Entenda a "nova guerra contra o crime" promovida no Equador
Decreto obriga toque de recolher e renova presença do Exército nas ruas. País viu homicídios dispararem com avanço de cartéis e letalidade policial. Política linha-dura de governo aliado dos EUA não arrefeceu a violênciaDezenas de presos morreram por "asfixia" em um único mês em um presídio de Machala, sudoeste do Equador. Fernando Villavicencio, então candidato à presidência, foi assassinado. Uma comitiva do presidente Daniel Noboa foi alvo de um ataque a tiros. Na cidade portuária de Guayaquil, moradores vivem constantes madrugadas de terror com tiroteios e explosões classificadas pelas autoridades como uma "declaração de guerra contra o Estado".
Tais incidentes se acumularam nos anos posteriores a 2020, quando o país, antes conhecido como um oásis de paz entre os vizinhos, passou a dobrar anualmente seu índice de homicídios. A taxa saltou de 8 mortes violentas por 100 mil habitantes naquele ano e chegou a 46,5 em 2023, o segundo lugar no ranking global.
Na noite deste domingo (15/03), Guayaquil e outras zonas costeiras foram novamente palco de uma operação policial e militar que pretende "atacar" e enfraquecer a "logística e economia ilícita" de grupos criminosos, segundo as autoridades equatorianas.
Um toque de recolher de duas semanas foi imposto a quatro províncias do país e 35 mil agentes estão mobilizados. Diversos serviços e comércios tiveram que ser fechados após às 23 horas.
O comandante-geral da Polícia, Pablo Dávila, afirmou que o objetivo é atingir o "núcleo de letalidade" dos grupos criminosos com "operações pontuais". O governo defende que o novo decreto diminuirá os delitos que se concentram em horários noturnos. A ação faz parte do que o governo de Noboa chama de "nova fase" da guerra contra o narcoterrorismo.
Avanço de cartéis mexicanos e guerrilheiros colombianos
Somente em 2025, Guayaquil concentrou 2.545 dos 9.235 homicídios do país. Os números, um recorde na história do Equador, são vistos por especialistas como indícios de que a estratégia linha-dura de Noboa, apoiada pelos EUA, não surtiu os efeitos propagandeados por ele em sua campanha eleitoral.
"O Equador tornou-se, em menos de uma década, o mais violento da região [América do Sul], transformando-se em um centro do tráfico de drogas para a Europa. A abordagem de mão de ferro do presidente Daniel Noboa reduziu as taxas de homicídio inicialmente, mas, desde então, a violência voltou a disparar e a criminalidade continua sem dar sinais de abrandamento", afirma o Crisis Group em relatório de novembro de 2025.
"Sem sinais de que a violência esteja diminuindo, o governo está decidido a intensificar sua abordagem dura, ampliando a cooperação com as Forças Armadas dos EUA e empresas de segurança privada", continuou.
A escalada da violência é paralela ao crescimento da população carcerária e do narcotráfico em toda a América Latina. Há duas décadas, o governo do populista de esquerda Rafael Correa havia declarado "vitória" contra a violência após incutir reformas como a criação de um ministério da Justiça, ampliação orçamentária para prevenção de crimes e criação de estratégias de polícia comunitária.
À época, as políticas reduziram o índice de mortes violentas mas não impediram o Equador de se tornar um hub de trânsito para o tráfico internacional de drogas. Grupos criminosos locais se beneficiaram pela mudança de foco do narcotráfico latino-americano, que descentralizou suas operações nos últimos anos e absorveram carteis locais à rede global.
Em 2018, após os acordos de paz que desmobilizaram guerrilhas na Colômbia, a violência voltou a subir no país. De um lado, dissidentes de grupos como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) passaram a pressionar a fronteira equatoriana com objetivo de escoar a produção de cocaína. Do outro, cartéis mexicanos viram uma oportunidade de avançar sobre o país, delegando partes de sua cadeia de produção e logística a gangues locais.
O imbróglio contribuiu para a fundação, aliança ou crescimento de gangues como Los Lobos, ligada ao Cartel de Jalisco Nueva Generación, e Los Choneres, aliada ao Cartel de Sinaloa, alimentando a capacidade de enfrentamento desses grupos e sua rivalidade.
Nesse período, atos de brutalidade entre gangues ganharam o noticiário: carros-bomba, decapitações, enforcamento e drones lançando explosivos em presídios. A violência carcerária se tornou comum. Grande parte dos homicídios são atribuídos às forças policiais.
Especialistas também avaliam que a crise financeira enfrentada pelo país e a dolarização de sua economia contribuíram tanto para facilitar a lavagem de dinheiro quanto para o recrutamento de jovens às fileiras do crime nas últimas décadas.
Estado de exceção "permanente"
Noboa assumiu a presidência em 2023 para um mandato-tampão na mesma campanha em que Villavicencio foi assassinado. Ao tomar posse, reorganizou os presídios com a transferência de líderes do narcotráfico. A medida deu início a uma reação em cadeia, com picos de violência se espalhando pelo país.
Em 2024, a fuga da prisão de um de seus líderes do Los Choneres, Fito, gerou uma nova onda de violência. Noboa, então, declarou estado de exceçãoperante a "grave comoção interna" do país.
A medida, porém, deixou de ser exceção, e foi decretada ao menos 14 vezes durante seu governo. Na prática, tornou permanente a presença do Exército nas ruas, atuando sob regras civis mais flexíveis. No mesmo ano, uma reforma permitiu às Forças Armadas controle permanente do acesso ao sistema carcerário, permitiu extradições e aboliu benefícios como redução de sentença.
A crise de segurança que se seguiu foi considerada por Noboa como um "conflito armado interno" - uma justificativa jurídica rejeitada por cortes do país. Ele foi reeleito em 2025, consolidando a popularidade de suas medidas.
A ação do Exército, renovada neste domingo em áreas costeiras, inclui, por exemplo, patrulhamento, postos de vigilância, controle sobre armas, munições e explosivos, batidas e prisão de supostos membros de grupos criminosos. A "nova fase da guerra" ampliou o orçamento para a Segurança Pública, inteligência militar, operações especiais, reorganizou o comando militar e autorizou a construção de dois presídios de segurança máxima no mesmo modelo do de El Salvador, indica o Crisis Group.
Para a organização, a intervenção armada arrefeceu a série de massacres nas prisões do país, mas não limou seu poder e controle de fato dentro do sistema carcerário.
Além disso, a infraestrutura portuária e a localização privilegiada do país renovaram as rotas do tráfico. "As exportações de drogas pelos portos do país podem ter mudado para novos pontos de saída, mas não há indícios de que as apreensões tenham reduzido o volume do tráfico."
População rejeita reformas
Em novembro, de 2025, porém, a população do país rejeitou uma das bandeirasdo novo mandato de Noboa. Em referendo nacional, a maioria dos equatorianos se opôs à retomada de bases estrangeiras no país, proibidas desde as reformas de Correa em 2008.
Mais de 60% da população também rejeitou a proposta governista de convocar uma nova Assembleia Constituinte, que teria como objetivo desenhar uma nova Carta Magna, mais dura contra o crime organizado.
Os resultados reverteram a expectativa das pesquisas eleitorais e frustraram o interesse de Noboa de reabrir bases americanas no país. O equatoriano tem se aproximado cada vez mais da política de combate ao crime organizado encampada pelo presidente americano Donald Trump.
No último dia 7, acompanhou o republicano no lançamento de uma coalizão informal com líderes latino-americanos contra cartéis, incluindo os dois principais grupos criminosos que atuam no Equador, classificados por Washington como organizações terroristas.