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Ana Amélia exibe foto com Fidel: ‘quero ver se Tarso tem’

Aliada de Aécio no RS, candidata do PP trata Marina como surpresa

5 set 2014
09h48
atualizado às 11h13
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Com a foto de Fidel: "Quero ver se o governador tem uma assim"
Com a foto de Fidel: "Quero ver se o governador tem uma assim"
Foto: Flávia Bemfica / Terra

Aos 69 anos, a senadora Ana Amélia Lemos (PP) disputa sua segunda eleição e, de novo, está entre os favoritos. No Rio Grande do Sul, ela polariza a corrida ao Palácio Piratini com o governador Tarso Genro (PT). A disputa ficou acirrada. Os petistas não perdem a oportunidade de rotular a senadora como portadora do mais tradicional discurso da direita. Ana Amélia rebate afirmando que o mundo não se divide mais entre esquerda e direita, e que o cidadão, quando necessita de serviços públicos, como o atendimento de emergência em um hospital, não quer saber qual a ideologia do médico.

Ela chegou a fazer, em tom de brincadeira, um desafio a Tarso. Mostrou um quadro com uma foto em que ela aparece ao lado de Fidel Castro, ídolo da esquerda mundial, e disse: "Quero ver se o governador também tem uma". A foto, claro, não é uma lembrança de tiete, mas um registro profissional de quando ela, repórter na década de 1980, entrevistou o revolucionário cubano.

Tarso associa seu programa ao da ex-governadora tucana Yeda Crusius. A progressista faz críticas pesadas ao governador, e diz que ele adota práticas fascistas de desconstrução dos adversários.

O enfrentamento sem rodeios é uma das características da senadora, que concorreu pela primeira vez em 2010, após uma carreira de mais de 30 anos como jornalista do Grupo RBS. Neste ano, ela tomou à frente do bloco do PP que se opôs à decisão nacional do partido de permanecer na base de apoio da presidente Dilma Rousseff (PT). Não foi a primeira vez que cerrou posição ou deu mostras de aplicar seus conceitos. Nas eleições de 2012 para a prefeitura de Porto Alegre, ela abriu o voto para a deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB), enquanto seu partido apoiava a reeleição do prefeito José Fortunati (PDT). Confira abaixo sua entrevista ao Terra:

Terra: A senhora e o PP gaúcho apoiam o senador Aécio Neves (PSDB) na disputa à presidência da República. A queda do senador para o terceiro lugar foi uma surpresa?
Ana Amélia: O quadro mudou da noite para o dia. Revelou, em primeiro lugar, que a Marina (Silva) não estava transferindo os votos dela para o Eduardo (Campos, morto em 13 de agosto). Com a tragédia, e a Marina assumindo, mudou inteiramente o cenário sucessório presidencial porque a comoção não parece coisa de momento.

Teve algo de vontade de mudar. Nós continuamos muito confiantes de que o Aécio é muito preparado, é uma candidatura sólida. O que percebemos apenas é que os aliados, do partido do senador, principalmente em São Paulo, não estão emprestando aquela solidariedade partidária que se imaginava existir. Então, a entrada da Marina e este flerte dela com algumas figuras proeminentes do PSDB paulista são reveladoras deste novo cenário. Marina não mexeu apenas com a Dilma. Mexeu com o ninho tucano.

Terra: No que a senhora embasa esta avaliação?
Ana Amélia: No fato de a política e os líderes partidários nem sempre olharem o presente e o futuro com os olhos do interesse coletivo. Às vezes, olham com interesse pessoal. Há exceções, é claro.

Terra: A senhora acredita que o PSDB e seu aliados conseguirão reverter a terceira colocação na corrida presidencial?
Ana Amélia: Desejo que o Aécio vá para o segundo turno. Com a Marina ou com a Dilma (Rousseff). Mas o cenário ficou bastante embaralhado. Qualquer prognóstico que se faça pode não refletir a realidade até o dia 5 de outubro. Quem preveria que o Eduardo fosse buscar a Marina na Rede? Foi o fato político mais relevante depois de ela não conseguir viabilizar a Rede. Eu, no Senado, fui signatária do abaixo-assinado para que ela pudesse constituir a Rede. Foi uma injustiça, ela não poder.

Por injunções que a razão conhece e os meandros políticos mais ainda, o Kassab (Gilberto Kassab, do PSD) conseguiu ter seu partido e a Marina não. A saída encontrada e a forma como o Eduardo Campos agiu surpreenderam todo o cenário político. Agora, o fato de a Marina e o PSB buscarem o Beto (o deputado federal gaúcho Beto Albuquerque) para vice reflete, para o Rio Grande do Sul, uma situação diferenciada. Não é a Marina, é o Beto quem avaliza.

Terra: Na eleição estadual, quais são os reflexos?
Ana Amélia:
Surpreendentemente não há alteração na situação local porque a candidatura que apoia a Marina ou apoiava o Eduardo (no RS o PSB está coligado com o PMDB) está hoje em um dilema que só não é maior em função do aval do Beto. O receio em relação ao radicalismo, fala-se muito no radicalismo da candidata, ele é neutralizado pela presença do Beto, de forma a evitar uma debandada dos setores do PMDB que aqui são mais ligados à produção rural. Eu acredito muito, confio muito na capacidade do Aécio, mas há uma mudança de quadro, um cenário que é imponderável.

Terra: No Rio Grande do Sul muda a estratégia da campanha em função destas alterações?Ana Amélia: Nada. Aqui é só intensificar a campanha mais e mais. Mais trabalho. Vamos trazer o Aécio agora no dia 5 para a Expointer (a tradicional exposição agropecuária internacional que ocorre anualmente no RS). Queríamos fazer pelo menos dois eventos nesta data. Mas há uma agenda dele bastante intensa.

Também cabe lembrar que o evento que nossa coligação fez no dia 2 de agosto, no Gigantinho, o Aécio mesmo reconheceu que foi o maior em todo o Brasil. As pessoas vieram espontaneamente. O Aécio ficou até emocionado quando fiz uma referência ao filhinho dele, o Bernardo. Ele chorou. A política tem que ter emoção. O eleitor gosta de um abraço, um aperto de mão.

Terra: Conforme as pesquisas de intenção de voto, no Rio Grande do Sul, por enquanto, a presidente Dilma Rousseff (PT) apresenta melhores índices de votação. Como a sua coligação trabalha para aumentar a votação de Aécio no Estado?
Ana Amélia:
Eu trabalhei muito na eleição passada. Nós trabalhamos muito. E o Serra, que havia perdido no Estado no primeiro turno, virou e venceu da Dilma no segundo. Agora, com a presença do Beto na corrida presidencial, isso é uma ponte que se estabelece. Neste momento estamos concentrando nossos esforços e nossas energias em Aécio Neves. Depois do dia 5 de outubro, o que as urnas determinarem aqui, nós vamos fazer.

Terra: O PP gaúcho adotou uma posição diferente daquela do diretório nacional. Enquanto aqui a senhora e seu partido apoiam Aécio, o PP nacional permanece aliado à presidente Dilma. Por que o partido, no RS, não seguiu a direção nacional?
Ana Amélia:
Seria muito mais difícil para o PP do Rio Grande do Sul explicar um apoio à Dilma do que estarmos com Aécio. O Aécio não precisa explicar, é autoexplicável. Aí é que reside o detalhe de um país continental. Por isso que se acabou com a questão da verticalização. Existem vários brasis dentro do Brasil. Mesmo aqui no RS você vê regiões de distintos aspectos.

O localismo é muito forte dentro da política e é preciso respeitar isso. Temos isso aqui em praticamente todos os principais partidos que disputam a eleição estadual. Veja, o PDT estava até ontem no governo do Estado. Saiu e tem candidatura própria. Há candidatos até com ligação familiar, que é o caso do Robaina (Roberto Robaina, ex-genro do governador Tarso), do PSol.

E o adversário é o mesmo para todos: o atual governador, que tenta a reeleição. O PDT apoia a Dilma e não o Tarso, o PMDB está lá com o vice, que é o Michel Temer, e aqui tem candidato, é inconciliável que apoie o PT aqui. Ao mesmo tempo, contraditoriamente, o meu partido, em 57 municípios, está aliado com o PT no Rio Grande do Sul. Por quê? É o localismo do localismo. A questão da aldeia.

Terra: A senhora é contra a verticalização?
Ana Amélia:
A verticalização é um artificialismo no qual você vai impor uma decisão em um país onde não há fidelidade partidária e engessar uma disputa. Então, hoje, não teriam os partidos este direito. Na questão eleitoral e política nós tínhamos que urgentemente trabalhar pelo fim da reeleição e por mandatos com duração entre cinco e seis anos para todos os níveis, além de eleição no mesmo dia, com coincidência de mandatos. Acredito que o país daria um salto de qualidade.

É uma injustiça você disputar uma eleição com quem está no poder. É o tempo de TV, o recurso que ele tem. Por mais que tenha cuidado, não é possível, a exposição que tem um governante, seja presidente, governador ou prefeito. A força de pressão que ele tem sobre tudo: veículos de comunicação, economia, empreendedores, lideranças. Isto cria um clima desconectado com a democracia e o republicanismo.

Quem mais condenou a reeleição foi o PT. E hoje não quer largar o osso. O poder revela a identidade e a natureza selvagem dos partidos. Quando estava na oposição (o PT), não queria que o adversário continuasse. Quando chegou ao poder, não quer sair, não quer alternância de jeito nenhum. Isso é um projeto de poder, não de país.

Terra: Na eleição estadual, o governador Tarso Genro (PT), vincula suas propostas aos governos de Antônio Britto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB) e, por associação, a privatizações e escândalos de corrupção.
Ana Amélia:
O governador devia fazer comparações entre o que ele prometeu em 2010 e o que ele entregou em 2014. Para ser mais honesto. E não ficar olhando no retrovisor. Porque agora em 2014 ele não está disputando com Antônio Britto e nem com Yeda. Esta é a velha tática dos fascistas, de repetir, tentar carimbar.

Tentar, com uma tática manjada e desgastada, colar ou carimbar candidaturas e destruir reputações. Isso não pega, porque tanto o Britto quanto a Yeda deixaram alguma herança.

Hoje, com racionalidade, as pessoas lembram das coisas que foram de bom resultado para o Estado. Especialmente em se tratando da gestão financeira. Que, no caso dele (Tarso), é um desastre. Ele não faz nenhum investimento, e está pagando a folha, o custeio, tudo, com empréstimos. E acha isso ótimo. Nenhum economista do mundo entenderá a lógica do governo gaúcho.

Eu digo que não há muita diferença entre o planejamento doméstico orçamentário e aquele de uma boa governança em uma empresa ou no Estado. E ele menospreza, diz que não é assim. Acho que ele menospreza a capacidade das mulheres, que são capazes de, com um salário mínimo, prover a família e as diversas demandas dos filhos.

Você ampliando proporcionalmente esta realidade orçamentária, não é diferente do Estado. Onde as demandas são muito mais complexas, evidentemente. Mas o princípio é o mesmo. Não gastar mais do que arrecada. E trabalhar com criatividade e austeridade. Para que sobre recursos para fazer o que ele não fez. Por exemplo: pagar o piso dos professores, ele fez a lei e não cumpriu. Ele tem tanta vulnerabilidade na sua ação de governo, e pinta um quadro como se o RS fosse a Finlândia.

A Finlândia talvez seja o país que tenha o maior grau de valorização dos professores. Ele que cuide de fazer a eleição de 2014, de discutir o presente e o futuro, e não o passado.

Terra: Os projetos de vocês são opostos?
Ana Amélia:
Nesta lógica de trabalhar só com empréstimos? Não podemos trabalhar desta forma. Temos que trabalhar em uma lógica de um Estado que gere confiança. O governo atual está expulsando as empresas para outros estados. Exportando empregos que seriam dos gaúchos. Isso ele não é capaz de enxergar. Várias empresas gaúchas foram para outros estados. Não atraídas por incentivos fiscais e sim pelo ambiente que os respectivos governos oferecem no sentido de uma atração concreta de investimentos. A burocracia no Rio Grande do Sul é elevadíssima.

Terra: É uma eleição que tem se mostrado muito polarizada.
Ana Amélia: Pois é. E ele, como não pode dizer que eu sou desonesta, que eu sou mensaleira, que eu sou corrupta, que eu não trabalho, que eu não atendo aos interesses do Estado, fica nessa conversinha mole para boi dormir.

Não é com essa tática fascista com que tenta destruir reputação que ele vai conseguir alguma coisa. Pelo contrário. Como dizia o Brizola: “Sou como massa de bolo, quanto mais batem, mais eu cresço.”

Terra: A senhora trabalha com a possibilidade de a eleição estadual se decidir no primeiro turno, em função da polarização que se observa?
Ana Amélia: Nós trabalhamos intensamente.

Terra: Para que a definição ocorra no primeiro turno?
Ana Amélia:
Estamos trabalhando para tudo. Estamos preparados para tudo. As bandeiras vermelhas hoje não estão tão presentes no cenário. Elas estão encabuladas.

Terra: Na possibilidade de segundo turno, a tendência é de uma espécie de frente antipetista?
Ana Amélia:
Você acha possível que, durante uma campanha, todos ‘batam’ no Tarso e, no segundo turno, os que ‘bateram’ estejam com ele? O que o eleitor vai pensar? A filha do Tarso (Luciana Genro, candidata do Psol à presidência da República) não vota nele, vota no Robaina. O Robaina, que é ex-genro, é o que mais bate nele no debate político. Aliás, a campanha dela, da Luciana, é uma campanha suave, ela está muito bem, é uma campanha equilibrada. Ela saiu daquele discurso da jovem rebelde para assumir uma campanha à presidência da República.

Terra: Quais são as prioridades do seu projeto de governo?
Ana Amélia:
Educação, que é transversal a tudo. Meu sonho é poder colocar placas nas entradas de Porto Alegre, no aeroporto Salgado Filho, ou em qualquer parte de nossas fronteiras com a inscrição: “Bem vindo ao Estado que não tem nenhum analfabeto”.

Este é o nosso maior desafio. Educação representa também inclusão social, porque uma pessoa com educação tem um grau de conhecimento, e eu diria de demanda, porque tem consciência do que é capaz, de interpretar leis, de saber quais são seus direitos. E com isto podemos ter um projeto de desenvolvimento do Estado. O RS precisa crescer, a economia precisa crescer. E o que está havendo é o contrário.

O Estado está crescendo e, a economia, minguando. O Estado cresce de tamanho e ineficiência e o que podia ser o motor para aumentar a receita está minguando. Porque tudo é difícil aqui. Nós não exploramos os modais de transporte, nossa logística é muito cara e deficiente. Tudo isso são barreiras. Agravadas pela falta de credibilidade. Não há segurança jurídica no Rio Grande do Sul.

Terra: Sendo a senhora eleita, que tipo de relação seu governo vai ter com o governo federal?
Ana Amélia:
Uma relação absolutamente republicana. Mas eu continuo apostando que nosso presidente, Aécio Neves, tratará o Rio Grande do Sul como ele trata a sua Minas Gerais. Porque este é um compromisso que ele tem, e eu acredito na palavra dele.

Terra: A presidente Dilma, quando faz campanha em solo gaúcho, sempre destaca a vinculação que possui com o Rio Grande do Sul e os investimentos feitos por seu governo.
Ana Amélia: Eu pergunto então por que um projeto crucial para o RS, que é a mudança do indexador da dívida, não foi ainda aprovado? Há mais de um ano está lá no Senado para ser submetido à votação, e nada. O governador não teve força? Onde está a sinceridade neste tema? Se tivessem votado, neste ano o governo do Tarso é que já estaria beneficiado.

Lutei para que o Estado fosse beneficiado. Portanto, não tive nenhum interesse partidário ou eleitoral nesse aspecto. Foi o partido do governo que impediu que fosse votado, sob a alegação de que as agências de risco estavam no Brasil fazendo avaliação. E que, se aprovado o acordo de mudança no indexador, isso implicaria em uma baixa qualificação do país pelas agências.

Eu acreditei que o compromisso era para valer, de votar em fevereiro de 2014. Passou fevereiro, passou a Copa, entrou a eleição, estamos em setembro. O presidente da Comissão de Assuntos  Econômicos do Senado, quando provocado por mim, disse que, por acordo entre os governadores do Rio Grande do Sul e de Alagoas, o projeto dos indexadores das dívidas só seria votado em novembro. Espero que isso não tenha sido motivado por interesse político.

Terra: Em uma disputa com oito candidatos, o que, na sua avaliação, pode levar o eleitor a escolhê-la?
Ana Amélia:
Pergunte ao eleitor. Primeiro, minha candidatura não é um projeto de poder, e não é um projeto pessoal. Se eu tivesse tido o direito de escolha, permaneceria no Senado. Recebi uma convocação. E se eu dissesse não aos eleitores gaúchos, estaria decepcionando, frustrando a confiança deles em mim.

Os eleitores que em 2010 me deram quase 3,5 milhões de votos, na época votaram em uma jornalista e viram que ela foi capaz no Senado de trabalhar de forma diferente e com muita produtividade. Tenho no Senado 57 iniciativas entre projetos de lei, emendas, projeto de resolução. Um dos mais relevantes para a saúde pública, e já em vigor, é o que obriga os planos de saúde a incluir o direito aos usuários de receberem quimioterapia oral.

A percepção que o eleitor tem do meu trabalho é que me dá a atual condição nas pesquisas. Outro aspecto é que todo o governante do Executivo deveria passar pelo Legislativo. Estou em uma casa com 81 senadores, convivo com ex-presidentes da República, ex-governadores, e aproveito da convivência com as pessoas, da divergência. Uma coisa é você escrever sobre a política. Outra é protagonizar e fazer a política, ser parte do processo. O Senado é uma grande escola. É a Casa da República, a representação dos interesses do Estado.

 

 

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Fonte: Terra
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