Para o Senado, Romário leva militantes históricos na reserva
Um representante do Movimento de Resistência Leonel Brizola e um filiado ao PCdoB há mais de 35 anos integram o banco, aliás, a suplência, do ‘Peixe’
De um lado, um brizolista histórico, que deixou o PDT em direção ao PSB em 2013 numa carta de despedida que, no melhor estilo dor de cotovelo, falava em um “amor destroçado”. De outro, um comunista histórico, filiado ao PCdoB desde os idos de 1975, que chegou a ser demitido de duas montadoras de veículos por coordenar greves no ABC paulista na época da ditadura. À frente deles, um jogador histórico, terceiro maior artilheiro da Seleção Brasileira – quando esta ainda fazia história -, vulgo “Peixe” ou “Baixinho”.
Para quem quer simplificar poderia ser resumida assim a chapa do candidato ao Senado Romário Faria (PSB), que tem como primeiro suplente o metalúrgico João Batista Lemos, (PCdoB), 61 anos, e segundo suplente Vivaldo Barbosa (PSB), 72 anos, o brizolista histórico. Cristão novo na política, Romário está cercado de reservas que, muito diferente dele, respiram política há décadas.
E são esses senhores que, por ora agem no banco, que podem, mesmo sem receber um voto sequer, sonhar com a vaga de Romário, caso ele seja eleito para o Senado. E caso também a candidata à Presidência Marina Silva (PSB), apoiada por Romário, saia vencedora na disputa. É que se especula até mesmo a concessão de um ministério dos Esportes ao “Peixe” num eventual governo socialista.
Mas isso tudo são conjecturas – como diriam os políticos históricos da época de Brizola e dos autênticos comunistas. O fato é que os suplentes não escondem a satisfação de ter fechado chapa com o craque. “O Romário é impressionante. Aonde a gente vai, o povo quer apertar a mão dele. Ele, como deputado, surpreendeu”, afirma o primeiro suplente – e, portanto, quem tem mais chances de se sentar na cadeira de senador, João Batista Lemos. Vivaldo Barbosa, o segundo na “linha sucessória”, vai na mesma direção: “Ele é uma figura popular.
As pessoas gostaram dele como deputado. O Romário teve coragem e garra”.
E os candidatos desfilam pelo Estado ao lado do Baixinho sem qualquer julgamento de valores políticos ou ideológicos. Ambos negam desconforto de estar ao lado de um político em início de carreira, um astro do futebol que poderia ser taxado de se dar bem como político por obra do carisma. “O Romário é um senador do povo. Eu sou trabalhador de origem metalúrgica, não tive problema algum (em entrar para a coligação do ex-jogador)”, diz Batista, como é mais conhecido.
A dupla fica cheia de dedos quando o assunto é a possibilidade de “roubar” a vaga de Romário, num cenário em que ele fosse alçado a ministro de um governo do PSB. “Nunca passou isso pela minha cabeça. Nunca foi uma pretensão minha. Mas, se vier, vai ser mais uma trincheira de luta por um Brasil mais justo”, afirmou o reserva Batista. Vivaldo Barbosa filosofa: “Pus meu nome à disposição do partido. A gente espera o que o futuro venha fazer. Isso é o destino que resolve”.
Apesar da sintonia quando o assunto é o titular na disputa, nem tudo são flores na coligação de Romário. Os dois suplentes e seus partidos andaram se estranhando durante as convenções para oficializar as chapas. Tudo porque a vaga de primeiro suplente era exigida pelo PSB, mas, por uma série de arranjos e negociações com o PCdoB, esta acabou ficando com os comunistas.
Brizola, um caso à parte
O caso de amor de Vivaldo - o reserva número 2 de Romário - com o PDT acabou em setembro de 2013. Foi com uma carta amargurada, com o título “Adeus, PDT, destroçado amor”, que ele rompeu com o partido do seu maior ídolo, o ex-governador Leonel Brizola. O motivo? Não concordava com a atuação do ex-ministro Carlos Lupi à frente da sigla. “É com lágrimas de sangue e dor de carne exposta que saio do PDT. Tiro uma camisa como se retirasse a própria pele”, lamentou à época. O texto dizia que o “PDT é dirigido pela dupla Lupi e Manoel Dias, que, com a morte de Brizola, colocaram o livro de atas debaixo do braço e montaram estrutura de domínio do partido”.
Hoje, em pleno ano de 2014, Vivaldo sente falta da presença de Brizola nas eleições, para “balizar a disputa” numa fase em que brotam denúncias de corrupção. “O Brizola sempre compreendeu os fatos de forma profunda. Ele teria uma visão clara sobre esse momento delicado da campanha”, afirma, em relação às denúncias de corrupção na Petrobras.
Mas, como ídolo, ainda sobra espaço também para Fidel Castro, ex-presidente de Cuba. A foto de um encontro entre os dois, aliás, estampa o Facebook do suplente pessebista. E com muito orgulho: “Fidel é uma referência. Foi um dos momentos mais bonitos da história da humanidade o que ele fez por Cuba”.