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Estudos mostram que a genética pode influenciar lesões em atletas

As lesões esportivas não dependem apenas do treinamento, da técnica ou de fatores ambientais. A genética também influencia como o organismo responde ao esforço físico, à dor, à inflamação e à recuperação de lesões

18 jun 2026 - 12h52
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Existe uma realidade que muitos conhecem, mas poucos enxergam. Para alcançar o melhor desempenho, os atletas precisam dedicar horas intensas de treinamento. Isso pode causar fadiga muscular e microlesões que se acumulam ao longo da carreira.

As lesões são conhecidas como um calcanhar de Aquiles de muitos jogadores e comissões técnicas. Imagine dedicar anos de treinamento para atingir o auge do desempenho físico e, às vésperas da competição mais importante da carreira, ver esse sonho ser interrompido por conta de uma lesão - como a que ocorreu com o lateral direito da seleção Brasileira Wesley, cortado do time dias antes da estreia na Copa do Mundo?

E é algo que, infelizmente, acontece muito, como mostram as pesquisas de nossa equipe do Laboratório de Pesquisa de Ciências Farmacêuticas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Lapesf-Uerj), em parceria com o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into).

Analisamos 627 atletas profissionais e observamos que 80% já haviam sofrido alguma lesão durante a carreira esportiva. Articulações, músculos e tendões foram os mais afetados. Além disso, cerca de 20% apresentaram mais de uma estrutura anatômica comprometida, o que pode prejudicar ainda mais a sua carreira esportiva.

As lesões repetidas representam um dos maiores desafios na carreira do atleta. Mas, por que alguns se lesionam com mais frequência e outros parecem ser mais resistentes, mesmo estando sujeitos às mesmas condições de treinamento e exigências físicas?

A resposta pode estar no DNA

Diversas pesquisas do nosso grupo já mostraram que as diferenças no DNA podem aumentar ou reduzir a suscetibilidade genética de atletas para lesões. Publicamos trabalhos que mostram, por exemplo, variações em genes envolvidos no processo inflamatório, na produção de colágeno, na estrutura do tecido musculoesquelético, na formação de novos vasos sanguíneos e na capacidade de reparação dos tecidos após esforço físico.

Além disso, variantes genéticas também podem influenciar a percepção de dor. Tanto aquela dor que sentimos após algum exercício físico rigoroso, quanto em casos em que há indícios de uma lesão musculoesquelética.

Existe um gene, conhecido como FAAH (Fatty Acid Amide Hydrolase), que participa do sistema endocanabinoide, um dos responsáveis por regular funções relacionadas à resposta ao estresse, à inflamação e à percepção da dor. Então, avaliamos as variações desse gene em 345 atletas profissionais de diferentes modalidades esportivas, incluindo jogadores de futebol. E observamos que aqueles que possuíam uma variante identificada como FAAH rs324420 tiveram maior probabilidade de relatar dor musculoesquelética, especialmente em regiões previamente lesionadas.

Recentemente, expandimos o estudo para mais 130 jogadores profissionais de futebol, de diferentes clubes do Estado do Rio de Janeiro, e os resultados foram parecidos.

A mesma variante genética do gene FAAH foi associada a um risco aumentado de manifestar dor musculoesquelética após a prática esportiva. Além disso, esses jogadores tiveram cerca de duas vezes mais chances de sentir dor em regiões do corpo previamente acometidas por lesões musculares, articulares e tendinopatias.

Ou seja, as lesões esportivas não dependem apenas do treinamento, da técnica ou de fatores ambientais. A genética também pode desempenhar um papel importante, influenciando a forma como o organismo responde ao esforço físico, como sentem ou respondem à dor, à inflamação, ao processo de recuperação dos tecidos e a ocorrência de lesões.

Como os testes genéticos podem auxiliar na carreira esportiva do atleta?

Quando fatores genéticos são analisados, juntamente com características clínicas e específicas de cada atleta, como idade, sexo e carga de treinamento, é possível identificar aqueles com maior predisposição a desenvolver lesões ou dor. Isso contribui para o desenvolvimento e aplicação de estratégias personalizadas de prevenção, treinamento e cuidado com a saúde do jogador.

Mais do que melhorar o desempenho, conhecer o perfil genético de cada atleta pode proporcionar carreiras mais longas, seguras e saudáveis. Assim, podem alcançar seu máximo potencial, com menor risco de lesões, como é o caso do famoso Cristiano Ronaldo da seleção de Portugal, que aos 41 anos é o jogador de linha mais velho da Copa do Mundo da FIFA 2026.

É o avanço científico aplicado ao campo. Ao invés de recorrer à técnica da "tentativa e erro", a informação genética pode servir como um guia preventivo. Não é uma sentença, e sim um trunfo. Pode ser incorporada à rotina de atletas e clubes para individualizar treinamentos, otimizar a recuperação após treinos, campeonatos e partidas e mitigar as vulnerabilidades de cada jogador.

Conhecer o perfil genético ajuda o atleta a diferenciar a dor do esforço normal daquela que sinaliza um limite perigoso, capaz de levar a uma lesão - e, quem sabe, até custar um título.

Estas pesquisas receberam financiamentos da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). _A divulgação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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