Vencedor das eleições na Hungria sinaliza reaproximação com a UE
Péter Magyar diz que sua vitória "confirma o lugar da Hungria na Europa" e promete reformar a Constituição para restabelecer valores democráticos, após 16 anos do governo ultradireitista liderado por Viktor Orbán.Em sua primeira coletiva de imprensa após sua vitória esmagadora nas eleições na Hungria, o líder oposicionista Péter Magyar reiterou nesta segunda-feira (13/04) a intenção de reaproximar seu país da União Europeia (UE), após 16 anos de desentendimentos entre Budapeste e Bruxelas durante o governo do ultradireitista Viktor Orbán.
A vitória de Magyar pode sinalizar uma mudança na política europeia, que tem sido abalada por uma guinada à extrema-direita na última década. O líder da legenda de centro-direita Partido pelo Respeito e pela Liberdade (Tisza), que conquistou uma ampla maioria no Parlamento nas eleições deste domingo, prometeu reformar a Constituição no intuito de restaurar os valores democráticos no país.
Ao mesmo tempo em que sinalizou uma reaproximação com Bruxelas, ele não descartou conversar com o presidente da Rússia. "Se Vladimir Putin ligar, eu atenderei o telefone", afirmou. "Se conversássemos, eu poderia dizer a ele que seria bom encerrar a matança depois de quatro anos e pôr fim à guerra", afirmou, se referindo à invasão russa da Ucrânia.
"Provavelmente seria uma conversa telefônica curta e não acho que ele encerraria a guerra por meu conselho", disse Magyar. A declaração provavelmente foi bem recebida na UE, após o tom conciliatório adotado por Orbán em relação ao conflito na Ucrânia ou a Putin.
Budapeste mais próxima a Bruxelas
A vitória de Magyar foi recebida com um forte sentimento de esperança em Bruxelas, em um momento em que a UE se vê em meio a tensões com a Rússia, ao antagonismo do governo de Donald Trump nos EUA e à pressão econômica imposta pela China.
Os líderes da UE se viam cada vez mais frustrados com Orbán após ele tomar o controle das instituições democráticas húngaras e, no âmbito europeu, vetar ações estratégicas, como um empréstimo de 90 bilhões de euros (R$ 526 bilhões) para a Ucrânia.
"Ontem, o povo húngaro, exatamente 23 anos após o referendo sobre a nossa adesão à UE, confirmou o lugar da Hungria na Europa", disse Magyar. "Gostaria de ver uma Europa Central forte dentro de uma UE forte" afirmou, se referindo à região em que seu país se encontra no continente europeu.
Durante a campanha eleitoral Magyar, evitou falar sobre a guerra Ucrânia ou comentar sobre questões controversas como os direitos LGBTQ+ - temas bastante espinhosos na Hungria.
Nesta segunda, na coletiva de imprensa, ele afirmou que, para o Tisza e os milhões de húngaros que o apoiam, "todos podem viver com quem quiserem e amar quem quiserem, desde que não violem as leis e não prejudiquem os outros."
Ajuda financeira da UE à Ucrânia
Após tomar posse, em maio, o novo primeiro-ministro poderá potencialmente suspender o veto da Hungria para permitir que a Comissão Europeia forneça à Ucrânia o empréstimo com o qual Orbán havia concordado em dezembro para, mais tarde, voltar atrás, gerando indignação entre os demais líderes europeus.
Sob Orbán, a Hungria, que faz fronteira com a Ucrânia, fez oposição ao presidente ucraniano Volodimir Zelenskie agiu com frequência para prejudicar o envio de ajuda militar e financeira de Bruxelas a Kiev.
Após a vitória de Magyar, Zelenski afirmou que seu país está pronto para "reuniões e trabalho conjunto construtivo em benefício de ambas as nações, bem como para a paz, segurança e estabilidade da Europa".
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que a Rússia respeita o resultado das eleições húngaras e espera manter contato com a nova liderança do país. Ele afirmou que "quanto às medidas que a nova liderança húngara tomará, provavelmente precisamos ser pacientes e ver o que acontece".
Magyar disse que recebeu na noite de domingo - antes mesmo de para anunciar sua vitória - telefonemas do presidente francês. Emmanuel Macron, do secretário-geral da Otan, Mark Rutte; do chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que, assim como Zelenski, também foi alvo de Orbán a campanha eleitoral.
"Hoje, a Europa é húngara", disse Von der Leyen em coletiva de imprensa em Bruxelas nesta segunda-feira. "O povo da Hungria se expressou e retomou seu caminho europeu."
Reformas e Estado de direito
Magyar prometeu restaurar as instituições democráticas, reinserir a Hungria no sistema legal europeu e propor reformas à Constituição, após uma série de medidas controversas adotadas pelo governo de Orbán.
"Teremos muitas tarefas [...] a primeira, adotar as medidas funcionais, iniciar a adesão da Hungria à Procuradoria Pública Europeia [...] emendar a Lei Fundamental (Constituição) para que nela conste que, no futuro, na Hungria, qualquer pessoa somente poderá servir como primeiro-ministro por dois mandatos, ou seja, oito anos."
"Faremos tudo para restaurar o Estado de Direito, a democracia plural e o sistema de freios e contrapesos", afirmou. "Quero assegurar que não usaremos medidas antidemocráticas para restaurar o Estado de Direito."
"A função de um governo é garantir a independência do Judiciário, das autoridades investigativas, fornecer todos os recursos financeiros e outros possíveis para o desempenho de suas tarefas", completou.
Revés para a ultradireita europeia
A derrota de Orbán teve repercussões em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump apoiou a candidatura de Orbán à reeleição e até enviou o vice-presidente J.D. Vance a Budapeste para fazer campanha para o ultradireitista.
Os aliados populistas de Orbán na UE, os primeiros-ministros da República Tcheca, Andrej Babis, e da Eslováquia, Robert Fico, felicitaram Magyar, ao mesmo tempo que elogiaram o líder derrotado na votação. Ambos prometeram colaborar como o novo governo da Hungria.
rc (AP, Reuters)