Reciprocidade, cautela e desgaste político: por que partidos aliados de Bolsonaro resistem em apoiar Flávio
Partidos que integraram a base bolsonarista nos últimos anos avaliam riscos e oportunidades antes de fechar uma aliança nacional
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, enfrenta dificuldades para ampliar sua aliança política para a disputa de 2026. A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, já sinaliza uma tendência de neutralidade na eleição nacional, enquanto o Republicanos, partido que apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2022, ainda não confirmou apoio ao parlamentar. O movimento reduz o espaço de articulação do pré-candidato do PL e o deixa mais isolado na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
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De acordo com fontes ouvidas pelo Estadão, o presidente nacional do Partido Progressistas (PP), Ciro Nogueira, tem sinalizado a aliados que a legenda deve permanecer neutra na disputa presidencial e que não pretende fazer oposição ao Palácio do Planalto a partir de 2027, independentemente de quem vença as eleições de outubro. Segundo essas fontes, o dirigente avalia que, atualmente, Lula aparece mais próximo da vitória do que Flávio.
Ao Terra, o PP afirmou que ainda não recebeu uma confirmação oficial do presidente nacional da sigla sobre o tema. A legenda, porém, destacou que, por reunir integrantes dos dois espectros políticos, a neutralidade permite que os diretórios estaduais façam a escolha que considerarem mais alinhadas aos seus princípios e propósitos.
O Republicanos também ainda não declarou apoio ao senador. O partido não respondeu ao contato da reportagem, mas, em entrevista concedida nesta quarta-feira, 22, ao Grupo Z de Comunicação, o presidente nacional da legenda, deputado federal Marcos Pereira (Republicanos-SP), afirmou que a sigla espera reciprocidade do PL para firmar uma aliança nacional em torno da candidatura de Flávio em 2026. Segundo ele, o partido de Jair Bolsonaro não ofereceu apoio aos pré-candidatos do Republicanos aos governos estaduais como contrapartida ao acordo nacional.
O Terra também procurou o União Brasil, mas não recebeu retorno. Nos bastidores, a neutralidade da legenda e do PP tem sido alvo de articulações do governo. Segundo o Estadão, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e o presidente do PT, Edinho Silva, participaram de negociações para que as duas siglas não declarassem apoio a nenhum candidato na disputa presidencial. As conversas foram acompanhadas pelo presidente Lula, que chegou a se reunir com Ciro Nogueira.
Cálculo eleitoral e disputa nos Estados
Para especialistas, a resistência dessas legendas em aderir imediatamente à candidatura de Flávio Bolsonaro envolve mais do que uma avaliação sobre o senador. A decisão também está relacionada ao cálculo eleitoral dos partidos, que buscam preservar espaço para alianças estaduais e uma eventual participação no próximo governo.
Segundo a cientista política e professora da FGV Luciana Veiga, uma posição menos definida no cenário nacional permite que as legendas mantenham maior liberdade de negociação. "Além do sinal de cautela diante das pesquisas eleitorais, um tom menos contundente nacional pode dar mais espaço e liberdade para diferentes composições estaduais, ora mais próximo de Lula, ora mais próximo de Flávio", afirmou.
O cientista político e professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Hilton Fernandes avalia que o comportamento do Centrão segue uma lógica pragmática, com foco na disputa por espaço político. "É natural que partidos do Centrão fiquem mais preocupados com quem vai ganhar a eleição do que quais são as propostas, quais são as ideologias defendidas por cada candidato", disse.
Segundo Fernandes, essas siglas analisam principalmente a capacidade de cada candidatura de gerar votos para seus próprios candidatos. "A busca neste momento é: quem vai trazer mais votos? Com quem eu me alio para conseguir mais votos?", resumiu.
Além da avaliação sobre a disputa eleitoral e o espaço que poderão ocupar em um eventual governo, a coordenadora do Esfera Lab, laboratório de comunicação política da ESPM, Adriane Buarque, afirma que os partidos também observam os desgastes associados à candidatura de Flávio Bolsonaro. Ela cita as repercussões envolvendo o caso Banco Master, o debate sobre o tarifaço dos Estados Unidos e a relação com Donald Trump, além do desgaste com Michelle Bolsonaro, que tem forte representação política dentro do PL. Na avaliação dela, esses fatores contribuem para uma percepção de fragilidade do senador. "A reclamação do Centrão é que não tem desempenho suficiente por parte do Flávio e dos seus interlocutores para construir uma aliança realmente com antecedência", afirmou.
De acordo com a especialista, a neutralidade também funciona como uma forma de preservar espaço independentemente do resultado eleitoral. "A gente vê as relações estaduais desses partidos que muitas vezes estão aliadas ao Centrão, outras vezes ao Lula, então acho que pensar nessa neutralidade é justamente pensar nessas cadeiras também. Então, não sendo a favor nem contra pode pleitar espaço no governo federal que vir a ganhar", acrescentou.
Transferência de Bolsonaro e dúvidas sobre Flávio
Apesar de herdar parte do capital político do pai, especialistas avaliam que a transferência de votos de Jair Bolsonaro para Flávio não é vista pelos partidos como automática.
Para Luciana Veiga, o senador ainda consegue mobilizar o eleitorado mais fiel ao ex-presidente. "Para o eleitorado mais fiel a Bolsonaro, Flávio vem em nome do ex-presidente que está inelegível", explicou. Segundo ela, parte desse apoio está ligada a uma narrativa de reparação política. "Há quem crie a narrativa que o voto em Flávio é uma maneira de fazer justiça, de compensação, é uma atitude política de indignação em relação à prisão de Bolsonaro", disse.
A professora, porém, afirma que esse apoio tende a perder força entre eleitores menos engajados. "Na medida em que vamos nos afastando deste segmento mais engajado, o apoio vai perdendo força. Essas narrativas vão se esvaziando", afirmou.
Na avaliação de Hilton Fernandes, a força eleitoral de Flávio está diretamente associada ao pai. "Flávio Bolsonaro só tem essa quantidade de intenção de voto nas pesquisas por causa do pai. Ele [senador] não tem um histórico político de muitas realizações, aliás, praticamente não tem o que mostrar", afirmou. Segundo ele, os partidos reconhecem a existência dessa transferência, mas avaliam que o senador ainda não possui uma base política própria consolidada. "Os partidos já percebem que essa transferência existe, mas que o candidato é fraco", disse.
Adriane também avalia que o capital político de Jair Bolsonaro não se transfere automaticamente para o filho. Para ela, a política envolve estratégia e avaliação de competitividade. "Se política fosse só amizade, o Ciro Nogueira não deixaria de apoiar o Flávio. Política é estratégia, política é negócio, por isso que eu vejo que não tem essa questão de herança familiar", afirmou.
Impacto na campanha e papel de Tarcísio
A falta de apoio formal das principais siglas do Centrão também pode afetar a estrutura de campanha de Flávio Bolsonaro. No Palácio do Planalto, a eventual neutralidade de PP e União Brasil é vista como um resultado favorável para Lula. Sem o apoio formal dessas legendas, Flávio teria menos tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
Pelas projeções atuais, Lula teria 5 minutos e 32 segundos em cada bloco do programa eleitoral, enquanto Flávio contaria com 4 minutos e 20 segundos caso não consiga atrair novos aliados.
Para Hilton Fernandes, porém, a ausência dessas legendas não inviabiliza completamente a candidatura. "Os candidatos com pouco tempo de TV demonstram ali ter menos apoio, e o eleitor percebe isso", afirmou. Ainda assim, ele pondera que Flávio mantém uma base ligada ao bolsonarismo. "Talvez seja suficiente para ir para o segundo turno, se houver. Mas para ganhar a eleição, teria que ter apoio de mais partidos", avaliou.
Sobre Tarcísio de Freitas, Adriane Buarque afirma que o governador paulista deve evitar uma associação nacional mais forte com Flávio e preservar sua posição estadual. Segundo ela, eventuais apoios estaduais podem ocorrer, mas com cautela para não transferir desgastes da disputa presidencial para a campanha paulista. "Esse arranjo aí de liberdade de palanque vai ser muito bem pensado para não trazer esse desgaste da figura de Bolsonaro para dentro da campanha de Tarcísio", afirmou.
Luciana Veiga também destaca que a neutralidade formal dos partidos não impede movimentos locais. Segundo ela, lideranças estaduais podem apoiar diferentes candidatos conforme seus interesses políticos. "Os partidos podem manter uma posição formal de neutralidade na disputa presidencial e, ao mesmo tempo, permitir que suas lideranças estaduais apoiem diferentes candidaturas, de acordo com as alianças e os interesses políticos locais."

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