou em casa naquele dia gritando, chorando e tocando a campainha violentamente", conta a mãe.

Nas primeiras duas noites, ela não dormiu. Ao fechar os olhos, só conseguia lembrar da imagem do pênis que lhe havia sido exposto. E, assim como Jonas, trocaria as caminhadas para a escola pelo patinete. "A psicóloga deu uma pedrinha para ela segurar quando sentisse medo. E ela carregou aquela pedrinha por semanas."

Segundo Voßhenrich, é importante que os adultos evitem reações desesperadas na frente da criança que passa por este tipo de experiência. O principal, afirma, é deixar claro que ela não tem culpa e que nenhum adulto tem autorização para fazer aquilo. Ela recomenda também oferecer orientações de antemão sobre como agir neste tipo de situação: dar o mínimo de atenção possível ao perpetrador e imediatamente se dirigir para casa, ou outro lugar seguro.

"O crime sexual mais frequente"

Em toda a Alemanha, foram registrados 7.581 casos no ano passado contra pessoas adultas e outros 1.496 contra crianças até 14 anos, com os suspeitos sendo 67 mulheres e 4.756 homens. O Código Penal alemão prevê até um ano de prisão ou multa quando os alvos são maiores de idade.

No caso de vítimas até 14 anos, o exibicionismo cai numa categorização de crime mais ampla, que envolve outras condutas e é passível de pena entre seis meses e dez anos.

"A exposição indecente, que inclui o exibicionismo, é o crime sexual mais comum. Há muito mais autores deste tipo de ato do que de abuso sexual infantil, por exemplo," diz Nina ten Hoor, psicóloga forense que há anos atende exibicionistas em tratamento e pesquisadora da organização Especialistas em Cuidados Forenses, na Holanda.

A pena padrão para atos exibicionistas no país é uma multa de até 750 euros (R$ 4,5 mil), eventualmente somada a algumas horas serviços à comunidade, excluídos crimes com agravantes ou, então, reincidências.

Transtorno parafílico diagnosticado

No âmbito da medicina, o exibicionismo é listado pela Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS), como um transtorno parafílico quando vira um padrão intenso de excitação sexual atípica, resultando em danos ou riscos àquele que se exibe ou às suas vítimas.

Os exibicionistas compulsivos chegam a executar as abordagens até dezenas ou centenas de vezes antes de responderem pelos seus atos, apontam especialistas ouvidas pela DW.

"A excitação sexual os coloca numa bolha, e eles não pensam nas outras pessoas. Quando ela passa, alguns se sentem culpados. Mas a maioria não está realmente consciente das consequências para as vítimas. Eles acham que a maior parte das pessoas estará interessada nisso ou que elas não vão ser negativamente impactadas," explica ainda ten Hoor.

Quem estuda o assunto aponta à importância de melhor monitorar e investigar este crime sexual, punindo perpetradores, em nome da prevenção; e, também, de evitar simplificações estigmatizantes sobre aqueles que sofrem da compulsão associada à doença mental. Para os condenados na Alemanha, por exemplo, a liberdade condicional pode ser concedida caso se preveja que o infrator só deixará de cometer atos de exibicionismo após longo tratamento médico.

Ao mesmo tempo, o impacto psicológico para as vítimas pode ser limitante, se assemelhando àquele que costuma seguir outros tipos de crime sexual - por exemplo, os sentimentos de violação, nojo, culpa ou vergonha. Algumas pessoas experimentam ainda, conforme indicou um estudo com 459 estudantes de graduação nos Estados Unidos, mudanças de comportamento e sofrimento de longo prazo.

"O medo e a desconfiança podem impactar alguém. Porque a vítima não sabe qual foi a intenção daquela pessoa, ou se ela queria causar um mal", afirma Elizabeth Jeglic, coautora da pesquisa e professora de Psicologia na Faculdade John Jay de Nova York. "É algo que pode causar trauma. E não apenas um crime de perturbação da ordem pública."

No Brasil, importunação sexual é tipificada

Não há dados específicos para atos exibicionistas no Brasil, mas, sim, para registros de ocorrências de importunação sexual, crime tipificado em 2018, com pena prevista de um a cinco anos de reclusão. Estão abarcadas várias condutas de natureza sexual praticadas sem consentimento, como toques, gestos e abordagens inapropriadas, estejam elas potencialmente associadas ou não a transtornos parafílicos.

Em 2025, chegaram ao conhecimento das autoridades 41.425 casos de importunação sexual em todo o país, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime em 2018, cresceram vertiginosamente os registros listados anualmente pelo relatório. Em comparação aos 1.352 casos daquele ano, o aumento foi de dez vezes para os 13.576 de 2019; e, depois, de 30 vezes para o total do ano passado.

Ao contrário do assédio sexual (com 9.031 registros no ano passado), a importunação se diferencia pela falta de vínculo ou de relação de poder entre agressor e vítima. Ainda assim, as mulheres e crianças são as principais afetadas.

O estado do Rio de Janeiro, por exemplo, bateu recorde de 2.723 casos registrados contra meninas e adultas no ano passado, de acordo com um dossiê do Instituto de Segurança Pública (ISP), ligado ao governo fluminense. A maior fatia das vítimas estava na faixa entre 18 e 29 anos (35%), seguida pelo grupo de 0 a 17 anos (27%).

Na avaliação de Vanessa Campagnac, vice-presidente do ISP, a tipificação contribui para desnormalizar as agressões sexuais de cada dia, que geralmente acontecem em público, tanto entre as vítimas quanto nas delegacias. "A gente tem que ter muito cuidado com a formação desses policiais. Para que eles entendam a gravidade do problema e não revitimizem quem denuncia a importunação sexual," avalia.

Subnotificação é a regra

No Brasil ou fora dele, é raro que estes casos cheguem ao conhecimento das autoridades — a subnotificação é a regra, sabem as especialistas. Quando se concretiza a denúncia, as polícias de diversos países tendem a dispensar menor atenção às agressões sexuais sem toque físico, em comparação ao estupro e mais formas de abuso.

Pesa também, para as vítimas, a dificuldade de provar as abordagens discretas, que não raro acontecem às escondidas, em lugares ermos, como parques ou ruas pouco movimentadas.

Entre as famílias afetadas pela onda de casos exibicionistas em Bonn, houve frustração com o fato de os homens descritos pelos seus filhos nunca terem sido punidos. Segundo a polícia, um suspeito chegou a ser preso provisoriamente desde 2024 e, depois, liberado por falta de motivos para a prisão, conforme uma análise do Ministério Público.

Enquanto isso, os pais da região criaram uma campanha de sensibilização, convidando a comunidade a se fazer mais atenta ao ver crianças zanzando sem adultos. "É um direito fundamental aqui que as crianças sejam independentes desde muito cedo", conta Jennifer Thomé, uma das mães que se mobilizou.

Numa carta de junho enviada às famílias, a polícia de Bonn indicou que a repetição das abordagens exibicionistas era uma grande preocupação para a sua equipe. A corporação afirmou estar fazendo todo o possível para garantir a segurança das crianças a caminho da escola, em parques infantis e nas zonas residenciais.

Oficiais foram sensibilizados sobre o tema, e o patrulhamento foi intensificado nas zonas mais afetadas, inclusive com operações à paisana, acrescentou a carta. As investigações teriam sido consolidadas numa unidade especializada.

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