Entenda a investigação do filme ‘Dark Horse’ em 5 pontos
Mais cedo, PF deflagrou uma operação para investigar o desvio de recursos de emendas parlamentares para o financiamento do filme
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)Flávio Dino tirou, nesta quinta-feira, 10, o sigilo da ação sobre o filme Dark Horse, que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A suspeita é de que o filme tenha sido financiado com recursos de emendas parlamentares.
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Mais cedo, a Polícia Federal deflagrou uma operação para cumprir mandados de busca e apreensão o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a produtora de Dark Horse, Karina Gama, dona da Go UP Entertainment Ltd, além de outras 20 pessoas. No total, estão sendo cumpridos 49 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. A operação não tem mandados de prisão. Durante a ação, os policiais apreenderam sete armas do parlamentar. O Terra busca contato com as defesas de Frias e Karina sobre o caso.
Estão sendo investigados os seguintes crimes:
- peculato;
- falsidade documental;
- lavagem de dinheiro;
- organização criminosa; e
- crimes licitatórios.
Entenda investigação em 5 pontos
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Mário Frias apontado como ‘agente central’
Conforme o ministro Dino, há “fortes indícios” de que Mário Frias seja o “agente central” da organização criminosa, que teria sido estruturada para “captar, disseminar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas”. A investigação aponta que o parlamentar teria repassado para o Instituto Conhecer Brasil (ICB), cuja presidente é a produtora Karina Gama, R$ 2 milhões por meio de duas emendas.
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Coincidência entre gastos do filme e envio de emendas para produtora
A PF apontou coincidências entre os gastos do filme Dark Horse e o envio de emendas parlamentares por parte de Frias à produtora Go Up Entertainment Ltda. O relatório afirma que foram identificadas movimentações consideradas atípicas em contas correntes da Go Up abrangendo o período de 10 de novembro de 2025 a 30 de dezembro de 2025.
Ainda segundo a corporação, as gravações do filme que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ocorreram entre os dias 20 de outubro de 2025 e 7 de dezembro de 2025, em São Paulo, mesmo período em que ocorreram as transações financeiras da empresa de Karina Gama.
A empresa movimentou o montante de R$ 19.033.071,00. Destes, R$ 645.400 foram enviados por Mário Frias. A PF ressaltou os gastos das gravações, que envolveram hospedagem de alto padrão, custeio com alimentação e pagamento a outras produtoras ligadas à produção.
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Karina estava a frente de mais de uma empresa investigada
Além da Go UP, outras empresas ligadas às Karina Gama fazem elo com a investigação sobre o possível desvio de emendas: o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas por ela.
A ANC teve indicação de recursos de R$ 1,1 milhão, de recursos públicos destinadas ao projeto "Heróis Nacionais", de autoria dos deputados federais Marcos Pollon e Bia Kicis, mas os recursos não chegaram a ser repassados à entidade. Os parlamentares não são investigados no caso.
A ICB recebeu os R$ 2 milhões destinados por Frias e também é responsável por um contrato de mais de cerca de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a implantação e manutenção de pontos de wi-fi gratuito em comunidades periféricas. A empresa teria sido contratado por meio de chamamento público, e subcontratou outras para fazer o serviço, como a Complexsys Apoio Administrativo, Ultra IP Tecnologia e Serviços e Urban Connect Serviços e Tecnologia.
A análise da PF aponta que a Urban, antes se chamava Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, e tinha como único sócio Alex Leandro Bispo dos Santos, integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC). Em janeiro deste ano, ele se retirou da sociedade.
“A comunicante informa que a empresa Urban Connect solicitou, em 27/02/2025, aumento do limite para transações TED, pleiteando limite diário de R$ 600.000,00 e por evento de R$ 300.000,00, justificando que passaria a receber recursos decorrentes de contrato de prestação de serviços firmado com o Instituto Conhecer Brasil relacionado ao projeto ‘Wifi Livre SP’, cujo valor total seria de R$ 12 milhões”, diz o relatório.
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Omissão de informações
Ainda conforme a ação, entre 2024 e 2026, Karina e outros indivíduos ainda não identificados, teriam inserido e “fizeram inserir declarações falsas ou diversas daquelas que deveriam constar em contratos, orçamentos, relatórios de execução, documentos de contratação e demais registros apresentados à administração pública”, omitindo informações relevantes sobre o projeto para qual recebeu as emendas de Frias.
Eles seriam o 971232, um projeto que visava desenvolver e implementar uma metodologia de letramento digital e empreendedorismo para capacitar adultos e adolescentes, e o 964068, para a implementação e desenvolvimento do projeto “Lutando Pela Vida no Estado de São Paulo/SP”.
Entre as informações emitidas estão a data de elaboração, da execução dos serviços contratados, da capacidade operacional dos contratados e da regularidade dos procedimentos adotados, “com o fim de alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante e conferir aparência de legalidade à utilização dos recursos públicos federais”, segundo o processo.
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R$ 750 mil de recursos públicos podem ter abastecido produtora de Dark Horse
A PF suspeita ainda que pelo menos R$ 750 mil provenientes de recursos públicos foram desviados para abastecer a Go UP. Conforme as investigações, o ICB movimentou R$ 83 milhões entre setembro de 2023 e agosto de 2024. Parte desses recursos foram repassados para pessoas ligadas ao próprio Mario Frias, em um processo que a PF vê como uma devolução de recursos públicos investigados.
A investigação analisou parte do caminho do dinheiro até o "Dark Horse" ao detectar que o ICB fez pagamentos a duas editoras ligadas a uma terceira empresa que repassou valores à produtora Go Up.
"Tais fatos se tornam relevantes na medida em que, no mesmo período, a NTT Brasil de Heric Dias enviou R$ 750.000,00 para a Go Up Entertainment, valor quase que exatamente correspondente aos R$ 700.000,00 que a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional, do mesmo grupo empresarial, receberam do ICB no escopo do Termo de Fomento n.º 971232, cujo objeto somente veio a ter tentativas de execução em 2026, portanto, após o período ora tratado", diz a PF.
Embora a polícia afirme que os elementos apurados ainda não comprovam a origem direta entre os recursos públicos recebidos pelo ICB e os repasses indiretos à produtora, a investigação admite que a proximidade temporal mostra relevância nas operações financeiras. Também aponta suspeitas em pagamentos de Mario Frias à produtora, por serem de valor elevado. A PF diz que ele não tinha lastro para realizar esses repasses.
"A Go Up Entertainment, por sua vez, movimentou R$ 19.033.071,00 entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período em que recebeu recursos de diversos remetentes, dentre eles a NTT Brasil (R$ 750 mil) e o próprio Deputado Federal Mário Frias (R$ 645,4 mil), sendo que as filmagens da cinebiografia ocorreram entre outubro e dezembro de 2025, coincidindo temporalmente com as movimentações financeiras analisadas", declarou a PF.
Em Dark Horse, Frias exerce o papel de roteirista e produtor-executivo. O filme produzido por Karina Gama tem o ator norte-americano Jim Caviezel no papel principal.
Compartilhamento de dados
A própria PF pediu acesso ao material para ampliar as investigações sobre suspeitas de desvios de recursos públicos, sobretudo emendas parlamentares, envolvendo a produtora. O roteiro de Dark Horse é assinado pelo deputado federal Mário Frias, que, em 2024, destinou R$ 2 milhões em emendas para a ONG do filme.
Em maio, a defesa de Mário Frias negou ao ministro Flávio Dino que tenha feito triangulação de repasse de emendas para financiar a produção do filme. O deputado disse que a alegação é "puramente especulativa", baseada em "pré-julgamento" e um "argumento frágil, insuficiente e juridicamente irrelevante para sustentar qualquer irregularidade".
Suspeitas
Nas primeiras horas do mês de junho, a 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), deflagrou uma operação para investigar a suspeita de fraude em uma licitação da Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões, vencida pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), de propriedade de Karina Ferreira da Gama.
Na ocasião, o ICB, a Go UP, dois endereços residenciais de Karina e a sede da Secretaria Municipal Inovação e Tecnologia foram alvos da operação, que cumpriu oito mandados de busca e apreensão determinados pela 1.ª Vara Regional da Garantias (1.ª RAJ).
A Polícia Civil também requisitou à Justiça acesso às análises do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações financeiras feitas pelo ICB, pela Go Up e por Karina. Entre as hipóteses investigadas está a de que parte dos recursos possa ter ido parar nos cofres da Go Up durante o tempo em que o filme Dark Horse foi produzido.
A obra teve mais de 90% de seu orçamento bancado com dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro. O financiamento secreto foi tratado entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro mesmo depois da prisão de Vorcaro por fraudes bilionárias, em novembro de 2025, segundo mensagens encontradas pela Polícia Federal em um dos celulares do banqueiro. *(Com informações do Estadão Conteúdo)
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