Estudo mostra o impacto positivo do acesso universal à terapia anti-HIV em pessoas acima de 50 anos no Brasil
Pesquisa da Unesp indica que portadores do vírus que têm 50 anos ou mais apresentaram maior efetividade terapêutica do que em adultos mais jovens
Três décadas após o Brasil assegurar, em 1996, a oferta gratuita e universal da terapia antirretroviral combinada (o chamado coquetel) pelo Sistema Único de Saúde, por meio da criação do Programa Nacional de DST/Aids (Lei nº 9.313/96), tornam-se evidentes os impactos de uma política pública sustentada de acesso universal à saúde sobre o perfil das pessoas que vivem com HIV/Aids. Essa política garantiu tratamento contínuo e acompanhamento clínico de longo prazo, permitindo que a primeira geração de pessoas em terapia antirretroviral alcançasse a meia-idade e o envelhecimento sob cuidado regular dos serviços de saúde.
No Serviço de Atendimento Especializado em Infectologia da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista, esse processo já se consolidou. Atualmente, a maior parte dos pacientes acompanhados nesse local, centro de referência regional no cuidado de pacientes com a infecção, tem 50 anos ou mais, refletindo a transformação do HIV em uma condição crônica e o impacto acumulado da política brasileira de acesso ao tratamento.
Melhores resultados entre a população 50+
Estudo realizado sob minha coordenação, com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e feito em parceria com o Center for Global Health da Georgetown University, analisou os desfechos clínicos dessa população atendida pelo SUS e identificou um padrão relevante. Indivíduos 50+ ou acima apresentaram maior efetividade terapêutica, refletida em desfechos virológicos e imunológicos mais favoráveis, do que aqueles observados em adultos mais jovens.
A pesquisa avaliou 1.018 pessoas vivendo com HIV atendidas entre 2020 e 2023 no Serviço de Atendimento Especializado em Infectologia Domingos Alves Meira (SAEI-DAM). Do total analisado, 56,6% tinham 50 anos ou mais, enquanto 43,4% estavam na faixa etária de 18 a 49 anos.
Os resultados mostraram que cerca de 90% dos pacientes do grupo com 50 anos ou mais apresentavam carga viral indetectável, em comparação com 83,3% entre os adultos mais jovens. A falha virológica — definida como o retorno da replicação do vírus no sangue — foi observada em 2,5% dos pacientes mais velhos, frente a 10,1% no grupo mais jovem.
A carga viral indetectável do HIV é a principal meta do tratamento antirretroviral, considerada o padrão-ouro de sucesso terapêutico, pois está diretamente associada à normalização da expectativa de vida e à interrupção da transmissão sexual do vírus.
A avaliação da resposta imunológica seguiu o mesmo padrão. Apenas 7% dos pacientes com 50 anos ou mais apresentavam contagem de linfócitos T CD4 inferior a 350 células/mm³, patamar associado a maior risco de infecções oportunistas. Entre os adultos mais jovens, esse percentual foi significativamente maior, alcançando taxas de 13,3%.
Regimes simplificados e tempo prolongado de tratamento
A análise dos dados indicou que os melhores desfechos observados entre os pacientes mais velhos estavam associados principalmente ao uso de regimes simplificados de terapia antirretroviral e ao tempo prolongado de tratamento. Esquemas com duas medicações foram mais frequentes no grupo com 50 anos ou mais, especialmente as combinações lamivudina + dolutegravir (3TC+DTG) e lamivudina + darunavir/ritonavir (3TC+DRV/r).
Esses regimes atuam em etapas distintas do ciclo de replicação do HIV. A lamivudina inibe a transcriptase reversa, enzima necessária para a conversão do RNA viral em DNA. O dolutegravir bloqueia a integrase, impedindo a incorporação do material genético do vírus ao DNA da célula humana. O darunavir atua sobre a protease, interferindo na maturação das partículas virais, enquanto o ritonavir prolonga sua ação ao retardar sua metabolização.
Os resultados mostraram que a combinação desses esquemas com um tempo de tratamento superior a 11 anos esteve fortemente associada à supressão viral sustentada, caracterizada pela manutenção da carga viral indetectável ao longo do tempo. Outro aspecto identificado pelo estudo foi a redução do uso do tenofovir entre os pacientes mais velhos. O medicamento, amplamente utilizado desde o final dos anos 1990 e considerado um dos pilares históricos da terapia antirretroviral no Brasil, permanece fundamental em diversas situações clínicas, especialmente no início do tratamento.
No entanto, o uso prolongado do tenofovir está associado a efeitos adversos renais e ósseos, que se tornam mais relevantes com o avanço da idade. A retirada progressiva do medicamento em pacientes clinicamente estáveis passou a ser adotada no Brasil a partir de 2013, acompanhando uma tendência observada internacionalmente.
No grupo analisado, a exclusão do tenofovir esteve associada a menor ocorrência de efeitos colaterais, maior conforto terapêutico e adesão mais consistente, sem prejuízo da eficácia virológica.
O estudo adotou o marco de 50 anos para definir adultos mais velhos vivendo com HIV, critério amplamente utilizado na literatura científica. Mesmo sob tratamento eficaz, a infecção mantém o organismo em um estado contínuo de inflamação e ativação imunológica, o que contribui para o surgimento antecipado de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares.
Além disso, o uso prolongado de antirretrovirais e a presença de múltiplas comorbidades aumentam o risco de interações medicamentosas, fator relevante no acompanhamento clínico dessa população.
Implicações no cuidado a longo prazo
Os dados analisados refletem o impacto acumulado de uma política pública mantida ao longo de décadas. No serviço estudado, mais da metade dos pacientes já ultrapassou os 50 anos, e a tendência é que esse perfil se torne cada vez mais comum em outros serviços especializados do país.
Além dos desfechos clínicos, a simplificação dos esquemas terapêuticos pode ter repercussões econômicas, ao reduzir eventos adversos, hospitalizações e a necessidade de trocas frequentes de medicamentos.
As próximas etapas da investigação devem incluir a avaliação de aspectos como qualidade de vida, cognição, fragilidade e saúde mental em pessoas com mais idade vivendo com HIV. O acompanhamento dessa população exige ajustes contínuos nos protocolos clínicos, de acordo com as demandas impostas pelo envelhecimento em contexto de uma infecção crônica controlada.
Três décadas após a introdução da terapia antirretroviral, os efeitos da política pública brasileira se expressam não apenas na ampliação da sobrevida, mas também na consolidação de um modelo de cuidado de longo prazo, capaz de adaptar o tratamento às mudanças do perfil etário das pessoas que vivem com HIV.
Alexandre Naime Barbosa não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.