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Entenda a atual onda de protestos na Bolívia

22 mai 2026 - 11h15
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Inflação agravada por fim de subsídios à gasolina levou milhares de bolivianos às ruas contra o novo governo do centrista Rodrigo Paz. Protestos provocam caos no país, e EUA veem "tentativa de golpe".A situação atual na Bolívia é explosiva. Literalmente: pequenas cargas de dinamite têm sido detonadas nos protestos antigoverno que tomaram o país andino, segundo a imprensa local.

Manifestantes têm usado fogos de artifício e até mesmo explosivos em protestos contra o governo da Bolívia
Manifestantes têm usado fogos de artifício e até mesmo explosivos em protestos contra o governo da Bolívia
Foto: DW / Deutsche Welle

Há semanas estradas federais vêm sendo bloqueadas, e agora a situação se agrava na capital administrativa, La Paz. Manifestantes invadiram prédios públicos e ergueram dezenas de bloqueios, alimentos e combustíveis ficaram retidos. Em alguns hospitais chegou a faltar cilindros de oxigênio, e bancos foram fechados por precaução.

Economistas alertam que os protestos podem agravar a situação do país, e o Departamento de Estado americano classificou os distúrbios como "tentativa de golpe".

Abaixo, a DW lista alguns pontos para entender a atual crise.

Qual é a situação política na Bolívia?

Mesmo antes das eleições de 2025, a situação econômica da Bolívia já era ruim. Exportações fracas deixaram o país sem moeda estrangeira - necessária, por exemplo, para a importação de combustíveis.

Após quase 20 anos de um governo de esquerda, marcado por forte influência estatal na política econômica sob os presidentes Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce (2020-2025), os bolivianos fizeram uma escolha clara: levaram ao segundo turno dois candidatos mais à direita, que prometiam capitalismo para todos e reformas econômicas.

O então favorito Jorge Quiroga queria recolocar a Bolívia nos trilhos com uma injeção financeira do Fundo Monetário Internacional. No fim, venceu o político de centro-direita Rodrigo Paz, que fez campanha pela modernização do Estado sem ajuda externa.

Apesar de o Partido Democrata Cristão (PDC) de Paz ter conquistado maioria no Parlamento para aprovar seus projetos, especialistas já previam que ele teria um governo difícil pela frente. Segundo Christina Stolte, diretora do escritório boliviano da Fundação Konrad Adenauer, entidade ligada ao partido conservador alemão União Democrata-Cristã (CDU), o PDC não seria ideologicamente coeso nem particularmente próximo de Paz.

"O PDC não garante ao presidente recém-eleito nenhuma base partidária coerente no Parlamento, muito menos um comportamento disciplinado de voto segundo as linhas por ele estabelecidas", escreveu Stolte em uma análise publicada em outubro.

Qual é a situação econômica na Bolívia?

A escassez de divisas ao longo de anos e a alta dependência de importações fizeram a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) da Bolívia subir para 95% até 2025.

Uma das primeiras medidas de Paz para recompor o orçamento do Estado foi considerada sensata por observadores, mas dolorosa para a população: na virada do ano, ele cortou os subsídios à gasolina, fazendo com que os preços nos postos quase dobrassem. Esse salto repentino turbinou a inflação, em conjunto com outros fatores internos.

Em certa medida, a inflação foi ainda mais impulsionada por influências externas, como o aumento global de preços em consequência da guerra no Irã. Em abril de 2026, o poder de compra era 14% menor do que um ano antes, segundo dados oficiais. Essa alta taxa de inflação afeta principalmente os mais pobres.

Quem protesta - e quem apoia os protestos?

Sindicatos reagiram ao aumento dos preços exigindo reajustes salariais e o restabelecimento dos subsídios à gasolina. Essas reivindicações atraíram rapidamente uma aliança heterogênea e circunstancial de agricultores, mineiros, professores, trabalhadores de outros setores e grupos indígenas.

O governo Paz cedeu a uma outra reivindicação: revogou uma lei aprovada apenas um mês antes, que previa que proprietários rurais pudessem oferecer pequenos terrenos como garantia para empréstimos bancários. Os manifestantes afirmavam que isso poderia levar pequenos agricultores a perderem suas terras para conglomerados do agronegócio.

O governo conseguiu retirar o tema da pauta, mas não conseguiu evitar uma crise política quando os primeiros manifestantes passaram a exigir a renúncia de Paz, ensejando grandes manifestações pela COB, a maior central sindical. Poucos dias depois, a Procuradoria-Geral emitiu um mandado de prisão por terrorismo e incitação contra o presidente da COB, Mario Argollo.

Chamados aos protestos também vieram do entorno do ex-presidente Evo Morales. O governo suspeita de uma conspiração: sem apresentar provas, o ministro da Economia, Jose Gabriel Espinoza, classificou os manifestantes como "agentes políticos" que serviriam de apoio à tentativa do "produtor de coca" Morales de voltar ao poder.

O que pode acontecer agora?

Na quarta-feira (20/05), o presidente Paz anunciou uma reforma ministerial e se comprometeu a ouvir melhor a população. Além disso, prometeu envolver representantes de manifestantes nas decisões de governo através de um "Conselho Econômico e Social". Ao mesmo tempo, afirmou que não negociará com "vândalos".

Os Estados Unidos já se posicionaram claramente em apoio ao governo Paz e condenaram todas as tentativas de desestabilizá-lo. "Não permitiremos que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério", declarou nesta semana o chefe da diplomacia americana, Marco Rubio.

Antes disso, os países vizinhos Peru, Chile, Argentina e Paraguai, assim como quatro países da América Central, também já haviam expressado apoio ao governo Paz. A União Europeia e cinco embaixadas europeias pediram, em uma nota conjunta, que as partes em conflito dialoguem.

Uma questão decisiva é se o presidente Rodrigo Paz conseguirá se manter no poder - e em que medida mediadores internos ou externos poderão abrir espaço para compromissos. Também se atribui grande influência a Morales, tanto para acirrar a crise quanto para desescalá-la.

A longo prazo, a Bolívia precisaria resolver seus problemas econômicos estruturais para estabilizar a situação. No curto prazo, porém, parece que até Paz considera inevitável contrair novas dívidas. Já antes do início dos protestos, seu governo negociou um novo empréstimo de 200 milhões de dólares (R$ 1 bilhão) com o Banco Mundial, destinado a amortecer os impactos sociais do aumento dos preços. Maior margem de manobra deve vir dos 4,5 bilhões de dólares (R$ 22,5 bilhões) prometidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. E, após o início dos protestos no começo de maio, tornaram-se públicas negociações com o Fundo Monetário Internacional sobre até 3,3 bilhões de dólares (R$ 16,5 bilhões).

Para o futuro da Bolívia, será decisivo como o governo utilizará essa nova margem de manobra - e quanta margem os protestos, afinal, vão lhe conceder.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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